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15 a 30 de março de 2006

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Espaço Aberto #6

VELHOS HÁBITOS
A velha Academia mostrou que continua com o mesmo conservadorismo de antigamente na entrega do Oscar desse ano
por Ricardo Stabolito ( ricardostabolito@bol.com.br )

urante sua história de quase 80 anos, o Oscar conquistou uma notável credibilidade dentro da comunidade cinematográfica mundial, sendo reconhecido como o mais importante prêmio do ramo. No entanto, sempre foi perceptível que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (conhecida apenas por Academia) se caracterizava pelo conservadorismo e tradicionalismo, preferindo conceder indicações e prêmios a filmes com mensagens politicamente corretas.

Foi comum até os anos 80 a Academia cometer “injustiças” com várias produções e profissionais do cinema – seja por mera falha, seja por não ser simpática à mensagem do filme produzido ou àqueles que o produziram. Hitchcock nunca ganhou um Oscar por uma reconhecida implicância da Academia ao teor de seus trabalhos. Stanley Kubrick não ganhou também por motivos parecidos. Charles Chaplin ganhou um Oscar pelo conjunto da obra, mas nunca ainda “na ativa”. O filme Crepúsculo dos Deuses (1950), para muitos especialistas, não ganhou o Oscar de melhor filme pela aberta crítica à forma como Hollywood ignorava e esquecia suas antigas estrelas.

O que assistimos a partir da segunda metade dos anos 80 foi o início de um aparente processo de abertura. A inevitável renovação dos membros da instituição traz consigo uma “modernização” dos conceitos que norteiam a Academia. Com isso, o conservadorismo se tornou vilão em uma época em que os grandes estúdios investem nos temas contestadores e na quebra de tabus.

A abertura tornou-se visível quando Tom Hanks ganhou em 1993 o Oscar de melhor ator por Philadelphia , interpretando um homossexual aidético – em outras épocas, uma indicação por tal papel seria difícil e uma vitória quase impossível. Uma das últimas evidências desse processo de abertura ocorreu na premiação do ano de 2003, quando Lose Yourself , do rapper Eminen, ganhou o Oscar de melhor canção original na primeira indicação de uma música de rap ao prêmio. Vitória conquistada mesmo com a recusa do rapper em cantar a música com trechos censurados na cerimônia de entrega, quebrando uma tradição de 75 anos.

Em vista de uma mudança como a exemplificada antes, a expectativa para a edição 78 do Oscar, ocorrida no último dia 5, era grande. O Segredo de Brokeback Mountain apresentava um devastador favoritismo por ter sido o filme que mais teve repercussão (positiva, por sinal) entre especialistas e espectadores. Por se tratar de um filme centralizado no amor entre dois homens, era a hora da Academia mostrar se o processo de abertura era pra valer. Ainda contava a favor o fato do filme não ser uma “propaganda” da homossexualidade, retratando muito mais o amor entre duas pessoas.

Já nas indicações, nasceu a primeira indignação: Ponto Final , do diretor Woody Allen, foi praticamente ignorado pela Academia, arrebatando apenas uma indicação de melhor roteiro original. Sendo este filme um dos melhores da carreira do cineasta e um dos mais aclamados pela crítica no ano, além de ter entrado muito forte na chamada Award Season (temporada de premiações) o “esquecimento” da Academia é creditado por muitos à aversão que existe pelos membros da instituição à figura de Allen.

Os cinco indicados a melhor filme não eram “mega-produções”; Phillip Seymour Hoffman – favorito ao prêmio de melhor ator – interpretou o jornalista homossexual assumido Truman Capote em Capote ; a indicada a melhor atriz Felicity Huffman interpretou uma transexual em Transamérica e o rap voltava a concorrer ao prêmio de melhor canção original com It´s hard out here for a pimp de Ritmo de um sonho . Junto com as oito indicações (maior número do ano) de O Segredo de Brokeback Mountain , a premiação tinha tudo para marcar o declínio definitivo do conservadorismo no Oscar.

A Academia não se mostrou conservadora em todos os prêmios: Phillip Seymour Hoffman ganhou o prêmio de melhor ator, mas Capote não é um filme centrado na opção sexual do protagonista (aliás, está longe disso), mas em sua obra A sangue frio , marca do jornalismo literário americano. Felicity Huffman perdeu, mas ela não era a favorita ao prêmio – que ficou com Reese Witherspoon.

O conservadorismo pôde ser visto atuando de forma branda no prêmio de melhor canção original. Apesar de ter saído vencedora da categoria, It´s hard out here for a pimp teve sua letra censurada, mas, diferente de 2003, interpretada pelo grupo Three 6 mafia no palco da cerimônia.

No entanto, o melhor vem no final. A categoria de melhor filme era uma quase certeza para O Segredo de Brokeback Mountain – o grande sucesso de público e crítica do ano. Mas, cerca de três dias antes da cerimônia, começou-se a comentar de forma maciça o filme Crash – No limite . O drama sobre as relações sociais na cidade de Los Angeles (perpassando por temas como preconceito racial e corrupção) passou a ser indicado pelos críticos como uma provável surpresa nessa categoria. Quando se perguntava o porquê de tal conclusão, os mesmos críticos falaram que era um bom filme, com um tema forte e que se passava na mesma cidade onde se localiza a Academia. Muitos achavam O Segredo de Brokeback Mountain melhor do que Crash – No limite , pouquíssimos ousaram dizer o contrário.

Mas a partir desses “murmurinhos” nascia a situação perfeita para a Academia além de se manter conservadora, manter um ar de mudança ao escolher um filme razoavelmente polêmico. E foi isso que ficou estampado na cara de Jack Nicholson (escolhido para apresentar o prêmio de melhor filme) quando leu no envelope o nome Crash . Sua face mesclou surpresa com contida decepção, enquanto a instituição de Hollywood chegou ao seu aparente objetivo.

A Academia conseguiu esse ano suprimir sua maior chance de renegar o conservadorismo que tanto a marca. Conseguiu em Crash – No limite o filme perfeito para manter-se bem vista mesmo não dando o prêmio a O Segredo de Brokeback Mountain . Acima de tudo, deixou claro que o conservadorismo nunca irá desaparecer do Oscar. E comprovou realmente que o Oscar é a festa para os melhores do cinema, mas nem sempre premiará os melhores dessa indústria.