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14 a 27 de novembro de 2002



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LATIM EM PÓ #2

A DOCE VINGANÇA DOS EDITORES
A Feira do Livro de Porto Alegre não escapa à mesmice da badalação da lista dos mais vendidos

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

ada de novo sob o sol no mundo das letras da Praça da Alfândega. Este fim de semana da 48ª Feira do Livro repete o movimento do anterior, quando mais de 100 mil pessoas haviam visitado as 119 barracas do evento. Até este sábado, mais de 610 mil pessoas já haviam visitado a Feira. O número de livros vendidos está em 165 mil. O campeão em vendas é Divã, de Martha Medeiros. A movimentação na Praça da Alfândega está agradando a organização do evento, muito embora o número de visitantes não corresponda, necessariamente, em mais livros vendidos. Segundo pesquisa de uma publicação da capital, 62% dos freqüentadores preferem os balaios de saldos, mas as obras que encabeçam a lista dos mais vendidos mostra que o apelo dos lançamentos sempre atrai um número considerável de leitores.

Se tentarmos traçar um perfil do consumidor da Feira de Porto Alegre, veremos que a lista de mais vendidos, a programação das sessões de autógrafos e a divulgação de alguns autores — na sua maioria, gaúchos — na imprensa local são os fatores determinantes para a compra de um livro na Feira. No gênero ficção, além de Martha Medeiros em primeiro, em segundo está A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski. O mais vendido de não-ficção foi O Nazismo, de Voltaire Schilling. A Guerra das Letras, de Alcir Nicolau Pereira, e Agenda Bruxa Pascoalina 2002, de Paulina Monckenberg, são, respectivamente, os mais procurados na categoria infantil e esotérico. No formato “de bolso”, o médico Fernando Lucchese e o cozinheiro José Antônio Pinheiro Machado emplacam Comer Bem, Sem Culpa no topo da lista. Detalhe: das seis obras, quatro são de autores gaúchos. Mas não é bairrismo, se bem que não há espécime mais bairrista do que o porto-alegrense...

O livro de Letícia Wierzchowski ganhou destaque este mês por causa da adaptação de A Casa das Sete Mulheres para a tevê, com estréia em janeiro de 2003. Campeões de vendas na Feira do ano passado, o jornalista e mestre-cuca, José Antônio Pinheiro Machado e o cardiologista Fernando Lucchese uniram suas “forças” para inventar mais um best-seller. O Nazismo, por sua vez, é um caso particular: editado pela UFRGS, o livro do historiador Voltaire Schilling ganha destaque na contramão da maioria dos mais vendidos. Não é lançamento, não está programado para sessões de autógrafos, foi lançado há mais de cinco anos, é um livro voltado para um público segmentado e não é um dos grandes destaques da banca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo a editora, o motivo do fenômeno é causado pelo “eleito balaio”, onde muitos autores não badalados acabam sendo promovidos pelo preço mais baixo e, no caso de O Nazismo, ele é uma das obras recomendadas pela bibliografia da Universidade para o Concurso Vestibular de 2003.

Apesar das vendas, o problema é que, tirando os saldos e os pocket books, os livros andam muito caros. A maioria das obras custam, em média, de R$ 20 a R$ 50. O desconto, como sempre, é de farmácia. Imaginemos um lançamento cheio de “pirotecnias”, capa com relevo, com umas 110 páginas, impresso em letra grande, e custa R$ 20? É o que mais se vê nas barracas. Em geral, da parte dos livreiros e autores, a Feira é um grande evento cultural. O escritor Altair Martins corrobora a afirmação: “a feira é marca nossa, parece que nessa época tudo muda”, diz. O escritor entende que, pelo fato de estar em destaque, o livro precisa cada vez mais ficar ao alcance da mão, dos olhos, do nariz do leitor. “A leitura sofre cada vez mais as competições da imagem. A feira é a nossa vingança” diz.

“Vingança” é a palavra certa: para o editor que sofre com a recessão e a baixa demanda de livros o ano inteiro, a Feira é a salvação das editoras, que emendam suas vendas com as compras de Natal. Ou seja, não há o que reclamar. E para quem sai lucrando, a Feira é uma festa para quem lê e tem dinheiro, para quem publica livros, para quem é escritor, e principalmente, para os vivos (como diria o Barão de Itararé, os mais vivos). De quê adianta ser um escritor morto, e parar no balaio de saldos, a R$3? Quem vai ler aquele empoeirado Minha Formação, obra-prima de Joaquim Nabuco — atirado nos balaios da vida — ou saldos que só servem para cumprir tabela? Os balaios da L&PM, por exemplo, não são saldos, tudo ali é com preço de tabela, e os 10%. Um livro de R$ 21 com desconto vai para R$ 17. Há quem prefira entornar um caneco de chopp no Bar do Opinião. Por sinal, era o Bar quem levava multidões bíblicas para a Praça da Alfândega, nos bons tempos em que o Opinião ficava instalado ao lado do Pavilhão Central. A organização botou o “botecão” para escanteio, porque o evento cultural já estava se transformando em Oktoberfest.

O mais é que ela, a Feira, não seduz aos que não lêem. Ainda mais por causa dos preços com relação ao quê eles oferecem. Todas as bancas têm se esforçado para parecerem a mesma coisa. E tem muito livro e pouca literatura, ás vezes. Mas tem muita literatura infantil, e é o mais legal, porque livro infantil é um barato. O que falta mesmo é alguém que chute o balde da marquetagem instituída no mundo das letras no Brasil e instrua a garotada a ler mais. A deputada Esther Pillar Grossi (PT), uma das convidadas a fazer parte do grupo de transição do presidente eleito, Luís Inácio da Silva, explicou esta semana que é possível erradicar o analfabetismo em quatro anos de governo Lula. Atenção, deputada: são 20 milhões de analfabetos! É mais fácil um camelo entrar no Reino dos Céus do que alfabetizar tanta gente. O restante alfabetizado lê, em média, um livro por ano. Se o projeto vai dar certo eu não sei, só espero que, daqui a quatro anos, não tenhamos mais livros de receita na lista dos mais vendidos da Feira do Livro.

Falando na lista, lá vai ela:

FICÇÃO:
Divã – Martha Medeiros
A Casa das Sete Mulheres – Letícia Wierzchowski
Dores, Amores e Assemelhados – Claúdia Tajes
O Livro Negro do Radicci - Iotti
O Sorriso do Lagarto – João Ubaldo Ribeiro
Agosto – Rubem Fonseca
O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel – J. R. R. Tolkien

NÃO-FICÇÃO:
O Nazismo – Voltaire Schilling
Iugoslávia, Guerra Civil e Desintegração – Jurandir Soares
Estação Carandiru – Dráuzio Varella
História É Vida – Antônio Alfredo Mercadante
Leituras Obrigatórias (Vestibular UFRGS 2003/2004) – Altair Martins (org.)
Seleção de Receitas dos Mestres da Culinária – vários autores
Confrontos: O Pensamento Político Alemão – Voltaire Schilling
A Terra em que Nasceste – Regina Zilbermann

INFANTIL:
A Guerra das Letras – Alcir Nicolau Pereira
Escola Mágica – Donaldo Bucheitz
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – J. K. Rowling
100 Magias para Conquistar Milhões de Amigos – Disney
Pokémon/ Série de Adesivos – sem autor
Teletubbies – As Danças de Gipsy – sem autor
Teletubbies – Quatro Teletubbies Felizes – sem autor

POCKET:
Comer Bem, Sem Culpa – Fernando Lucchese e J. A Pinheiro Machado
Anonymous Gourmet: Mais Receitas – J. A Pinheiro Machado
Anonymous Gourmet: Novas Receitas – J. A Pinheiro Machado
A Arte da Guerra – Sun Tzu
Desembarcando o Diabetes – Fernando Lucchese
Topless – Martha Medeiros
Assassinatos na Rua Morgue – Edgar Allan Poe
Manifesto Comunista – K. Marx e F. Engels
Marília de Dirceu – Tomás A Gonzaga

ESOTÉRICO:
Agenda Bruxa Pascoalina 2002 – Paulina Monckenberg
Sintonia – Ivan Freitas
Quem Mexeu no Meu Queijo? – Spencer Johnson