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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006

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Espaço Aberto #2

A EXPERIÊNCIA NO ESCURO
Por que a espécie humana não se cansa de ir ao Cinema
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

ocê sai de casa. Você entra no carro, ou no metrô, estaciona, ou salta do veículo, compra uma entrada, entra numa sala, onde outras pessoas já estão sentadas, procura um lugar, desliga seu aparelho celular, espera as luzes se apagarem, e quando isto finalmente acontece, por duas horas você não vai falar, não vai se movimentar, apenas vai ver um facho de luz cortar a escuridão. Daquele facho de luz vem o motivo de toda a sua ação: uma história vai ser contada para você.

Bem vindo ao Cinema. O ritual não é estranho para nenhum de nós; no entanto, se analisarmos friamente, parece um esforço enorme, por uma ação muito fútil. Tanto que muita gente prefere “esperar pelo dvd”. No conforto de suas casas, é mais fácil ver um filme, sem se incomodar em lutar por espaço por um braço da cadeira com um vizinho ranzinza, sem celulares tocando, sem barulho, no tranquilo recesso do lar. Mas quem espera pelo dvd perde a Experiência do Cinema.

Quando estamos no cinema, nas melhores sessões de nossas vidas, estamos em transe. E os melhores filmes fazem com que esse transe seja algo coletivo. Eu pelo menos tenho uma espécie de “memória afetiva” de filmes que me marcaram, que saíram comigo do cinema e me acompanharam, sendo encenados de novo, por dias a fio, no projetor pessoal da minha mente. E acredite, amigo leitor: esse filme que nós reconstruímos a partir da memória do filme original, não tem preço, é mil vezes melhor, mais colorido, mais forte e intenso do que o que a nossa retina captou na sala de cinema.

Tenho uma lembrança vívida, por exemplo, de assistir Aliens no maior cinema de Belo Horizonte, o Cine Brasil (a maior bilheteria do país inteiro durante muito tempo). A platéia do Cine Brasil não seguia à risca o procedimento que eu citei no início (principalmente no que diz respeito a não falar e não se movimentar) mas, no caso do Cine Brasil, isto fazia parte do espetáculo. Por volta de meia hora de história, a Tenente Ripley salva uma equipe de soldados de serem comidos por aliens. A platéia começou a ficar mais tensa e rir amarelo. E assim foi, até a cena em que Sigourney Weaver, fugindo com a menina a quem se afeiçoou, cai exatamente no covil das criaturas. Vindo logo depois de uma cena cheia de ação e barulho, onde a platéia gritava mais do que nunca, ela nos deu um choque, por não ter quase barulho nenhum. Acompanhamos o olhar de Sigourney Weaver, quando ela vê os ovos do parasita, depois tem a noção do espaço e percebe que são milhares de ovos, que saem de uma cloaca enorme, que na verdade é a Mamãe Alien. Ela percebe o perigo que a Tenente Ripley representa para a sua cria e se afasta, propondo uma trégua. Ripley dá dois passos para trás. Só ouvimos o barulho do vento. No Cine Brasil, a queda de um alfinete no chão seria intensamente notada. Até que Sigourney Weaver abre o seu lança-chamas, dá um berro, e todas as almas dentro do Cine Brasil começam a gritar como se o incêndio fosse explodir suas cabeças.

Não conheço as pessoas que estavam comigo no Cine Brasil naquele dia, mas tenho certeza que elas até hoje devem ter sentido o mesmo que eu, embora algumas delas não dêem tanta importância ao fato. A Experiência do Cinema nos envolve a todos durante aquelas duas horas em que nos deixamos hipnotizar no escuro. Ali somos de novo crianças deitadas na cama, esperando que nos contem uma história para podermos dormir… e sonhar.

O engraçado é que eu já tentei reviver esta Experiência com Aliens em outros momentos, vendo no dvd, até mesmo em outra sala de cinema. Mas não adianta. Hoje, para mim, o fogo parece meio mal-feito, a Mamãe Alien parece mais um brinquedo de plástico que um monstro, a cor esmaeceu, o fogo se apagou. Adoro Aliens, mas a experiência do Cine Brasil se perdeu. Foi um fogo que se consumiu exatamente no momento em que acontecia, uma explosão resultante do encontro entre a fagulha do cinema e o combustível mais poderoso de que se tem notícia: a imaginação humana. Dentro de nós, recontamos a história, somos nossos próprios encenadores, e colocamos nela um ardor que era menos do filme que do fato de sentir aquilo como uma eletricidade, uma energia que passa por cada poltrona, cada retina, que une como uma coletividade pessoas que nunca se viram e na maioria das vezes nunca vão voltar a se ver. Por isso nunca acredito quando dizem que o hábito de ir ao Cinema vai morrer. Cinema é conjunto, é experiência compartilhada. No dvd temos o controle, o conforto, a praticidade. Mas falta a comunhão da Experiência. Um filme em dvd mata o tempo. Um filme no Cinema nos faz viajar no tempo. Lembro-me até hoje de assistir Era uma vez na América e, ao final, perceber que envelheci 70 anos junto com o personagem principal.

As luzes se acendem. Neste momento, ainda estamos intoxicados com o segredo compartilhado com as pessoas dentro da sala. Não estamos mais protegidos pelo escuro. O encanto acabou. E buscamos eternamente aquele deslumbramento de novo, mas nunca vamos consegui-lo, não naquele filme, não de novo. O Cinema se desfaz no momento em que nos toca com suas miragens refletidas na parede.