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LATIM EM PÓ #2
A DOCE VINGANÇA DOS EDITORES
A Feira do Livro de Porto Alegre
não escapa à mesmice da badalação da
lista dos mais vendidos
por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)
ada
de novo sob o sol no mundo das letras da Praça da Alfândega.
Este fim de semana da 48ª Feira do Livro repete o movimento
do anterior, quando mais de 100 mil pessoas haviam visitado as 119
barracas do evento. Até este sábado, mais de 610 mil
pessoas já haviam visitado a Feira. O número de livros
vendidos está em 165 mil. O campeão em vendas é
Divã, de Martha
Medeiros. A movimentação na Praça da Alfândega
está agradando a organização do evento, muito
embora o número de visitantes não corresponda, necessariamente,
em mais livros vendidos. Segundo pesquisa de uma publicação
da capital, 62% dos freqüentadores preferem os balaios de saldos,
mas as obras que encabeçam a lista dos mais vendidos mostra
que o apelo dos lançamentos sempre atrai um número
considerável de leitores.
Se tentarmos traçar um perfil do consumidor
da Feira de Porto Alegre, veremos que a lista de mais vendidos,
a programação das sessões de autógrafos
e a divulgação de alguns autores — na sua maioria,
gaúchos — na imprensa local são os fatores determinantes
para a compra de um livro na Feira. No gênero ficção,
além de Martha Medeiros em primeiro, em segundo está
A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski.
O mais vendido de não-ficção foi O Nazismo,
de Voltaire Schilling. A Guerra das Letras, de Alcir Nicolau
Pereira, e Agenda Bruxa Pascoalina 2002, de Paulina Monckenberg,
são, respectivamente, os mais procurados na categoria infantil
e esotérico. No formato “de bolso”, o médico
Fernando Lucchese e o cozinheiro José Antônio Pinheiro
Machado emplacam Comer Bem, Sem Culpa no topo da lista. Detalhe:
das seis obras, quatro são de autores gaúchos. Mas
não é bairrismo, se bem que não há espécime
mais bairrista do que o porto-alegrense...
O livro de Letícia Wierzchowski ganhou destaque
este mês por causa da adaptação de A Casa
das Sete Mulheres para a tevê, com estréia em janeiro
de 2003. Campeões de vendas na Feira do ano passado, o jornalista
e mestre-cuca, José Antônio Pinheiro Machado e o cardiologista
Fernando Lucchese uniram suas “forças” para inventar
mais um best-seller. O Nazismo, por sua vez, é
um caso particular: editado pela UFRGS, o livro do historiador Voltaire
Schilling ganha destaque na contramão da maioria dos mais
vendidos. Não é lançamento, não está
programado para sessões de autógrafos, foi lançado
há mais de cinco anos, é um livro voltado para um
público segmentado e não é um dos grandes destaques
da banca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo a
editora, o motivo do fenômeno é causado pelo “eleito
balaio”, onde muitos autores não badalados acabam sendo
promovidos pelo preço mais baixo e, no caso de O Nazismo,
ele é uma das obras recomendadas pela bibliografia da Universidade
para o Concurso Vestibular de 2003.
Apesar das vendas, o problema é que, tirando
os saldos e os pocket books, os livros andam muito caros.
A maioria das obras custam, em média, de R$ 20 a R$ 50. O
desconto, como sempre, é de farmácia. Imaginemos um
lançamento cheio de “pirotecnias”, capa com relevo,
com umas 110 páginas, impresso em letra grande, e custa R$
20? É o que mais se vê nas barracas. Em geral, da parte
dos livreiros e autores, a Feira é um grande evento cultural.
O escritor Altair Martins corrobora a afirmação: “a
feira é marca nossa, parece que nessa época tudo muda”,
diz. O escritor entende que, pelo fato de estar em destaque, o livro
precisa cada vez mais ficar ao alcance da mão, dos olhos,
do nariz do leitor. “A leitura sofre cada vez mais as competições
da imagem. A feira é a nossa vingança” diz.
“Vingança” é a palavra
certa: para o editor que sofre com a recessão e a baixa demanda
de livros o ano inteiro, a Feira é a salvação
das editoras, que emendam suas vendas com as compras de Natal. Ou
seja, não há o que reclamar. E para quem sai lucrando,
a Feira é uma festa para quem lê e tem dinheiro, para
quem publica livros, para quem é escritor, e principalmente,
para os vivos (como diria o Barão de Itararé, os mais
vivos). De quê adianta ser um escritor morto, e parar no balaio
de saldos, a R$3? Quem vai ler aquele empoeirado Minha Formação,
obra-prima de Joaquim Nabuco — atirado nos balaios da vida
— ou saldos que só servem para cumprir tabela? Os balaios
da L&PM, por exemplo, não são saldos, tudo ali
é com preço de tabela, e os 10%. Um livro de R$ 21
com desconto vai para R$ 17. Há quem prefira entornar um
caneco de chopp no Bar do Opinião. Por sinal, era o Bar quem
levava multidões bíblicas para a Praça da Alfândega,
nos bons tempos em que o Opinião ficava instalado ao lado
do Pavilhão Central. A organização botou o
“botecão” para escanteio, porque o evento cultural
já estava se transformando em Oktoberfest.
O mais é que ela, a Feira, não seduz
aos que não lêem. Ainda mais por causa dos preços
com relação ao quê eles oferecem. Todas as bancas
têm se esforçado para parecerem a mesma coisa. E tem
muito livro e pouca literatura, ás vezes. Mas tem muita literatura
infantil, e é o mais legal, porque livro infantil é
um barato. O que falta mesmo é alguém que chute o
balde da marquetagem instituída no mundo das letras no Brasil
e instrua a garotada a ler mais. A deputada Esther Pillar Grossi
(PT), uma das convidadas a fazer parte do grupo de transição
do presidente eleito, Luís Inácio da Silva, explicou
esta semana que é possível erradicar o analfabetismo
em quatro anos de governo Lula. Atenção, deputada:
são 20 milhões de analfabetos! É mais fácil
um camelo entrar no Reino dos Céus do que alfabetizar tanta
gente. O restante alfabetizado lê, em média, um livro
por ano. Se o projeto vai dar certo eu não sei, só
espero que, daqui a quatro anos, não tenhamos mais livros
de receita na lista dos mais vendidos da Feira do Livro.
Falando na lista, lá vai ela:
FICÇÃO:
Divã – Martha Medeiros
A Casa das Sete Mulheres – Letícia Wierzchowski
Dores, Amores e Assemelhados – Claúdia Tajes
O Livro Negro do Radicci - Iotti
O Sorriso do Lagarto – João Ubaldo Ribeiro
Agosto – Rubem Fonseca
O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel –
J. R. R. Tolkien
NÃO-FICÇÃO:
O Nazismo – Voltaire Schilling
Iugoslávia, Guerra Civil e Desintegração
– Jurandir Soares
Estação Carandiru – Dráuzio Varella
História É Vida – Antônio Alfredo
Mercadante
Leituras Obrigatórias (Vestibular UFRGS 2003/2004)
– Altair Martins (org.)
Seleção de Receitas dos Mestres da Culinária
– vários autores
Confrontos: O Pensamento Político Alemão –
Voltaire Schilling
A Terra em que Nasceste – Regina Zilbermann
INFANTIL:
A Guerra das Letras – Alcir Nicolau Pereira
Escola Mágica – Donaldo Bucheitz
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – J. K. Rowling
100 Magias para Conquistar Milhões de Amigos –
Disney
Pokémon/ Série de Adesivos – sem autor
Teletubbies – As Danças de Gipsy – sem
autor
Teletubbies – Quatro Teletubbies Felizes – sem
autor
POCKET:
Comer Bem, Sem Culpa – Fernando Lucchese e J. A Pinheiro
Machado
Anonymous Gourmet: Mais Receitas – J. A Pinheiro Machado
Anonymous Gourmet: Novas Receitas – J. A Pinheiro Machado
A Arte da Guerra – Sun Tzu
Desembarcando o Diabetes – Fernando Lucchese
Topless – Martha Medeiros
Assassinatos na Rua Morgue – Edgar Allan Poe
Manifesto Comunista – K. Marx e F. Engels
Marília de Dirceu – Tomás A Gonzaga
ESOTÉRICO:
Agenda Bruxa Pascoalina 2002 – Paulina Monckenberg
Sintonia – Ivan Freitas
Quem Mexeu no Meu Queijo? – Spencer Johnson
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