Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

4 a 18 de julho de 2006

Equipe Edições Anteriores

Espaço Aberto #11

HELOÍSA, MINHA FLOR
Estilo e graciosidade sob a pena de Lívia García-Roza
por Hugo Villa Maior ( hmaior79@hotmail.com )

ívia García–Roza pertence a uma estirpe de autores bastante peculiar. Um seleto grupo de professores universitários, muitas vezes envoltos com teorias literárias complicadíssimas, que conseguem fazer uma literatura de qualidade.

A autora, esposa do escritor Alfredo García-Roza, é carioca, psicanalista, e seu romance de estréia foi Quarto de Menina (1995), ainda que tenha sido uma tiragem bastante modesta. Dois anos mais tarde publicou Meus Queridos Estranhos . Em 1999, presenteou seus leitores com Cartão Postal e assim seguiu publicando constantemente. Os romances Cine Odeon (2001) e Solo Feminino: Amor e Desacerto (2002) foram recentemente semifinalistas do prêmio Jabuti. Seu último trabalho foi a organização de uma antologia de nome Ficções Fraternas , de 2003.

Porém, parece ser o conto um território fértil, onde a autora experimenta e tece os fios de um texto bastante maduro e intenso, selecionando um vocabulário acessível, o que confere a leitura uma certa agilidade, uma vez que a própria estrutura textual parece ser (des)construída, dando ao leitor a impressão de ser ele próprio: Heloísa, a interlocutora da personagem criada por Lívia para “Minha Flor”, conto publicado no livro 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira , (2004, Editora Record).

Logo na primeira linha do texto, a autora evoca Heloísa, personagem que é construída a partir da fala de outra personagem, embora essa última não tenha nome, rosto e a única característica a ela atribuída é a voz.

“Que agitação é essa, Heloísa? Cantando, afinada... Já passou por aqui várias vezes. É por gosto que está atrapalhando a leitura do meu jornal? Hein?” E é nesse tom ríspido que segue o discurso dessa personagem aparentemente sem forma para com essa mulher, com quem possui uma relação marital e extremamente controladora: “Vai trocar de roupa, Heloísa! Você ia à casa de sua mãe almoçar com ela e com a sua titica. Ia, Heloísa, porque agora você não vai nem vestida de freira”

E a partir da fala de seu esposo, sem nome e sem rosto, Heloísa vai criando vida, tomando forma, cheiro, textura e cor. E, por vezes, parece ainda mais real que seu interlocutor, de quem nós só conhecemos a voz e o pavor por certos animais quando a certa altura diz: “Ainda me chama igual ao cachorro! Que aliás, está uma fera, já falei, qualquer dia come alguém aqui dentro”. Além, é claro, de ser conhecido pelo tom ferino e extremamente irônico de seu discurso: “Como se chama mesmo a roupa dos urubus? Hábito! Você podia contrair esse hábito, de vestir coisas decentes, mas o sangue fala mais alto, não é mesmo?”.

Ainda que seja uma personagem aparentemente sem-voz, extremamente reprimida e submissa à figura masculina, Heloísa torna-se, notadamente, grande no texto de Lívia a ponto de fazer-se senão a única, ao menos a personagem protagonista do conto: “Arranca esse vestido de bosta, Heloísa!!” diz seu interlocutor, evocando mais uma vez a personagem.

Inclusive, é curioso notar que o título que a autora escolheu para dar a seu texto é justamente “minha flor”, vocativo empregado pelo interlocutor de Heloísa, quando se refere à esposa, o que nos faz obviamente pensar que, ainda que não tenha voz no texto de Lívia García–Roza, a personagem tem lugar cativo e de destaque no conto, e Minha flor torna-se ao longo do texto a metáfora do próprio silêncio da personagem.

Vale lembrar que a voz de Heloísa é apenas sentida em alguns momentos por perguntas e interjeições de seu interlocutor, embora sua presença esteja em todo o texto: “O que disse? Vestida desse jeito você se sente mulher?”.

E é talvez nesse momento que a personagem central do conto, se é que realmente podemos chamá-la assim, cresce a ponto de (des)sacralizar a dona de casa casta e pura, que a essa altura, sob a pena de Lívia García-Roza, transformou-se, ainda que sem querer, na própria figura da meretriz: “Vem cá, Heloísa... deixa eu sentir o seu cheiro, assim, se ajeitando, com calma, devagar, sem pressa, perfeito; observe o ritmo, isso, saboreando, é papa fina, minha flor... “ E aos poucos, se o leitor não se metamorfoseou na própria Heloísa, tornou-se, sem dúvida alguma, confidente da personagem e está completamente seduzido por ela.