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02 a 17 de janeiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

Espaço Aberto #19

UM REVÓLVER, ALGUMAS BALAS E UM CIGARRO ANTES DE SAIR
Blacksad um dos mais interessantes quadrinhos europeus sai agora no Brasil pela Panini
por Darlon Carlos (darloncarlos@yahoo.com.br)

 

ra um dia como qualquer outro. O sol brilhava, os pássaros cantavam, os sapos coaxavam, os carros passavam pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Tudo bem, poderia não ser muito bem assim, mas se aproximava. Eu estou tentando começar esta história da melhor maneira possível.

Estou na minha costumeira banca de jornal, procurando alguma revista para ler, sem saber exatamente o que levar. A minha frente uma série de revistas em quadrinhos. Meu medo é que o Brasil comece a seguir a linha dos EUA, achando que a quantidade trará a qualidade. Ledo engano. O que vemos em abundância é exatamente o contrário, muita coisa boa não tendo espaço para aparecer pela grande quantidade de porcaria. Mas, continuo insistindo.

Poderia levar alguma coisa dos super-heróis, só que não estou mais para caras hipertrofiados com roupas colantes e colocando a sunga por cima da calça. Tudo bem, não vou dizer que não leio. Se o roteiro for bom, leio sim! Se for bom! Algo que anda difícil nos dias de hoje.

Tem um garoto, aparentando ter uns 12 anos, na minha frente. Está olhando as revistas. Deve estar perdido como eu. Que bom, não sou o único! Ele pega um número do Batman, abre, dá uma folheada, vai à sessão de cartas e começa uma leitura rápida. Parece que vai levar.

Eu, particularmente, não leio Batman há um bom tempo. Nada contra a quem lê. Somente não dá mais para engolir um sujeito vestido de morcego, andando por ai batendo em pessoas altamente armadas com um cinto de utilidades. Pense bem, nos dias de hoje dá para engolir? Já li boas histórias como, por exemplo, o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. A primeira parte, pois a segunda foi uma droga. Miller até o dia de hoje não pediu desculpas pelo que fez com os seus leitores, e pelo que parece nunca vai pedir.

Eu vi, eu vi, eu acho que vi um gatinho! Puxei pela lombada. Era um gato sim, com olhos verdes, com um cigarro no canto da boca e com a cara feia. Blacksad: em algum lugar entre as sombras era o título da primeira história.

“Hei, é aquela história dos personagens que são antropomorfos! São legais!”. Quem disse isto foi o garoto aparentando ter 12 anos que tinha acabado de levar o Batman. Viu a revista na minha mão e deu a opinião, mesmo sem ser solicitada. Está bem, ainda há esperanças. Ele não lê somente super-heróis com a sunga por cima da calça.

Levei a revista, mas antes fui ao dicionário para saber, em detalhes, o que significava antropomorfo. Segundo o dicionário Aurélio: Espécime dos antropomorfos, importante grupo de primatas antropóides, caracterizados pela ausência de cauda. São quatro espécies: gorila, mandril, chimpanzé e orangotangos. Pertencentes ou relativos a eles.

Em outras palavras, os personagens têm cabeça de animais e corpo humano. John Blacksad é um gato preto, detetive particular, que vive em uma Nova York dos anos cinqüenta. Cheio de belas mulheres e gângsteres armados até os dentes. Os policiais, por azar, são, em sua maioria, cães que não dão mole para ele. E, diga-se de passagem, Blacksad está no lugar errado na hora errada, sempre! Isto deixa a história mais interessante a cada página.

O roteiro fica a cargo de Juan Díaz Canales e, por sua vez, a arte e cores ficam nas mãos de Juanjo Guarnido. O ritmo é bem cadenciado, em cada parte se vê o equilíbrio perfeito entre arte e diálogos. O traço de Guarnido parece em muitos casos com os desenhos de Tim Sale, que fez As Quatro Estações, história com o Super-Homem. Contudo, em alguns chega a superá-la.

Blacksad é uma revista bimestral, ficando sempre com um gostinho de quero mais, são quadrinhos europeus, da Dargaud, sendo lançada aqui no Brasil pela editora Panini. Fico feliz que os quadrinhos europeus estejam voltando para as bancas de revistas brasileiras. Antes era uma dificuldade encontrar uma nas lojas especializadas, sem dizer que o preço era sempre bem salgado.

Se eu tivesse que definir a revista diria que se parece com aqueles filmes noir que o tempo levou. Em que o detetive, com o seu sobretudo surrado, chapéu de abas caídas e com um cigarro no canto da boca tem que seguir por um longo caminho até chegar a solução do caso. Aqueles filmes que as TVs abertas passam na madrugada e que você fica até mais tarde para ver. Feliz da vida.