2

 

 


Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

Espaço Aberto #20

O DESTINO É O CHÃO
Uma crônica sobre a difícil arte de voar...
por Valmor Cunha (valmor_cunha@brturbo.com.br)

 

empre tive vontade de voar, de provar a liberdade mais próxima, de sentir o vento batendo no rosto e os cabelos esvoaçando à medida em que ficava mais alto e mais longe da terra. Fico ainda imaginando como seria a vida das pessoas se Santos Dumont não tivesse inteligência suficiente para levantar do chão os sonhos de toda uma população, reunidos em um monte de bambu e tecido. Na verdade, desde os tempos de Icaro, as pessoas já sonhavam com a idéia de desafiar a lei da gravidade. Se o nadador podia ser tão bom quanto os peixes, porque não poderia ser melhor ainda do que os pássaros. E ao ver uma águia na imensidão do espaço planando no ar, o homem começou, literalmente, a sua ascensão.

Quando era criança e os aviões sobrevoavam um pouco mais abaixo do costumeiro, era um corre-corre para chegar até a porta ver as cores reluzentes e as luzes pequeninas lá em cima piscando. Era um fato raro. Acredito que minha cidade não seja rota de aviões. As coordenadas geográficas não ajudam a pequena Sombrio neste que era um dos meus passatempos favoritos. Gostava de ver as luzes irem ficando cada vez menores, até que a espera pelo último piscar demorasse mais tempo do que até então estava acostumado. Aí então saberia que havia perdido de vista e sumido na imensidão do espaço sideral. O que mais aproximava desse intento eram as brincadeiras com pipa no alto de um morro. Linhas esticadas, olhos atentos a cada movimento que aquela mistura de taquara, plástico e tecido fazia lá em cima. E as horas passavam num piscar de olhos.

Depois que vi na minha frente um helicóptero de verdade, pousando sobre o gramado do campo de futebol atrás da igreja, decidi que viria a ser algum dia piloto de uma máquina daquelas. Então, quando completei quatorze anos, fiz inscrição para as Forças Armadas, mais precisamente na Aeronáutica. Preenchi todo o formulário, convenci um amigo a fazer também e sonhei com o dia que eu voltaria à minha terra pilotando um avião, dando um rasante sobre a cidade. Pura ilusão. Quando vieram os materiais para estudar, veio também o local da prova. Seria em São Paulo, no dia tal de tal. Iria com quem? De ônibus? De carro? – Carro da onde? Mal tínhamos um televisor 14 polegadas preto e branco! Desisti na mesma hora.

Hoje, Sombrio continua não sendo rota de aviões e se foi ou é, não tenho mais o tempo que tinha para ficar horas e horas a observá-los daqui de baixo, com a mente lá em cima. Já vi alguns a poucos metros de mim, enormes tubos prata-metálicos que se imagina como podem voar, ou melhor, como podem subir. Ainda fico fascinado com tamanha engenharia: o motor propulsor, a envergadura das asas, os ailerons e mais uma série de componentes que dão estabilidade e soberania lá em cima. E isso é tudo. Nunca sequer toquei em um, quanto mais voar neles.

Então, quando resolvi fazer uma pipa para meu filho, acreditei que voltaria aos tempos daquela algazarra gostosa dos fins de semana ventosos do litoral catarinense. Mas não voltou. Não sei o que estava errado. Tudo construído dentro dos padrões daquela época: linha, taquara bem seca, plástico e guias medidas com precisão. Uma corrida pela estrada à fora e a pipa já estava lá em cima. Porém, em segundos, deu três ou quatro rodopios e veio abaixo. Corrigi o rabo dela, ajustei guias e pus novamente ao vento. Mais duas ou três voltas no ar e o destino certo: o chão. Deixei meu filho segurando o carretel de linha e aventurei-me por entre a vegetação dos terrenos baldios, mas a pipa negava-se insistentemente a me dar este orgulho em frente a meu filho. Por fim, cansado, suado, as pernas com cortes e arranhões de passar por entre os arbustos secos dos terrenos, resolvi sentar. Meu filho, batendo no meu ombro tentou me consolar: - Deixa pai, a gente faz outra no domingo que vem. Aquilo foi a gota d´água para um homem que na infância e parte da adolescência sonhou em voar, em ser piloto. Eu havia fracassado e não havia como negar. E a culpada (sim, em tudo existe um culpado) estava lá no meio da vegetação baixa. Levantei de um salto, peguei uma pedra, coloquei as duas mãos para trás e fui, pé após pé, ao seu encontro. Bati nela com a pedra na mão desesperado, pisei, chutei. E ao ver meu filho lá na estrada encolhendo a linha no carretel, juro que deu vontade de voltar e bater ainda mais no que sobrou de taquara e plástico rasgado, misturados a areia e grama, mas preferi ir pra casa tomar um banho e cuidar dos ferimentos.

Depois desse episódio, acabei perdendo um pouco aquela essência, aquela vontade de que tinha de subir aos céus. Se nem as pipas que faço não conseguem ficar mais do que dez segundos lá em cima, pior seria se eu estivesse junto. Quando muito, me arrisco nos telhados de casa ou nos degraus de uma escada. É o mais perto que consigo chegar do espaço. Não fui piloto, não aprendi a voar como os pássaros e não consegui construir uma simples pipa, mas é, sem dúvida, uma parte de vida que me ajudará a compor outros sonhos.