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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

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Delirium Tremens #7

À ESPERA DA DESCOBERTA
Disco de banda curitibana com composições de Paulo Leminski é bom exemplo de grandes trabalhos que alcançam públicos restritos no Brasil
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

s dimensões continentais do território brasileiro trazem benefícios e desvantagens ao país em vários aspectos, da economia à política. Na música, questões de ordem geográficas também têm seu peso. Se por um lado o vasto território é responsável pela diversidade dos sons, por outro a distância ainda torna obscura algumas manifestações musicais. É fato que o incremento das cenas musicais fora do eixo Rio-São Paulo e o auxílio da internet têm trazido bons resultados no que diz respeito à comunicação e à troca de informações entre consumidores de música. Porém, ainda é comum que bandas do Rio Grande do Sul ou Paraná sejam pouco conhecidas em Estados como Maranhão e Bahia, e vice-versa.

Assim muitas preciosidades sonoras ficam reduzidas a públicos “regionais”. Um exemplo disso é a banda curitibana Blindagem, em especial o seu álbum homônimo de estréia. Lançado em 1981 e gravado pelo selo Continental, o disco é uma preciosidade esquecida do rock tupiniquim.

Formado pelo vocalista Ivo Rodrigues, pelo guitarrista Paulo Teixeira – músicos que integraram outro combo paranaense chamado A Chave –, pelo baixista Alberto Rodrigues, pelo baterista Marinho Junior (depois substituído por Pato Romero) e pelo guitarrista Paulo Juk, o grupo produziu um álbum fantástico, que prima por letras elaboradas e melodias deliciosas, porém pouco lembrado – e ouvido – pela crítica e pelo público nacional.

Um verdadeiro tesouro a ser descoberto, a primeira empreitada da Blindagem tem um conteúdo poético só encontrado nos discos dos Secos & Molhados. A maioria das canções saiu da explosiva parceria entre os amigos Paulo Leminski, à época um poeta reconhecido nacionalmente, e Ivo Rodrigues, cantor e compositor de talento que desde a década de 70 destilava seu vozeirão pelos bares de Curitiba.

A maioria das músicas nasceram de jams sessions regadas à vodka feitas na Cruz do Pilarzinho, bairro onde Leminski morava e reunia os amigos. Das dez canções do disco, sete têm a assinatura do Polaco, como era conhecido o bardo. No auge de sua forma como escritor, tradutor, letrista e poeta, Leminski foi figura chave para que o disco se tornasse grande. As letras falam basicamente da relação do homem com a natureza, as palavras e a morte. Aliás, a faixa que abre a bolachona (hoje é possível encontrar o disco em formato CD), “Oração de um suicida”, composta pelos irmãos Paulo e Pedro Leminski, é uma das melhores canções do grupo. Tocada até hoje com bastante emoção por bandas do Paraná – a banda Relespública canta trecho da música ao final da faixa “Minha Menina” (Gilberto Gil), gravada no CD MTv apresenta –, a letra fala sobre a natureza de modo bastante poético e inspirado.

Ironicamente um dos compositores, Pedro, anos depois de ter composto a música, colocou uma corda no pescoço e se suicidou dentro de um quarto de pensão no São Franscico, bairro curitibano.

O disco é recheado de baladas que mesclam com perfeição melodia à letra. O lado A – primeira parte do disco, onde em geral eram colocadas as canções com maior poder de fogo – ainda traz “Não Posso Ver”, em que Ivo Rodrigues canta com suavidade a linda letra; e “Palavras”, que fala sobre as sonhadas frases perfeitas dos poetas.

O lado B traz mais cinco canções que não deixam o ótimo nível empreendido na primeira parte cair. “Marinheiro”, que na época chegou a tocar em rádios de São Paulo; a lindíssima “Gaivota”; a agitada e libertária “Quanto Tempo Mais”, juntamente com a regravação de “Berço de Deus”, da dupla caipira Milionário e José Rico, que contou com a participação de Almir Sater na viola de dez cordas, não deixam dúvidas sobre o valor musical da obra.

Para fechar com maestria os trabalhos, a banda escolheu a hiponga “Cheiro do Mato”. A música é o resumo perfeito da atmosfera vivida naquele momento. Sua letra fala da natureza, do pinhão (semente comestível contida na pinha do Pinheiro-do-Paraná e bastante popular no sul do país), da necessidade de paz e dos resquícios de fraternidade que ainda pairavam no ar após os anos do flower power . Com certeza a mais curitibana das canções da Blindagem.

Também conhecido pelos fãs como “Verdura” – devido a uma informação contida na capa: ‘Incluindo Verdura'– o debute da Blindagem ainda traz Paulo Leminski, em uma gravação tosca, declamando “Se houver céu”, um de seus poemas. Apesar da simplicidade do projeto gráfico e de conter pouquíssimas informações sobre a banda, tudo no disco soa com um ar clássico. A foto da capa, com apenas um mochileiro no alto do pico do Marumbi, na Serra do Mar paranaense, casa perfeitamente com a estética musical da banda.

Após a realização do disco, o grupo esboçou uma carreira entre o eixo Rio-São Paulo que não vingou. Depois da volta à terra natal a banda continuou produzindo bons discos calcados no rock setentista e até hoje está na estrada.

O disco de estréia da banda curitibana, talvez pela inacessibilidade do público à obra, nunca chegou a figurar entre os bons discos da música pop nacional – nem citado pela mídia especializada é. Não é um caso isolado nem tampouco único. Há com certeza muitos casos parecidos, muitas preciosidades esquecidas entre os rincões do Brasil. Se há algum consolo nisso, é de que na música como em qualquer manifestação artística, nunca é tarde para descobertas, sempre há tempo para reparações. Então que seja.