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24 de maio a 7 de junho de 2006

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Espaço Aberto #9

FUTEBOL É COISA DE MANÉ
Livro O Paraíso é Bem Bacana pode ser encarado como uma metáfora sobre o Brasil, a partir do futebol
por Érico Assis ( ericoassis@gmail.com )

unca fui de futebol. Talvez tenha sido falta de influência paterna, mas nunca me interessei pela história de correr atrás da bola e, quando chegar nela, chutar para mais longe e sair correndo de novo. Para, no fim, fazê-la passar por um retângulo gigante. Meio patético, não?

Mas, como todo tupiniquim com alguma esperança de desenvoltura social, tive que assistir e entender alguma coisa do jogo. Torcer na Copa do Mundo. Fingir que tenho meu time. Usar “pisou na bola”, “bati de frente” e outras metáforas futebolísticas. Imitar o Galvão Bueno.

Cheguei num ponto talvez bem avançado, quando comecei a fazer comparações formais entre o futebol europeu e o futebol brasileiro. De ouvir conversas e de assistir uma ou outra partida, “chutei”: enquanto os europeus usam uma estratégia analítica, de tratar o jogo de futebol quase como uma partida de xadrez, envolvendo física, matemática, geometria, biologia e administração, os brasileiros, os do tal “futebol-arte”, têm na cabeça apenas colocar a bola no pé e, no jeitinho, na teimosia, fazer tudo pra que ela passe pelo retângulo gigante. Que, aliás, parece ser a estratégia mais interessante para um jogo que, afinal, consiste em colocar a bola no pé, correr e fazê-la passar pelo retângulo gigante.

Toda essa introdução é para dizer que André Sant’Anna parece concordar comigo na definição do futebol-arte. Mané, o herói de O Paraíso é Bem Bacana (Companhia das Letras, 2006, 451 pp.), é um pobre coitado que passa por uma infância aterrorizante, não desenvolve qualquer habilidade social, mal aprende a falar (nem pergunte sobre ler e escrever) e chega aos dezessete anos como um débil mental/autista com medo de tudo e de todos. Mas é só botar uma bola no pé de Mané que o resto não importa.

“... pegou a bola lá atrás e foi indo na direção do gol. Não é força de expressão, não, o Mané driblou todos os jogadores do time titular, incluindo o goleiro, e entrou para dentro do gol, andando com a bola no pé. Deixou a bola lá dentro e voltou andando, bem devagar, como se nada tivesse acontecido...”

Esse Forrest Gump brasileiro, enfim, deixa de ser mais um morador das favelas de Ubatuba para virar o novo Pelé. Um olheiro leva-o para os juniores do Santos F.C.; na primeira partida em que mostra sua habilidade é contratado para jogar na Alemanha. E é nesse estranho e gelado país europeu que Mané se envolve com as pessoas erradas, rebatiza-se Muhammad Mané, vira homem-bomba, explode-se dentro de um estádio e vai para o Paraíso passar a eternidade comendo as 72 virgens que Alá lhe concedeu. É nesse ponto que o livro “começa”.

André Sant’Anna não pega o caminho simples. O Paraíso é Bem Bacana tem uma confusão de narradores, separados apenas pelo duplo “Enter”, que vão montando o quebra-cabeça da história de Mané a partir de diferentes pontos-de-vista. Começamos com um narrador-onisciente-historiador-irônico, identificado pelo parágrafo recursivo “Mas não.” (tipo: “O Mané podia ter tido uma infância feliz. Mas não.” ou “O Mané podia ter comido fácil, fácil aquelas duas putinhas oferecidas. Mas não.”). De repente temos a voz do próprio Mané, após explodir-se, delirando na cama do hospital com as acrobacias sexuais com suas 72 virgens – “porque aqui esse negócio de sex, de bucetinha, de baba, de leitinho que sai, de cheiro que tem, é tudo mais limpinho, é tudo com amor que elas têm neu. Tudo com cheiro de eucalips”. Intercalados, há trechos de familiares, amigos, colegas jogadores e outros que passaram pela vida de Mané, como se estivessem dando depoimentos para um documentário. Nessa bagunça – onde Sant’Anna demonstra uma grande destreza técnica para construir situações e dar voz a seus personagens –, você vai lentamente entendendo o que aconteceu.

O problema do livro está neste “lentamente”. Ou melhor, o problema do livro está no exagero. Sant’Anna exagera primeiro na lentidão com que desenvolve a trama. Exagera nas repetições, nas várias voltas que a história dá antes de seguir em frente. Você se cansa das cenas dos delírios de Mané (com virgens, guaraná, maionese e “eucalips”, e misturas das quatro coisas) já nas primeiras páginas. Você cansa também dos exageros sobre a infância de cão de Mané – filho de uma bêbada que quer que a filha seja puta pra trazer dinheiro pra casa; alvo constante de crianças zombeteiras e pedófilos; com mais sonhos arruinados do que a soma dos de todas as crianças de Carrossel; criado sem qualquer carinho ou afeto, o que resulta em sonhos masturbatórios onde loiras perfeitas, no clímax, gritam “ai ló viú! Ai ló viú! Ai ló viú!”. Após um desfile de escatologia, de decepções, de “Mas não.”, de uma criança que sempre se fode quando alguma coisa parece que vai dar certo, você fica anestesiado e, logo logo, bastante entediado. Boa sorte se quiser encarar até o final.

O que fica de O Paraíso é Bem Bacana é uma possível metáfora sobre o Brasil, a partir do que o país é reconhecido no mundo inteiro: seu futebol. A tragédia de Mané é rodeada de personagens que vivem a crise da mistura de etnias, da xenofobia, do racismo (chame como quiser) no mundo contemporâneo: os “nego pobre”, os “alemão nazista”, os “turco terrorista”, os “americano paranóico”. No meio disso, um brasileiro, um deficiente mental, alheio a tudo, que só sabe fazer mágica com uma bola de futebol. Essa é a personificação do Brasil no mundo contemporâneo?

Não sei. Mas com outra Copa chegando, aos poucos vamos vendo a crise política esfriar. A economia que se segure e o mundo lá fora que se exploda. Vamos ligar a TV e ouvir o Galvão. Bem que podia ser diferente. Mas não.