Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

6 a 21 de novembro de 2006

Equipe Edições Anteriores

Delirium Tremens #9

O RETORNO DE BANDINI
Publicação no Brasil do melhor da obra de John Fante e versão cinematográfica de Pergunte ao Pó botam novamente o fracasso de Bandini em cena
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

ohn Fante é hoje, juntamente com Charles Bukowski, um dos escritores mais idolatrados por parcela significativa dos novos escritores brasileiros. Sobretudo por aqueles autores que tiveram na internet o canal ideal para divulgar sua produção literária.     

Depois de virar guru da geração Beat no começo dos anos 1950, passar décadas no limbo e ser resgatado pelo próprio Bukowski, seu admirador de primeira hora, nos idos de 1980, Fante ressurgiu com força no Brasil há alguns anos com o relançamento de boa parte de sua obra. 

Muito desse interesse das novas gerações se deve a Pergunte ao Pó (Ask the Dust), romance de maior sucesso do escritor norte-americano e que recentemente ganhou versão cinematográfica – bastante fraca por sinal.

Escritor hábil, Fante valeu-se de sua experiência pessoal para compor grande parte dos romances e contos que escreveu. Talvez resida nesse detalhe o fascínio despertado pela literatura do autor em escritores que se dedicam a escrever livros que beiram a autobiografia e o diarismo.

O romance em questão, desde a primeira edição nacional, traduzida pelo poeta Paulo Leminski, ganhou fama e status de obra cult. O livro narra as aventuras e, principalmente, desventuras de Arturo Bandini, um jovem escritor, filho de imigrantes que sai da cidade natal no Colorado e vai para Los Angeles em busca de reconhecimento no mundo das letras.

Alter ego de Fante, Bandini esbanja prepotência e arrogância precoces. O ego inflado é a forma encontrada por ele para superar a solidão e a pobreza em que vive. Escritor de um conto só, é uma espécie de anti-herói que vaga meio sem destino por um lugar que lhe é estranho. Sem escrúpulos, faz de tudo para viver de sua literatura. Pede dinheiro para a mãe e redige cartas mentirosas sobre sua condição em Los Angeles. 

Arturo Bandini quer ser reconhecido como grande escritor e homem experiente; quer falar de sexo e drogas; quer ser um boêmio e conquistador; demostrar toda sua erudição e sapiência. Porém seus 20 anos mal vividos o traem.

Já na cidade grande apaixona-se por uma tal Camila Lopez, garçonete mexicana que na maior parte do tempo o despreza e não reconhece seu talento como escritor. Tal relação, conflituosa e bastante dúbia, culmina em um final comovente.

Literatura sem floreios

A literatura de Fante é deliciosa, leve. As situações aparentemente banais vividas pelo personagem principal são narradas com elegância.  Bandini está impregnado em Fante, não quer sair. As cenas de Bandini no submundo de Los Angeles são bastante visuais e colam na cabeça do leitor, que tenta imaginar como seriam os lugares freqüentados pelo intrépido personagem. Os bares decadentes de Bandini, o quarto lúgubre e apertado, os rostos cansados e maltratados descritos pelo jovem escritor, como seriam? Certamente totalmente diferentes dos cenários bem arrumados e coloridos da versão cinematográfica de Pergunte ao Pó. O livro de Fante traz consigo um lirismo espontâneo e simples que a película de Robert Towne não consegui traduzir.
 
Mas o romance de Fante pode ser visto também como um retrato dos primeiros anos pós-recessão nos Estados Unidos. Não o retrato da perda de privilégios tal como fez F. S. Fitzgerald e tantos outros, mas sim o relato de alguém que tenta sair de uma condição que lhe é sufocante. Escrito em 1939, a história do jovem Bandini serviu como fonte de inspiração para uma nova e talentosa geração de escritores que apareceria para o mundo nos anos 1950. Os já mencionados Beatnicks, representados pela prosa onírica de Jack Kerouac, tiveram em Fante uma espécie de guru.

A escrita fácil e sem amarras de Fante aproxima Pergunte ao pó de O apanhador no campo de centeio, também referência para uma gama enorme de escritores e leitores. Assim como Fante-Bandini, Seymour é levado pelas amenidades da vida. Em comum, os dois têm o fato de serem pessoas deslocadas em um mundo, aos seus olhos, cruel e impiedoso.

Após Pergunte ao pó, Fante continuou publicando romances como À oeste de Roma, Rumo a Los Angeles e um livro de contos chamado O vinho da juventude – todos publicados no Brasil pela editora Brasiliense. Para ganhar dinheiro, o autor trabalhou como roteirista em Hollywood. Fez o roteiro de filmes como Full of life, Jeanna Eagels e Walk on the wild side. Porém nada que supere o lirismo de Pergunte ao pó. Há outros bons títulos como Espere a primavera, Bandini, seu debute literário, e Sonhos de Bunker Hill, ultimo rebento que traz Arturo Bandini tentando a vida como roteirista de cinema.

O fato de Fante ter escrito sobre si mesmo não o transforma em um autor menor ou coisa parecida. Fazer literatura a partir de experiências pessoais também pode ser interessante. Fante e tantos outros que o fizeram, souberam transformar suas vidas em literatura e vice-versa. Mas para que isso dê certo é preciso habilidade. E talvez seja isso, habilidade, que falte aos escritores que simplesmente escrevem sobre suas rotinas e não conseguem transformar o cotidiano em literatura. O grande barato da ficção de Fante é que ele parte de coisas banais que, em poucas linhas, transformam-se em histórias pungentes e cheias de emoção.

John Fante certamente não está entre os grandes mestres da literatura. Porém seus livros e, sobretudo seu jeito simples, econômico e direto de escrever, tem cativado muitos leitores. Some-se a isso o culto que paira por sua persona e teremos um escritor com muitos créditos. Para um homem que fez carreira paralela no cinema isso certamente não é pouca coisa.