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26 de setembro a 11 de outubro de 2006

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Espaço Aberto #15

ENTRE INÚMERAS DIMENSÕES
Uma descoberta sobre Agnés Varda, o tempo e todas as possibilidades do mundo
por Natália Klein ( blanca_nk@yahoo.com.br )

 

sessão começou pontualmente às 19h. Eu estava sentada na décima segunda fileira, esperando alguém. Havia deixado um envelope com o ingresso e as instruções de como me encontrar. Não tinha certeza se ele chegaria.

Fui assistir aos filmes da cineasta francesa Agnès Varda. Para quem não sabe, durante as primeiras semanas de setembro, Rio e São Paulo foram presenteados com uma retrospectiva desta que é precursora da nouvelle vague (o cinema novo francês) e aclamada documentarista, apesar de ser pouco conhecida no Brasil. Dentre os longas e curtas-metragens exibidos durante a mostra, destaco o programa cinevardaphoto, uma junção de três curtas cuja ligação era o trabalho documental realizado a partir de fotografias.

O tema me interessa muito e me fez pensar imediatamente: já estamos em setembro. Esse ano está passando rápido, assim como o anterior. E o anterior. E o anterior. Uma sucessão de meses que parecem emendar uns nos outros, como um grande bloco de tempo que passa sem que possamos tocar ou sentir sua textura, suas formas. Uma série de instantes que definem e redefinem nossos rumos. Não há como pará-los. A única forma de captarmos esse ínfimo insustentável é através de nossa memória e do aparato tecnológico inventado para potencializá-la: a câmera fotográfica.

E é aí que entram os geniais Ydessa, os ursos e etc , Ulisses e Saudações Cubanos . Os três falam sobre o efêmero captado pelas lentes e como o tempo é capaz de modificar esse fragmento supostamente imaculado. O primeiro fala sobre uma mulher que fez da sua obsessão por ursos de pelúcia um objetivo de vida. Em outras palavras, ela sai por aí catando fotos antigas de pessoas com ursos de pelúcia e, se possível, os próprios ursos. O resultado foi um acervo de quase 8 mil fotos e uma exposição, no mínimo, intrigante. Cada foto carrega consigo histórias, destino, afetos. Tudo isso paralisado no tempo, fixado na superfície de um papel fotográfico.

O segundo curta do programa, Ulisses , foi feito a partir de uma única foto tirada pela própria cineasta 20 anos antes. Em uma praia, há uma cabra morta, um homem e um menino. Duas décadas mais tarde, Varda conversa com as pessoas envolvidas naquele trabalho, incluindo o menino – agora adulto – Ulisses. O filme oscila entre realidade e ficção de maneira quase didática. Ulisses não se lembra da foto e a documentarista brinca com essa permeabilidade seletiva da memória. Por fim, o inventivo Saudações Cubanos , todo contado por meio de fotografias de Varda. Nesse filme, ela consegue extrair ritmo e movimento da estaticidade inerente à fotografia, através de uma montagem cuidadosa do material obtido durante a viagem a Cuba.

Ao final da sessão, eu ainda me encontrava na décima segunda fileira, na quarta ou quinta poltrona da esquerda para a direita. Ao meu lado, minha bolsa ainda marcava um lugar. Não sei o que houve. Ele pode nunca ter recebido o ingresso com as instruções. Vai ver aquele pequeno envelope pardo está em algum lugar, agora mesmo, perdido por aí. Ou foi parar nas mãos de outra pessoa por engano. Talvez ele simplesmente tenha resolvido não ir me encontrar, não estava interessado.

Certa vez, um amigo me falou sobre a existência de inúmeras dimensões em que ocorrem, simultaneamente a nossa, outras realidades. E elas se modificariam a cada instante, de acordo com cada pequena decisão. Isso significa dizer que há um imenso campo de possibilidades que se transforma a todo o momento. Agora, por exemplo, eu decidi começar uma nova frase. E terminei. Mas eu poderia nunca nem mesmo ter escrito este texto ou, de repente, posso resolver apagá-lo e jamais alguém poderá ler uma linha sequer. Para cada decisão tomada nesse campo de possibilidades, há outras várias que podem estar se desenrolando ao mesmo tempo, em um universo paralelo.

Dessa forma, em uma outra realidade, ele pode muito bem ter resolvido me encontrar e assistiu cinevardaphoto ao meu lado na décima segunda fileira. Ou, ao invés de ter sumido, o envelope pardo foi parar direitinho em suas mãos, a tempo, evitando o triste desperdício de um ingresso tão precioso. Mas vai que, no caminho para o cinema, ele pegasse um baita congestionamento e, de qualquer forma, não conseguisse chegar? E se eu tivesse tirado minha bolsa da poltrona ao lado e uma outra pessoa interessante sentasse, possivelmente o grande amor da minha vida? Quanto à hipótese de o envelope ter parado em outras mãos, esta é sustentada pelo fato de que, no meio da sessão, um homem entrou no cinema, contou as fileiras até a décima segunda, olhou para mim e sentou ao lado da minha bolsa. Sabe-se lá quantas outras realidades existem!

Mas daqui a 20 anos eu vou me lembrar desse dia. Não com arrependimento nem com saudosismo barato. Vou me lembrar desse dia como a vez em que arrisquei, que me deixei à sorte de todas as possibilidades do mundo. As lembranças ganharão um tom róseo, próprio da ação do tempo. Porque a memória, bem como a fotografia, não está livre daquele grande bloco de meses, um peso que não somos capazes de perceber na rotina, até que um dia ocorre a epifania e nos damos conta. Mas nada do que lembramos é real, Varda está aí para deixar bem evidente. Daqui a 20 anos eu vou me lembrar desse dia como quem folheia um álbum e vou pensar naquele tênue instante, limite entre a espera, a dúvida e a certeza, o desfecho. Ao meu modo, eu vou me lembrar desse dia.