| Espaço Aberto #1
A IMPORTÂNCIA DE UM FESTIVAL DE ROCK
Uma leitura diferente sobre um público que busca suas raízes num show música
por
Bruno Moreschi ( brunomoreschi@hotmail.com )
ste não é um texto sobre como foi o festival de música Claro q é Rock . Para informações jornalísticas, acesse outros jornais, como a Folha . Entre no Estadão e leia como o ex-vocalista do Faith no More faz pose de não vocalista de pós-rock. Enfim, veja como o festival no Rio foi um fiasco no Jornal do Brasil e observe como os cariocas percebem aos poucos que a cidade maravilhosa perdeu faz tempo o título de capital cultural para São Paulo.
Nessas linhas você só encontrará a história dos 10 jovens que estavam entre 20 mil na chácara paulista do Jockey Club. Hoje, o que aqueles poucos têm em comum: cabelos grandes e doses cavalares de nostalgia. São velhos amigos, atuais não-amigos, que se encontram em festivais de rock para relembrarem um tempo perdido e reforçarem suas próprias caricaturas.
Nenhuma descrição é melhor do que esta para retratar os personagens dessa história. Eles estão entre os 9% dos jovens entre 18 e 24 anos que estudam em universidades, mas fazem questão de negar seus privilégios de classe média alta ao despentearem milimetricamente seus cabelos, abandonarem suas barbas ralas e se vestirem, tampando um perfume caro e duas tatuagens, roupas rasgadas, porém caras.
Metade desses 10 jovens continuarão morando pelo resto de suas vidas na mesma cidade natal. Os outros 5 foram para a capital do Estado que vivem. Mas tanto os pertos como os de longe torcem para que o autor não escreva o nome das cidades, porque a mesada ainda vem dos pais que fingem que os filhos não fumam maconha. E como o texto vai falar um pouco de droga, eles temem. Aliás, todos evitam a palavra mesada, preferem investimento. “O último dinheiro”, afirmam os pais que irão sustentá-los até não puderem mais.
Todos categoricamente criticam a banda mais pop do festival. Eles esnobam as crianças que, em companhia dos seus pais, foram assistir o show do Good Charlote. Reclamam que chegaram cedo demais, que aquilo é jardim de infância. Ninguém lembra que todos eles, na idade daqueles pirralhos, gostavam de Ace of Base , e os mais insistentes seguiram com “gosto duvidoso” até Spice Girls .
No show do Fantomas, enquanto Mike Patton faz barulhos estranhos com a boca e mostra sua banda em que o baterista toca de perfil, um dos 10 surge com a namorada. Ele xinga, “aquilo não é banda”, mas, na verdade, sente por não ter desprendimento de colocar no seu grupo, que tenta imitar Secos e Molhados, aquilo que chama de inaudível.
A namorada é sufocada pelos seus braços. Ela não é “das antigas”, como quase todas as acompanhantes. Entretanto, teve que aderir inquestionavelmente aos vícios e tiques do grupo que jura amizade eterna. Mas a verdade é: eles não são mais amigos. Por um simples fato: não compartilham mais os mesmos gostos. Então, como e por quê trocam juras de lealdade?
A bola em que Wayne Coyne, do Flaming Lips, entra para se aproximar da platéia, responde. Seis a odeiam, três a amam e sobra um que geralmente não tem opinião formada. Mas para que as rusgas não se tornem visíveis, todos fingem ser apenas um. Eles trocam frases sem verbo ou sons onomatopéicos. Grunhidos são promessas de eterna familiaridade e expressões como “do caralho”, “foda” e “puta que pariu” podem ser entendidas como reprovação ou admiração.
A luta para parecerem amigos é a imensa necessidade de alimentarem algo que relembre um tempo mais fácil. Em breve, serão advogados ou médicos, como seus pais almejam, e isso resulta em um esforço gigantesco de responsabilidade. Os pulos de Iggy Pop aliviam a chegada da vida adulta e são tão fakes como as atitudes primitivas que trocam ao longo do festival.
O auge vem com Sonic Youth. Junto com Pixies e Weezer, a banda era a trilha sonora do famoso período em que possuíam uma casa na árvore. Ao longo de anos, pendurados todos os sábados ao som de “Sunday”, “Here comes your man” e “Sweater Song”, eles seguiram a trajetória: revistas pornográficas só de mulheres, depois de sexo explícito – e foi quando alguns deles começaram com suas duvidas sexuais -, cerveja, vodka com guaraná, vodka pura, maconha e até que...Até que um deles foi pego em conversa virtual e suspeita com um senhor de cueca, gordo e calvo.
O último show de musica e luz não foi visto pelos 10. Entre Nine Inch Nails e os ônibus de excursão, escolheram a segunda opção, porque estamos ficando velhos. “Mas para sempre amigos”, relembra um.
São quatro da manhã. Os 10 se separam em dois grupos de 5. Um ônibus vai para a cidade natal onde tudo começou. Outro vai para a capital. Eles se abraçam como melhores amigos. Sabem que logo se encontrarão no Pearl Jam . O ano de 2005 foi repleto de shows: Cake , Tim festival , Curitiba Rock Festival e agora Claro q é Rock . Por isso, de fato, a amizade entre eles finge continuar.
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