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10 a 24 de janeiro de 2006

Equipe Edições Anteriores

Espaço Aberto #3

À MARGEM DO ASFALTO
Marcelino Freire traz o desespero do mundo em uma obra que vai além da crueza
por Conrado Falbo ( conradofalbo@yahoo.com.br )

arcelino Freire é um autor de poucas palavras. Mas concisão, aqui, não é sinônimo de falta de expressividade. Poderia comparar seus textos curtos (melhor não arriscar o enquadramento em gêneros por enquanto) aos contos de um Dalton Trevisan, por exemplo, mas isso não faria muito sentido. Os sentidos sobre os quais escreve Marcelino apontam para perguntas que já nem nos fazemos mais, de tão simples. Tenho certeza que suas páginas, crivadas de pontos de interrogação, incomodam muita gente por aí. Falando em interrogação, o que resta a um escritor se eliminarmos panfletagens, floreios, termos politicamente corretos e algumas filosofadas (além da auto-ajuda, tão em voga ultimamente)? Talvez um punhado de questionamentos tão diretos quanto complexos de responder. Quem quiser que tente.

A vida que chega pelas páginas de seus livros não se conforma em ficar parada nas letras impressas. A estagnação, quando existe, gera desespero. E a vida grita. A gente grita. Gente que apanha, mas também bate. Fode, mas também ama. Ama direto, sem intermediários. Com força. E sem cuspe. Com o impacto de um tapa na cara. Um soco no estômago. Faz cuspir sangue junto com o que se comeu. Quando comeu.

Tem quem não goste do que lê. E prefira fingir que não vê. No mundo não falta merda: o mundo fede. Tem quem ache melhor mesmo fechar o livro antes que aquilo lá respingue. Mas sempre já é tarde demais...

De Sertânia a São Paulo. De avião ou pau-de-arara. O itinerário de quem vive à margem é traçado na ficção e vivido na realidade crua da prosaica porrada nossa de cada dia. Vivido por quem é marginal e por quem não é. Não muda nada. Cano na cabeça: do doutor assaltado ou do delinqüente autuado. No camburão. Na contra-mão. A grade que não deixa sair da cadeia é a mesma que não deixa entrar na mansão.

As historinhas de Marcelino têm um quê de crítica social? Será? Ou será uma espécie de crônica? É literatura de curta-metragem a que ele faz. Então são contos? Na cozinha dos gêneros, nosso autor fica da porta pra fora com sua mão pesada. O prato que ele prepara é cru. E pra comer apressado. A fina gastronomia do asfalto. Feita do que se cata no sujo e se engole podre. Pouco importa, vai apodrecer de um jeito ou de outro mesmo. Sábios pensamentos, frutos da lógica de quem vive na miséria. Dignidade é palavrão. Nem me refiro só à falta de dinheiro. É falta mesmo de alma, essa coisa de dentro que vai minguando cada vez mais rápido. É a tal da vida civilizada. Cidade mata a gente.

Escritor marginal? Se marginal é quem escreve à margem, como já disse Leminski, são poucos os que continuam no “meio”. A margem tomou conta de quase tudo. Comeu. Fodeu. E agora? Quem é quem? Marginal não publica em editora grande. Marcelino publica. Quem diria, ele até já teve bate-boca com jornalista de revista importante. Mas não é best-seller. No lançamento tinha pouca gente na livraria, nem colocaram o livro na vitrine...Então, resumindo. Marcelino não é nem uma coisa nem outra. Não é bem um contista, não é bem um cronista. É marginal pela metade. No fim das contas, ele está é no meio mesmo. Aqui agora. Isso é que contemporaneidade!

Livros de Marcelino Freire:

eraOdito - aforismos (1998 - 2002)
Angu de Sangue - contos (2000)
Balé Ralé - contos (2003)
Contos Negreiros - contos (2005)

Como organizador/editor:

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Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século