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8 de fevereiro a 1 de março de 2006

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Espaço Aberto #5

DIABO DE SALTO ALTO
Joana A Contra Gosto mostra outro viés da narrativa de Marcelo Mirisola
por Guto Prado ( gutopd@yahoo.com.br )

ão sei se continuo o mesmo cara sozinho e contra os fluxos mamíferos dos seres humanos. Depois de tudo, não sei."

É o que diz o terceiro parágrafo do novo livro do escritor Marcelo Mirisola, o romance Joana a contra gosto . Depois dos livros Fátima fez os pés para mostrar na choperia, Notas da arrebentação, O azul do filho morto, O Banquete e Bangalô, finalmente Mirisola parece começar a se render a algum sentimentalismo. Não o tipo de sentimentalismo delicado e cheio de gracejos. Mas aquele sentimentalismo de um autor que finalmente se ferrou o suficiente para dizer que caiu aos pedaços por um amor verdadeiro. Uma mulher com quem sonhava em ter filhos e não, em hipótese alguma queimar sua bunda com bitucas de cigarro, muito comum nos relatos do autor.

Ver um autor como Mirisola, que causa certa ojeriza em uns e exaltação em outros, cair apaixonado de um prédio de dez andares, é dizer que do topo de sua obra, toda a transgressão, a falta de consideração com as mulheres, o desprezo que sempre gostou de causar.... enfim... ele despencou para o deleite do leitor. E é nesse tombo cheio de lágrimas, soluços e remorsos que Joana a contra gosto perfigura como um dos melhores livros do autor.

Uma Joana assim, que bagunça o juízo, que reinventa alter-egos, que justifica os meios, que altera percepções; só pode mesmo ser saboreada a contra gosto, mas com muito gosto, assim uma gostosa que maltrata e traz à tona aquilo que ninguém esperava de um sujeito de porte repugnante. O autor encontrou seu par perfeito, ideal, sua versão em forma de mulher... e um Mirisola de salto alto é pior do que o diabo.

Joana, esse diabo de salto alto, o faz alcançar outros olhares, e fica evidente que todo aquele cancro de raivosidade e desprezo, sempre escondeu um sujeito apaixonado. Acho que daqui pra frente, as bitucas de cigarros ficarão guardadas no cinzeiro. E quem imaginaria um parágrafo como esse em um livro do autor. Quem, eu pergunto?

"Chorei muito, mais do que podia... pois eu não tinha a menor idéia de que havíamos , de fato, chegado ao fim... pedi a Joana __ como se ela estivesse ao meu lado __ para trazer de volta o amor que não soubemos inventar, desejei a ela que sofresse a falta que me fazia e que também chorasse de frente para o mar..."