Além da Independência
Conheça algumas bandas que ainda batalham por mais espaço no mundo dos independentes.
por Eduardo Martinez (eduardoapm@hotmail.com)
á estamos cansados de ouvir (ou ler) por aí aquela história de que “vivemos um momento de ascensão do mercado musical independente. Graças a sites como Trama Virtual e My Space, vários blogs e a Internet em geral, bandas independentes vão chegando a números anteriormente utópicos”. Nomes como Superguidis, Ludovic, Ecos Falsos, Vanguart e mais uma infinidade de ótimas bandas já são encontrados facilmente em diversos veículos culturais do país, mas além desses exemplos mais “óbvios”, existem também trabalhos interessantíssimos que se situam numa espécie de “underground do underground”, mas ocupam esse lugar simplesmente por ainda não serem muito comentados, pois qualidade eles têm de sobra.
Da Bahia, mas especificamente de Salvador, vem O Circulo. Na primeira audição a sonoridade pode parecer um pouco “mais do mesmo”, o ouvinte pode até pensar que se trata de mais uma banda que sonha ser o Los Hermanos. A influência dos Barbudos até existe, mas com uma audição mais cuidadosa você percebe que essa influência é muito bem dosada em meio a sons que nos remetem as bandas do chamado “Novo Rock”, a reggae, funk, e ao pop rock da melhor qualidade.
O timbre marcante e sutilmente grave do vocalista Pedro Pondé serve como um guia imerso em linhas de baixo sinuosas, guitarras ora cortantes ora climáticas e bateria coesa. As músicas passeiam entre várias tendências com personalidade. A melancolia de canções como “Nada é Igual” contrasta com a energia pop contagiante de “Depois de Ver”, ou ainda o quase-reggae “Amor de Graça” e a funkeada “Pare com Isso”, em que Pondé em alguns momentos explora sua voz de forma mais gritada/arrastada, quase como um cantor de blues. Blues, funk, reggae, rock, juntos? Pode parecer estranho, mas funciona, e bem.
Mudando da Bahia para o Rio de Janeiro temos agora outro nome notável. Pense em melodias simples, guitarras idem, e letras bem elaboradas. Essa química precisa constitui a sonoridade indie/pop/rock do Rádiokaos. Parte dos integrantes da banda é ligada à poesia e literatura em geral. Para muitos, essa informação já poderia fazer crer que estamos nos deparando com músicos intelectualóides, daqueles que chegam a se perder na “complexidade” de suas idéias.
Mas, felizmente, o que reina no mundo do Rádiokaos é a simplicidade, talvez até como um Weezer ou um Teenage Fanclub tupiniquim, mas nessa atmosfera de sons triviais várias influências podem ser identificadas, desde Pixies até Cartola. Outro destaque da banda é a singularidade das letras, boa parte delas foram escritas como poesia, e só depois foram musicadas pelo vocalista Calê, e então passadas para a banda as transformar em ótimas canções.
Continuamos no Rio de Janeiro mas trocamos de banda, agora a bola da vez é o Cooper Cobras. O power trio formado por Victor Lima (voz & guitarra), Luiz Menezes (baixo) e Pedro Svensson (bateria), tirou o nome da banda de uma marca de pneus de um Mustang, com isto você já pode imaginar a que esses cariocas vieram. O vocal rasgado e estridente de Victor Lima berra assuntos comuns ao Stoner Rock como carros e rachas, ou ainda festas e o próprio Rock´n Roll. O clima vintage, tanto estético quanto sonoro, aponta influências de Rolling Stones, ACDC, Ramones, MC5 e várias outras lendas do rock.
Com menos de dois anos de estrada, os Cobras mostram que sua ideologia de “Diversão acima de tudo” vêm conquistando fãs. Foram destaque no site Trama Virtual, e o clipe da música “Até o Fim do Show” já rola na programação da MTV, mas ainda é pouco reconhecimento para o potencial apresentado.
Infelizmente o mercado teima em virar as costas para esse arsenal de ótimas bandas que surgem a todo momento, as três citadas acima estão entre as menos comentadas, e já fazem um barulho ensurdecedor, mas se fosse para listar todos que mereciam um lugar ao sol, provavelmente esse espaço seria pequeno.
Outra teimosia é a dos grupos que constituem o chamado Mainstream. Insistem em se repetirem cada vez mais, enquanto boa parte dos independentes se reinventa a todo momento. É importante deixar bem claro que não basta ser independente para se tornar um gênio, assim como o Mainstream não é completamente descartável, existem trabalhos ótimos e terríveis dos dois lados, mas essa diferença vai se tornando cada vez mais gritante.
Feliz foi o Los Hermanos, que em seu auge comercial jogou tudo para o alto com o excepcional Bloco do Eu Sozinho, e daí em diante conseguiu manter seu nome (com um número de fãs menor, mas com uma fidelidade maior) e conseguiu respeito de crítica e público. Ou ainda o Moptop, que em uma ascensão meteórica conseguiu um contrato com a Universal e lançou seu ótimo álbum de estréia. Poderia terminar por aqui dizendo “Salve o Mercado independente”, mas julgo mais sensato dizer “Salve a Boa Música”. Ouça: O Circulo: Nada é Igual ; Rádiokaos: A Doce Vita ; Cooper Cobras: Até o Fim do Show . 
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