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Espaço Aberto #14
OS FANTÁSTICOS EFÚGIOS DA LEPORÍDEA Nº 40
Uma história sobre disfarces e desejos não confessados...
por Andréia Moroni ( andreiamoroni@hotmail.com )
u não tenho orelhas como as coelhinhas que desfilam por aí . Acredito que é uma vantagem e deva evitar os gangsters . Os gangsters são esses caras maus e ricos e bem vestidos que as pessoas acham que já não existem mas que eu bem sei que vivem em ilhas no mediterrâneo , por exemplo . Ou em Nova York. Ou por aqui , no meu bairro . Outro dia um deles cruzou comigo na calçada , quando passávamos em frente à floricultura , caminhando em direções contrárias, e tive certeza que ele soube que eu o descobri. Me olhou nos olhos – punhalada rápida e certeira – de um modo que os homens não costumam fazer quando você não mostra as orelhas brancas e felpudas; nesse instante , soube que me descobriu: delatou-as dobradas por debaixo do cabelo agora comprido , lebre libertina , e com isso ele soube bem mais : soube de minhas curvas guardadas dentro da calça folgada e ligeira de verão e de todas as vontades que moravam dentro das curvas – há quanto tempo elas se acumulavam. Lembra? , ele dizia com os olhos , lembra? lembra? Há coisas que ele não devia saber e nem eu : prudência , sabença, toda a consciência que tenho dos medos , sem me olhar no espelho há dois meses. Desde que tudo aconteceu. Seguir automaticamente os instintos de iogurtes light , frango grelhado , salada sem azeite temperada só com sal e limão , e outros impulsos de sobrevivência das fêmeas : isso eu sabia fazer . Então a comida acabou e quase que eu também ; com o supermercado vieram os cremes de hidratação profunda para esse pelo que nasce e cresce na cabeça , tão diferente do das orelhas , a máscara facial noite após noite , depois do desmaquilante trifásico e do sabonete especial com pH neutro . E uma arma secreta , analgésica , lápis no contorno dos olhos quando é preciso enfrentar o céu aberto depois do ocaso , bang , o que sobrou na mira do gângster . E as pedras-pomes, e lixas , e alicate , e creme redutor de cutículas , e pauzinho de laranjeira e outros mistérios da vida , essa tão animal , com tão pouco glamour , que não compreendo mas sei que , de alguma maneira mágica , incrível e ancestral , mantêm o corpo funcionando e vivo para que um dia a alma possa voltar a morar ali .
Ali , em alguma parte como essa embaixo da estrelinha cintilante decorando a unha do dedão do pé , que te permita andar com passos firmes e seguros como você já fez faz tempo , antes de ter essa obsessão estupefaciente por descolorir ou arrancar pêlos – os das orelhas , não –, fazer uma escova cada vez que sai do banho , manter o corpo em forma e constantemente pronto para o acasalamento, esperando que com isso ele quem sabe um dia sinta desejo .
Lembra dessa época em que o calcanhar nem tinha uma pele tão suave e o sorriso não exalava tanto o odor a flúor , mas saía bem mais fácil ? Então : passou. Eu era mais jovem e menos linda , mas ali do lado de dentro havia bem mais festa e eu não me importava tanto com dentes ou esmaltes. Agora faço de conta que sou mais linda pra tentar disfarçar o luto e as olheiras de pensar demais na escuridão e no que a limita acima de mim até que ela se acenda a cada manhã e eu veja o que só imaginava: o teto . Antes disso muitas vezes eu choro mas , como ninguém ouve nem vê , tento não pensar que essas marcas que amanhecem embaixo dos olhos , que eu sinto com a ponta dos dedos ao passar o corretivo às cegas , são sulcos , e repito, iluminada, que são só insônia , pra poder esquecer de sentir . Foi tanto medo que funcionou. Agora eu não sinto, sou só linda .
Mas ele me descobriu e eu senti coisas .
Como eu soube que ele era gangster se ele não estava todo bronzeado e vestido de branco com roupas de caimento divino , falando um inglês perfeito como os italianos não sabem fazer em alguma discoteca mais cara do verão europeu ? Do mesmo modo que eu me dirigia à loja de hortaliças transgênicas, porém frescas . Pela mesma razão que ele intuiu minhas orelhas : instinto .
Toda garota sonha em sair na Playboy . Vem comigo?  |