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25 de janeiro
a 8 de fevereiro de 2006

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Espaço Aberto #4

O MARKETING DO SONHO
2 Filhos de Francisco é a mais bem sucedida propaganda já feita da dupla Zezé di Camargo e Luciano
por Marcelo Maroldi ( marcelomaroldi@yahoo.com.br )

impressão que tenho, vendo tamanha enxurrada de críticas positivas feitas quase que diariamente ao filme ‘2 Filhos de Francisco', é que as pessoas esperavam um filme tão ruim, tão sem graça, que acabaram surpreendidos pelo resultado final apresentado. Seja como for, realmente não consigo entender por que as pessoas atribuem tanto valor ao filme que é normal, fraco até.

Evidentemente, é uma história emocionante, uma história de superação, de perseverança e de privação. Porém, neste nosso país, boa parte das histórias são assim, dessa mesma maneira. Não é raro relatos como este, portanto. Migrar por uma vida melhor, mais digna, uma penca de filhos pequenos correndo pela casa, as panelas vazias e muitos sonhos na cabeça é algo presente no cotidiano de milhões de brasileiros desfavorecidos que buscam uma vida melhor. A família toda ter que trabalhar, incluindo irmãos menores, em serviços braçais, duros, para que a casa se sustente, não é privilégio da família de Francisco. Jovens sonhando em se tornarem cantores, tampouco. Sinceramente, não consigo entender por que o filme causou (e ainda causa) tamanha comoção nacional. Ouvi, de muitas pessoas, que, embora eles não gostem da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, gostaram muito do filme e da história de sofrimento deles. Bom, olhem para o lado, então. Verão a mesma coisa.

Além de ser uma história, digamos, comum nesse nosso país miserável, as partes da história contadas foram cuidadosamente selecionadas para evidenciar e acentuar o aspecto emotivo da trama. Se o diretor se limitasse a contar a história, sem rodeios, sem apelar para ceninhas tristes, o resultado certamente seria diferente. O filme não tem nenhuma ‘graça', conquista pelo estilo ‘novela mexicana de ser', nada mais. Inclusive, é por isso que a grande maioria da história contada é a dos meninos crianças e jovens, pois essa é à parte de maior sofrimento, maior dureza na vida deles. Depois que eles melhoram de vida, o filme passa rapidinho, rapidinho, afinal, não há muita ‘graça' em mostrar isso, e nem conquista fãs nem vende DVD's.

Para os diretores e roteiristas, o mote foi mostrar o quanto à família sofreu, coitados. Aliás, a parte artística deles é quase totalmente ignorada. Quis-se mostrar uma história de vidas sofridas que venceram, e foi isso – apenas isso – que fizeram. Talvez essa abordagem possa ser explicada pela repetida crítica a arrogância da dupla em questão, quase sempre apontada pelos críticos (é verdade que eles melhoram muito, eles já foram bem mais metidos e estúpidos). O filme pode ter sido um esforço para melhorar suas imagens, exibir personagens sofredores, e não aqueles arrogantes que aparecem na televisão. É aquela velha receita de se mostrar como batalhador, melhor ainda, como um batalhador que venceu e conquistou o sucesso sem roubar e nem matar. As pessoas gostam disso! É velho, mais funciona.

Um outro ponto que destaco negativamente é o próprio exemplo contido na história. Os cantores e os demais filhos, que supervalorizam o pai, Francisco, por tê-los ‘conduzido' ao sucesso, eu recrimino tal atitude. No próprio filme Zezé di Camargo diz que louco não era o pai, que supostamente estaria certo sobre o sonho de vê-los cantar, e sim eles que duvidaram do seu progenitor em muitas oportunidades. Qual o tamanho de um sonho, meu Deus? Quantas vozes almejam cantar, produzirem um CD, fazerem shows e jamais – jamais – vão conseguir? Ele insistiu em demasia no sonho, passou dos limites, deixou de viver a realidade dura do prato sem comida para se embebedar no sonho quase impossível do sucesso dos filhos. Que péssimo exemplo!

Não basta insistirmos para que um desejo se realize... Não se pode transferir sonhos, como ele certamente o fez. Nunca a realidade e a família podem ser diminuídas ou minimizadas em virtude de um sonho tão distante. Deu certo, mas, foi realmente um golpe de sorte! Nesse exato momento, Zezé poderia estar engraxando sapato e Luciano vendendo redes de dormir, e a culpa seria totalmente do Francisco, somente dele. Aposto que insistir para os filhos estudarem, serem ‘doutores', ele nunca fez! Buscar um sonho é algo incrível, mas, buscar um sonho custe o que custar parece estupidez.

Por fim, do ponto de vista cinematográfico, o filme também é muito fraco. Não bastasse a publicidade descarada do patrocinador (que nem camuflada foi!), a narrativa lenta, concentrada em pontos menores da história, o final conseguiu piorar tudo. Quando chega ao fim o que se vê é a mais pura propaganda (da dupla) que se possa conceber! Lembra, instantaneamente, aqueles comerciais de CDs, que se iniciam com ‘Mais de 100 mil cópias vendidas' ou ‘disco de platina duplo'. É patético. Naquele ponto tive a certeza que o filme era propaganda barata de Zezé di Camargo e Luciano, nada mais que isso. É uma história para que as pessoas gostem mais deles, os achem melhores por terem tido uma vida de sofrimento, essas coisas todas. É um filme para os egos dos filhos de Francisco.

Para não dizerem que só vi coisas péssimas, destaco aqui as 2 únicas coisas que realmente são boas: a trilha sonoro, em especial as músicas mais velhas, e o elenco, bastante adequado aos personagens. Só isso.