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8 a 22 de abril de 2006

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Espaço Aberto #7

O PRAZER DA ILUSÃO
Novo livro de artigos de François Truffaut revela a generosidade e o amor pela discussão do autor de Os Incompreendidos e Uma Mulher para Dois
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

ste não é o resultado de uma pesquisa, é um sentimento pessoal: François Truffaut foi o maior cineasta do mundo. Este sentimento pessoal é compartilhado por muitos espectadores de cinema, e por sinal, não era François Truffaut o cineasta dos sentimentos pessoais?

Quis começar esta crônica da mesma maneira que o cineasta começou uma outra crônica sua, sobre Jean Renoir, presente em seu livro Os Filmes da Minha Vida (infelizmente esgotado) . Esta crônica é belíssima, e é pena que não esteja incluída no novo livro de Truffaut lançado no Brasil, O Prazer dos Olhos – Escritos sobre Cinema (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro). Mas aqueles que não se cansam de folhear os outros livros do diretor lançados no Brasil (além de Os Filmes…, a Nova Fronteira lançou O Cinema Segundo François Truffaut) terão mais um livro de cabeceira.

Como o próprio nome indica, O Prazer dos Olhos desafia a rabugice da crítica de cinema tradicional para celebrar o prazer de se sentar numa sala escura por duas horas e assistir uma história, de preferência de ficção (Truffaut abominava o documentário). Para o diretor, o Cinema-Verdade é um engano, uma miragem; o “Cinema-Mentira”, como diria Fellini, é muito mais sedutor, honesto e verdadeiro em sua tentativa de transfigurar a vida para fazer dela um retrato mais fiel, mais tocante, em todo caso um retrato mais imediato, não-filtrado pela idéia de “realismo” paralisadora que faz tantos filmes ficarem insossos e sem graça:

“Minha idéia era que os filmes do “cinema-verdade” são
bastante úteis para os profissionais do espetáculo (…) mas
não oferecem interesse algum para o público; parece-me
que os filmes desse gênero deveriam ser exibidos
gratuitamente. (…) Em outras palavras, pode-se fazer as
pessoas pagarem para lhes mostrar mentira organizada,
mas não para lhes mostrar verdade confusa ”.

Para Truffaut, o cinema é um jogo que o diretor joga com o público. É preciso surpreendê-lo, pegá-lo pelo pé, e deixá-lo pedindo por mais:

“O verdadeiro adversário a ser vencido ou convencido é o
público. Não devemos pedir-lhe sua opinião, mas seu
dinheiro, devemos nos comportar como boas putas
profissionais, dar-lhe a ilusão do amor, satisfazê-lo,
consolá-lo, mas recusar-lhe nossa boca”.

Este interesse pelo público está no centro do cinema praticado pelo diretor. No primeiro artigo do livro, O Diretor: aquele que não tem o direito de se queixar, François Truffaut desmascara aqueles diretores que colocam a culpa de seu fracasso nas mãos dos produtores, dos homens do dinheiro. O cineasta afirma que o diretor é o “dono” do filme, é ele que deve melhorá-lo ou piorá-lo, é somente ele que deve e pode se responsabilizar pelo que está na tela. Pode-se chamar esta teoria de romântica, mas é exatamente por seu romantismo que ela é tão bela. Com isso, Truffaut não quer dizer que não existem problemas entre diretores e produtores (ou entre diretores e atores, roteiristas, técnicos…); quer apenas dizer que ao invés de chorar sobre o leite derramado, o diretor deve antes de tudo adquirir experiência para que nunca mais o leite se derrame; melhor ainda, deve transformar o “leite derramado” em matéria-prima para seu trabalho. Ele nos mostra que, mais do que um acidente a ser evitado, o leite no chão pode ser mais interessante que no copo. Tudo tem a ver com o princípio do prazer no cinema, que é fundamental para Truffaut.

(…) É importante criar fantasia para proporcionar prazer
ao público. Espero que a menção da palavra PRAZER não
choque o leitor. Buster Keaton, Ernst Lubitsch, Howard
Hawks refletiram e trabalharam mais arduamente que
muitos de seus colegas, sempre no objetivo de
proporcionar mais prazer”.

Para o cineasta francês, o prazer no cinema é fundamental; o prazer de uma criança que brinca. O cinema, em sua melhor forma, é a arte de contar histórias, um jogo entre o diretor e o público. Um jogo jogado à perfeição por Alfred Hitchcock, por exemplo, um dos ídolos de Truffaut e objeto de outro livro de Truffaut relançado recentemente pela Companhia das Letras: Hitchcock/Truffaut – Entrevistas.

Hitchcock, Lubitsch, Howard Hawks, , Luiz Buñuel, Jean Renoir, Ingmar Bergman: para Truffaut, o único traço de união entre estes diretores é que todos eles eram os autores de seus filmes. Cuidavam do aspecto artístico de seus filmes e por isso, ousavam ter uma obra pessoal dentro do cinema, mesmo que imperfeita. O diretor francês argumenta que mais interessante que a “obra-prima” acabada, são os erros que todo diretor comete, e que são sua marca registrada tanto quanto seus acertos. Truffaut acreditava que as obras “respiram” por suas falhas; e que um filme com grandes ambições, mesmo que não tenha conseguido atingi-las, é melhor que um filme medíocre que “passe sua mensagem” de maneira simplista.

Um traço da personalidade de Truffaut que o livro mais destaca é sua generosidade. Podemos vê-lo nos artigos que falam sobre personalidades: Jean Renoir, Charles Chaplin, seu diretor de fotografia Nestor Almendros, Alfred Hitchcock, Isabelle Adjani (objeto de um dos mais belos textos do livro, Não conheço Isabelle Adjani), Jean-Pierre Léaud, e até mesmo Woody Allen (chamado de “o pessimista alegre”). Todos são objeto de sua escrita apaixonada e ardorosa, a todos Truffaut pinta o retrato com uma simplicidade e precisão invejáveis. De Jeanne Moreau, por exemplo, que eternizou em Uma Mulher para Dois, diz:

“(…) todas as vezes que a imagino à distância não a vejo
lendo um jornal, mas um livro, pois Jeanne Moreau não faz
pensar no flerte, mas no amor”.

Mas apesar de sua generosidade, Truffaut não tinha medo das polêmicas. A mais famosa delas é Uma Certa Tendência do Cinema Francês, onde ataca as superproduções baseadas em obras literárias que estavam, em sua opinião, construindo uma “camisa de força” em torno do cinema de seu país. Contra o academicismo, contra a traição das obras literárias por uma “psicologia barata” foi que Truffaut e seus colegas da revista Cahiers du Cinema se rebelaram.

Hoje, mais do que nunca, quando as imagens da televisão e da internet nos inundam os olhos deixando um deserto de significado, quando os big brothers invadem nossas residências tentando ser personagens de si mesmos – e não conseguindo – devemos mais do que nunca voltar a Truffaut, seus escritos, seus filmes, seus personagens tão verdadeiros construídos em cima da imaginação pura e simples. Já na época em que escrevia seus últimos artigos, ele pressentia o abandono das salas de cinema, e é com uma esperança amarga que ele termina o livro, falando de uma cena de um filme de Ingmar Bergman, chamado Luz de Inverno, em que um Padre reza uma missa numa igreja vazia. Para François Truffaut, esta cena simboliza o diretor de cinema insistindo em contar histórias, mesmo que não haja ninguém para assisti-las. É contra esta solidão doméstica imposta pela televisão – afinal, ir ao cinema é um ato social, antes de tudo – que Truffaut trava uma luta inglória, mas nem por isso menos válida. O Prazer dos Olhos pode ser lido como uma profissão de fé de alguém que tem a coragem de dizer:

“Minha conclusão é: o cinema me faz sofrer e me faz feliz”.