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6 a 21 de novembro de 2006

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Espaço Aberto #17

DE INICIATIVA E CRIAÇÃO
Reflexões sobre idéias, roteiros e prazer...
por Lon Andrade (eron_andrade@hotmail.com)

 

lguém já me disse que uma das coisas mais difíceis de se fazer em um filme é achar o título certo. Eu diria que fazer filmes já é algo que implica no difícil. Achar o título talvez não seja a tarefa mais complicada. Se tivesse que apontar para algo mais intricado dentro da arte que é sétima, apontaria para a linha que liga idéias, roteiros e o público.

Idéias para um filme, uma peça, uma novela, brotam em qualquer momento, em qualquer lugar, pelas mais variadas razões. O jornal diário está cheio de acontecimentos que induzem a idéias. A vida dos vizinhos, dos amigos, dos outros, são excelentes fontes. Deve-se estar sempre atento ao fluxo intenso e próprio das idéias.
Um roteiro é uma estória [obtida através da idéia] contada com imagens, expressas dramaticamente dentro de uma estrutura definida, com início, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Um roteiro, com uma boa estória, bem estruturado, interligado, bem apresentado, formatado corretamente, contendo as informações necessárias, é de suma importância.

Quando se fala de idéias e, conseqüentemente, em roteiros, logo me vem à cabeça o grande achado criativo de Hollywood. Charlie Kaufman, com cinco roteiros filmados, duas indicações ao Oscar e uma mente assustadoramente cheia de idéias, é a personificação do quão esse terreno é pessoal.

"Um filme deve ter a personalidade de quem o dirige", esbravejava um grupo de jovens franceses nos anos 50, cheios de energia e fúria contra o cinema feito na França da época. Eles viam o diretor como o verdadeiro autor dos filmes, responsabilizando-o pelo seu eventual êxito ou fracasso. Essa era a ‘teoria do autor’ que o mestre Françoise Truffaut tão bem definiu. Contudo, certos filmes me fazem desconfiar dessa retórica Nouvelle Vague, me fazem pensar até que ponto tal teoria já esteja desgastada. Obras como Quero ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, têm em comum trazer-me esses questionamentos à tona. Nelas Charlie Kaufman assina roteiros inteligentes e, sobretudo, inventivos. Apesar do próprio afirmar que ‘o cinema é fruto de um enorme trabalho de colaboração’, não há como deixar de notar que [talvez] Kaufman, suas idéias, seus roteiros, sejam os verdadeiros autores de um filme.

Ainda abusando do nome Kaufman, falo de um outro fator conveniente. Os manuais de escrita cinematográfica apresentados em estantes nas livrarias são pequenos atentados à originalidade, tanto do cinema, quanto de quem os compra. Em relação a todos os atos de iniciativa e de criação existe uma verdade fundamental, cujo desconhecimento mata inúmeras idéias e planos esplêndidos no cinema: os moldes são referências fracassadas, mesmo que pareçam referências adequadas mediante ao fracasso de uma concepção.

Em meio ao conceito e suas alusões [tal como é o roteiro], encontra-se o elemento mais precioso dessa delicadíssima empreitada cinematográfica: o espectador. Existem muitas razões para se ver um filme, e a seleção do espectador é influenciada pela idade, sexo, instrução, inteligência e a maneira como foi criado. Os motivos podem variar de como foi seu dia de trabalho ou em casa, de como tem sido a sua vida ultimamente. Mas a maioria, no entanto, o que realmente deseja, é deixar para traz por algumas horas, a banalidade e a rotina do dia a dia e viver uma nova vida na tela, sem se preocupar em ‘entender’, porque ali a vida ultrapassa qualquer ‘entendimento’. Quando todos esses elementos constituem uma linha com o mínimo de encanto e poesia tudo me parece mais fácil. Inclusive achar um título certo.