SAMBA NA CASA DE HAROLDO
Na Virada Cultural, as rosas se renderam ao som dos bambas.
por: Priscila Tieppo ( priscilatieppo@gmail.com )

trações que iam do rock ao forró. Apresentações de dança, piano, teatro e mostras de cinema. Assim foi a Virada Cultural que aconteceu no último fim de semana, em São Paulo. Esta é a terceira edição da festa que se inicia no sábado às 18h e vai a até o mesmo horário do domingo, ou seja, 24 horas respirando cultura e arte para todos os gostos.
A festa foi aberta na Praça da Sé, marco zero da capital, com o show do pernambucano Alceu Valença que cantou músicas do disco Espelho Cristalino , gravado em 1977 e encerrou a apresentação com sucessos marcantes de sua carreira. Além dele, os paulistanos puderam ver, entre outros, Pato Fu, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, Paulinho da Viola, Ratos de Porão, Ademilde Fonseca, Nação Zumbi e Zélia Duncan, que encerrou as apresentações no domingo, às 18h.
Já o show dos Racionais MC's foi interrompido por balas de borracha e vandalismos, após o confronto entre jovens e policiais. Uma cena que não precisava acontecer. Enfim, foram 350 apresentações que se revezavam nos diversos palcos espalhados na zona central, nos CEU's, na periferia, em centros e espaços culturais por toda a cidade. E, é claro, eu fiz a minha escolha...
A Minha Virada!
Ao invés de ir ao encontro da multidão que se aglomerava nos espetáculos musicais, decidi iniciar minha Virada Cultural, na manhã de domingo. Caminhei pela Avenida Paulista sob um sol gostoso das 10 horas da manhã. Meu destino era a Casa das Rosas (ou Espaço Haroldo de Campos), que fica próximo à estação de metrô Brigadeiro. No pequeno trajeto do metrô até a Casa, vi muitos jovens sentados nas ruas e nas escadas tentando decidir qual seria o próximo evento. Tenho certeza de que devem ter passado a noite por ali mesmo, emendando uma atração na outra.
Chegando ao meu destino, vi pessoas dormindo nos bancos e sofás da Casa, o que contrastava com os visitantes despertos da Rua do Livro, evento que acontecia no mesmo local, só que do lado de fora. Encontrei uma amiga e fomos andar por entre as tendas de livros. Havia livros de todos os estilos: os clássicos da literatura, os infantis, os “best-sellers”, as edições afro-brasileiras e tantos outros.
Os preços não eram tão acessíveis, mas havia obras em promoção. Então , não resisti, e comprei uma edição de prosas de Carlos Drummond de Andrade, chamada Tempo Vida Poesia – Confissões no rádio e, de quebra, o vendedor muito simpático, me presenteou com um livro de Oscar Wilde, em espanhol. O livro chama-se El alma del hombre bajo el socialismo .
Depois deste passeio, ao meio-dia em ponto, se iniciou a tão esperada Roda de Samba. O grupo que comandou a roda foi formado dentro daquela casa, em um Workshop de Samba - Escola de Bambas, realizado nos meses de março e abril. Todo o repertório foi escolhido pelos alunos e, alguns deles, também integravam o grupo, batizado como “Haroldosamba”, em homenagem ao ilustre ex-morador da Casa das Rosas, Haroldo de Campos, um poeta concretista.
O projeto foi premiado pelo PAC 2006 (Programa de Apoio à Cultura) da Secretaria de Estado da Cultura e foi idealizado por André Domingues, crítico musical e pelo percussionista Betinho Sodré Depois de dois meses de estudos, pesquisas e experimentações musicais, o grupo Haroldosamba apresentou ao público uma visão nova e criativa da história do samba brasileiro. No elenco estiveram Iracema Monteiro, Alexandre Ribeiro, Betinho Sodré, Marco Bertáglia, Cabelinho, Marcelo Otávio e Kico Nogueira (diretor musical do grupo). Os instrumentos foram todos doados por uma loja especializada.
O resultado de todo esse processo foi a excelente apresentação que acordou aqueles que dormiam para sambar e chamou o público para um início de tarde bem brasileiro. Com músicas conhecidas do público como “Voz do morro”, de Luiz Melodia, “Jura”, de Noel Rosa, recentemente regravada por Zeca Pagodinho, “Chega de Saudade”, de Tom Jobim, “Se acaso você chegasse”, gravada por Nelson Gonçalves e “Take it easy my brother Charlie” de Jorge Ben Jor, o repertório mostrou o samba do seu início aos dias de hoje, além das suas vertentes românticas, boêmias e malandras. O show durou duas horas e nem assim as pessoas queriam que terminasse.
Ao fim da apresentação, fui embora com a minha amiga e pude perceber os olhos satisfeitos dela e dos demais que estavam saindo do evento também. A minha Virada Cultural se completou naquele momento, num evento alternativo e de muito bom gosto. Longe do tumulto e das atrações conhecidas, encontrei a cultura do meu povo, inserida nas letras de samba que insisto em cantarolar até hoje.
“Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo sim, senhor
Quero mostrar ao mundo que tenho valor...”  |