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26 de setembro a 11 de outubro de 2006

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Delirium Tremens #8

JOSÉ ROBERTO
Um conto sobre alguém que se desloca para se manter fixo
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

osé Roberto saiu de casa aos 12 anos de idade e nunca mais voltou. Saiu pela porta de trás quando todos dormiam. Andou 100 Km até achar uma cidade e pegar um ônibus para o centro do país. Nasceu e viveu na pobreza. Quis mudar de vida e por isso resolveu sair de casa. Não agüentava mais a miséria.

Hoje, passados muitos anos, José Roberto não se lembra mais das coisas que passou. O outrora mal vestido José Roberto, hoje só usa terno e gravata. Cansou dos trapos. Come apenas em restaurantes caros porque cansou de se alimentar com sobras. Hoje José Roberto é casado e tem dois filhos da idade que tinha quando resolveu fugir de casa. Sua mulher gosta de gastar e José Roberto não se importa em pagar os vestidos e jóias que ela compra nas lojas do shopping. Os filhos de José Roberto estudam na melhor escola da cidade. Os garotos são os mais atrasados da turma, o que não chegava a incomodar José Roberto. José Roberto sempre quis que os filhos estudassem nos melhores colégios da cidade porque sempre odiou o ensino público. Jurou nunca mais entrar em uma escola do governo e assim o fez.

A sogra de José Roberto passa o dia no bingo gastando o dinheiro do genro. Diz às amigas que “Zé Roberto adora vê-la feliz” e que “a ama”. Pura mentira. José Roberto acha a sogra uma mulher horrorosa e odeia o cheiro do laquê que a velha usa. Faz vistas grossas porque não gosta de desentendimentos familiares. José Roberto já teve muitos desentendimentos familiares. Agora não mais.

Certo dia José Roberto flagrou a empregada roubando comida da despensa. A moça disfarçou e na hora que ia confessar o pequeno delito o patrão fez um discurso de agradecimento ao empenho de sua funcionária nos serviços domésticos, tirou do bolso a carteira e deu uma gorjeta para agradecer o empenho da serviçal. José Roberto fizera isso porque não lhe agrada ver gente sendo presa. José Roberto já foi preso. Sem saber o que fazer, a empregada deu um abraço no patrão e chorou.

José Roberto também não gosta de discriminação. José Roberto tem 16 empregados em casa. Lá apenas brancos trabalham nos serviços modestos. Nas suas empresas não é diferente. Só admite brancos para serem serventes e pedreiros, por exemplo. Para os negros, japoneses e descendentes de indígenas delega os melhores cargos. Faz isso porque acha que está na hora dos brancos verem como é o trabalho pesado. José Roberto já trabalhou muito em serviços pesados. José Roberto só contrata brancos porque quer que os brancos vejam como é o trabalho dos pretos. Quer deixar as coisas no zero a zero.

José Roberto tem em todos os cômodos da casa uma televisão. Até nos banheiros. Não que seja um aficionado por TV, é que não quer correr o risco de perder os jogos de futebol caso um dos aparelhos pife. É por esse motivo também que mantêm um gerador de energia no porão da casa. Já perdeu muito futebol na vida e não quer mais ter o desprazer de ficar sem suas partidas. José Roberto não tinha televisão quando era criança.

José Roberto gosta de andar com carros de luxo porque acha que os carros velhos só trazem aborrecimento. Nunca anda a pé porque gastar sola de sapato é coisa de pobre. José Roberto já foi pobre e andou muito a pé.

José Roberto é sócio de vários clubes da cidade porque não gosta de ficar sozinho, sem ninguém para conversar. Não é a pessoa mais simpática do mundo, mas gosta de ser reconhecido e cumprimentado pelos vigias quando entra nos clubes que freqüenta. Dá gorjetas generosas aos garçons porque acha que os donos dos bares e restaurantes não pagam bem. José Roberto nunca teve amigos na infância.

José Roberto também gosta de tomar, diariamente, banhos de leite. Diz que sua pele fica macia e que o líquido diminui as marcas de sol que tem no corpo. Após o banho, José Roberto passa três tipos de creme no corpo. Tem também um creme para as mãos e outro para passar entre os dedos dos pés. Gosta muito também de se refrescar com uma loção francesa. Odeia cheiro ruim. Acha que todas as pessoas deveriam ter diversos tipos de perfume em casa, um para cada dia da semana, pelo menos. José Roberto tem também uma manicure particular. Ter unhas grandes é desagradável. Quando criança José Roberto não tomava banho, vivia fedendo e por isso hoje odeia o cheiro do suor.

José Roberto já flagrou a mulher transando com um dos motoristas da casa. Fez que não viu e saiu para o trabalho como se nada tivesse acontecido. Na volta, na hora do jantar, deu de presente à mulher um colar de pérolas. Atônita, a esposa lhe agradeceu e prometeu fidelidade e amor eternos. José Roberto riu contente e a beijou com vontade. José Roberto não é bobo, apenas quer evitar os desgastes do dia-a-dia. Nunca gostou de confusão. Gritos são démodé , costuma dizer. José Roberto prefere ser cavalheiro porque não gosta dos homens rudes. José Roberto conheceu muitos homens rudes. José Roberto foi um homem rude.

As atitudes de José Roberto surpreendem as pessoas. O cunhado de José Roberto é viciado em drogas e um dia chegou ao ponto de lhe roubar um dos seus carros para pagar um traficante. Assim que soube do roubo José Roberto convidou o cunhado para ir à praia passear em seu iate. Durante a viagem, mandou um de seus empregados entregar meio quilo de cocaína ao cunhado. José Roberto nunca gostou de ver ninguém passar vontade. José Roberto já passou muita vontade e sabe que não é nada bom.

Algumas pessoas dão risadas das atitudes de José Roberto; outros admiram seus atos nobres e pacíficos. Há ainda quem diz que José Roberto é louco, que não vê o que acontece debaixo do nariz. José Roberto nunca chegou a pensar nisso, não gosta de se preocupar à toa. José Roberto é um homem de bem.

Em um dia de sol, bonito e quente José Roberto resolveu se olhar no espelho. Apesar de ser vaidoso, quase nunca se olhava no espelho. José Roberto olhou com bastante calma para a própria fisionomia e viu que estava ficando velho. Mesmo com muito dinheiro, estava ficando velho. Mais do que ter a certeza de que estava envelhecendo, José Roberto podia ver toda sua trajetória refletida naquele espelho. Via a infância pobre e miserável, o crescimento profissional, as alegrias e tristezas. E mais, podia ver todos a sua volta, quem o enganava e quem o amava. José Roberto ficou se olhando por um bom tempo. Era bom ver sua trajetória, como a um longa-metragem, passando diante daquele espelho.

Depois daquela longa observação, José Roberto se arrumou às pressas e saiu de casa. Não apenas de casa. Foi para fora do país sem avisar ninguém. Seus parentes, amigos e agregados não sabiam onde encontrá-lo. Procuraram por todos os lugares e não o acharam. José Roberto partira porque estava cansado. Foi embora porque sabe que é sempre bom mudar. Não é legal fazer sempre as mesmas coisas. José Roberto continua mandando dinheiro para a família porque não gosta de ver ninguém passar dificuldade. José Roberto está feliz e não pensa em voltar.

* Nota da editora: O subtítulo deste conto faz uma alusão a um trecho de João Gilberto Noll, do livro Berkeley in Bellagio . A pergunta original é: Sou alguém que se desloca para me manter fixo?