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2 a 16 de maio de 2006

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Espaço Aberto #8

O DIA DO NÃO
Todo autor vai passar por isso pelo menos uma vez na vida: o dia da Recusa, ou a Tsunami do Ego
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

o saber você sente um golpe.

Pelo menos foi o que eu senti. Eu estava tomando banho, cansado de ficar horas sentado apertando o F5 no site da Rede Record, esperando pelo resultado do Concurso de Novos Roteiristas (que estava dando prêmios em dinheiro para três sortudos, e possivelmente a chance de trabalhar como roteirista de novelas algum dia), quando minha mulher ligou. Enxugando a orelha, escuto a notícia: os ganhadores foram anunciados, mas…

Mas o quê?
Seu nome não está lá.

Quero ver por mim mesmo – o pior do perdedor é que ele nunca acredita, ele tem que ver por si mesmo, São Tomés da própria queda. Ligo o computador, a lata velha demora e vou ficando impaciente. Uma esperança nasce de mansinho, vem se esconder de novo no meu coração: estão colocando no site os nomes de MENÇÃO HONROSA. Procuro meu nome, o de alguns amigos, acho uns, outros não. Mas o meu não está na lista.

Ligo pra um amigo que também participou, procuro seu nome, também não está. Ele está no trânsito, a caminho do trabalho – tinha ficado a noite toda acordado esperando o resultado, já tinha dado “migués” a mais no trabalho e, ao meio-dia, teve que ir trabalhar. Depois de receber a notícia, ele tenta me animar, não consegue, e desliga o telefone. Ambos sabemos que não nos falaremos mais neste dia. Apenas um e-mail, talvez.

Bem-vindos à ressaca da Criação de sua obra… o dia da Recusa. Todo roteirista, todo autor, passa por isso uma, duas, três, quatro vezes… Depois de um certo tempo, pode-se pensar que estaremos preparados para o tranco da próxima rejeição, mas descobrimos com pesar que o efeito da milionésima recusa é sempre tão aterrador quanto o da primeira. Por quê?

Quando qualquer autor cria uma obra, é preciso que ele recuse o senso crítico. Ele tem que dizer a si mesmo que é o maior autor do mundo. Tem que esquecer que já existiram Shakespeare, Dostoyevski, Orson Welles, François Truffaut, Jorge Furtado ou Janette Clair. A melhor maneira de fazer um clássico é não pensar em igualar o clássico dos outros.

Então, nos melhores momentos, criamos e achamos bom o que criamos; colocamos o nosso coração naquilo. Tenho certeza que muitos colegas roteiristas que participaram do Concurso se reconheceram no que acabei de descrever. No caso do Concurso da Record, seiscentos roteiristas fizeram sua primeira sinopse de novela, algo complicado, que poucos conseguem ensinar – na verdade, cada um tem que encontrar o seu caminho sozinho. O que serve para uma sinopse pode não servir para outra. O importante: criar personagens fortes, situações fortes, e principalmente uma história que tenha ganchos para crescer, para se expandir, como uma novela sempre precisa. Eu achei que tinha feito isso, todos devem ter achado.

Mas eu, como a imensa maioria, nem fiquei entre os 69 honrosamente mencionados. Todos pensaram: eu era o número 70. Eu era o próximo da fila. Mais um nome só e eu estaria lá, ao lado deles… E é a partir deste pensamento encorajador que a gente se desespera de vez: tão perto e a gente não foi. Que merda.

Ainda bem a Páscoa tinha sido há dois dias… A geladeira ainda está entupida de chocolate. Rápido equalizamos nosso nível de serotonina, mas só ficamos ainda mais bêbados de nossa auto-misericórdia, um pouco como o interlocutor do garçom de Reginaldo Rossi, os caras que dormiam na praça daquela outra dupla sertaneja. Ou seja, nos sentimos o oxiúrus do cocô do cavalo do bandido.

Esta é a ressaca moral do roteirista, a Tsunami no nosso ego: existem 73 pessoas melhores que você… Então você se sente mal, começa a duvidar do seu próprio trabalho – e do seu próprio julgamento. O amigo que está preso no trânsito me diz que nunca duvida de seu trabalho – nunca. Se eles não nos levaram, pior para eles.

Eu queria ter essa autoconfiança. Afundo, durmo tarde, acordo no outro dia ainda com uma cara de fiofó. Minha mulher, cansada dessa fossa profissional, tenta me animar, e eu, no fundo do poço, sem ter para onde descer, bato o pé no chão e vou para a superfície: faço umas piadas com o concurso, digo que é tudo marmelada. Afinal, todo autor tem o direito de fazer isso… pelo menos, no seu dia não . Nos outros dias nem tanto. Afinal, é tudo muito subjetivo, e o que é bom para algumas pessoas pode não ser bom para outras. Pode-se usar vários critérios para se analisar os concorrentes, e sem sabermos quais foram esses critérios, fica difícil acusar o concurso da Record de leviano, como muitas pessoas fizeram na Orkut. Quanto a este concurso não ter critérios… Espero que todos tenham lido o que assinaram quando resolveram mandar seus trabalhos.

Houve aqueles, como eu, que pensaram: será que eu fiz alguma coisa errada? Será que eu assinei todas as páginas do envelope? Será que eu não fui eliminado por alguma falha técnica? Ninguém sabe. Ninguém nunca mais vai saber.

Voltando ao café da manhã, minha mulher sorri, gosta de me ver melhor. Saio da mesa, já vou para o computador, penso no meu roteiro engavetado, escrevo, chamo alguns amigos, peço opinião, e faço o trabalho de fênix desajeitada que todo roteirista tem que saber fazer. Recomeço a escrever. E juro que nunca mais vou participar de outra “corrida maluca” como essa… até começar a roer as unhas para saber o resultado do Concurso de Roteiristas Estreantes do Ministério da Cultura. Por que é que a gente é assim?

Um grande abraço a todos e… parabéns. Não é qualquer um que escreve uma sinopse de novela de 20 páginas com 3 capítulos de 35 páginas. Podemos não estar na elite dos 72, mas estamos na elite dos 600. Os 600 participantes que já deram o primeiro passo na sua jornada. E não se arrependem nem um minuto de todo o esforço.

Roteirista é assim. Porque só tem um dia Sim aquele que já teve muitos dias Não. Valeu, pessoal. A gente se encontra no próximo.