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EM PÓ #49
“FANFICS”
Leitores de Harry Potter descobrem uma forma de aprender a escrever
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
eu no jornal: a bola da vez são as chamadas “fanfics”, que estimulam adolescentes a criar histórias e, principalmente, fazem crescer interesse pelos livros. Para quem, não sabe, a expressão é uma redução de “fan fiction”. Em resumo, são enredos de ficção inspirados em autores originais cuja história é retomada pelos seus respectivos leitores. Muitas dessas histórias ganham o espaço lúdico (e tão mal utilizado) da Internet em sites e blogs. A proposta é muito interessante: a partir dos personagens inventados pelos autores dos originais, novas histórias. Em algumas páginas pela rede virtual, é possível encontrar, por exemplo, uma continuação para a saga de Harry Potter que, com efeito, é o personagem mais visado de todos os adolescentes. A dinâmica é simples. Basta ler a todos os livros de determinado autor, mas não ler como um leitor de ocasião, e sim de forma a poder captar perfeitamente a estrutura, o “clichê” da história, a forma dos seus diálogos, a descrição dos personagens, o ritmo literário proposto pelo autor, e bolar uma nova história com começo, meio e fim.
O grande problema é pôr mãos à obra. Mesmo que as fanfics estimulem jovens a repensar a linguagem além do nível de escrita típico da idade e da Internet, existe a necessidade de fazer algo muito difícil hoje em dia, que é ler. Não valeria a pena discutir aqui se o candidato a escritor tem vocação para tal empresa, se o resultado final será bom ou ruim ou se existe qualidade nesse tipo de texto que, em última análise, não passaria de um mero pastiche. O que causa espanto é ver que um livro que é desconsiderado pela crítica (como Harry Potter ) é capaz de estimular adolescentes a exercitar a sua qualidade literária além das atividades de classe.
Contra educadores que condenam determinados livros por seu caráter supostamente subliterário ou por não serem clássicos, o caso das fanfics deve servir de exemplo de que a falta de interesse dos seus alunos por literatura pode ser culpa deles. Afinal, é mais fácil falar a linguagem deles, de entender por que Harry Potter é um fenômeno e Raul Pompéia não é. Por que uma garota não sentiu vontade de escrever um conto ao ler O Ateneu mas resolveu se dedicar ao beletrismo ao conhecer a saga de J. K Rowling. Nada contra Raul Pompéia, mas é difícil escapar dessa lógica, e perceber que muitos dos alunos que deixam o ensino médio guardam tanto desprezo por clássicos. Harold Bloom, o venerado autor de coletâneas insossas de contos infantis (ele obviamente nunca leu nem nunca vai ler Monteiro Lobato), quer que seus pupilos leiam Edgar Allan Poe ao mesmo tempo em que profetiza que os leitores de Harry Potter serão futuros fãs de Stephen King (?).
Claro que essa afirmação não passa de tese pseudocientífica. Como, do mesmo modo, nunca se saberá se todos os jovens despertarão o interesse pela criação literária sem ter que modificar os seus hábitos de leitura. Todo bom escritor que se preze um dia já leu Mark Twain, Jack London, Júlio Verne e, assim como no fenômeno das fanfics, eles começaram copiando esses autores. Ou seja, não existe novidade nisso, da mesma maneira que a febre de leitura não é equivalente ao tal propalado “fenômeno” dos escritores-fãs. E aqueles que realmente despertam para esse ofício muito bem sabem que não é tarefa simples. É um árduo processo de "ler como um escritor", isto é, adquirir o fetiche de "copiar" (não confundir com o Ctrl + C) um estilo literário para aprender os fundamentos da arte de escrever. Hoje existem oficinas de contos com a finalidade de instrumentalizar futuros escritores. Mas nós sabemos que Machado de Assis nunca passou por uma oficina. Ele começou como tipógrafo, lendo e "copiando" o estilo dos folhetins do seu tempo, até virar no autor de Dom Casmurro.
Mesmo para aqueles que sabem que não servem para fazer o gênero escritor, pelo menos esse tipo de familiaridade com o estilo literário é benéfico. Só o exercício da leitura ou a tentativa já é alguma coisa. Já a ferramenta da Internet funciona como uma espada de Dâmocles: o pretenso futuro escritor se veria obrigado a produzir mais e buscar um estilo próprio, à medida em que ele encontra amigos que leiam os seus textos. Porém, mesmo que o advento das fanfics pareça um antídoto à febre de se "escrever errado" pela Web, com uma linguagem codificada e poluída, típica dos chats , a verdade é que esse universo dos autores-fãs ainda é tão restrito quanto ao acesso da maioria das pessoas à Internet. E se o contato com a rede virtual já é restrita ao universo real de postulantes a autores ou leitores, o que imaginar da esmagadora parcela de jovens aqui no Brasil que sequer imagina o que é Harry Potter?
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Por meu turno, eu confesso que também resolvi aderir à mania das fanfics. Exumei os velhos exemplares do Sítio do Pica-Pau Amarelo que eu tanto li quando era garoto.
Depois de reler Reinações de Narizinho , resolvi dar vazão aos sentimentos e fazer um roteiro como uma espécie de seqüência do Sítio.
Ficou mais ou menos assim: Dona Benta e a Tia Nastácia morreram há muito tempo. Dona Benta foi jogada num asilo em Santo André e, esquecida pela família, definhou. Tia Nastácia enlouqueceu e foi parar no Juqueri. Estava irreconhecível sem o avental e com aquela roupa branca. Rabicó foi pego num Natal desses, e morreu de véspera. Pedrinho cresceu, cresceu. Em determinada fase da vida, esquizofrenizou. E se transformou num velho careca, gordo e solteirão de trinta e poucos anos, num tipo Syd Barrett que vive bebendo cerveja barata na frente da tevê, e torcendo com incomum fervor para a Portuguesa de Desportos pelo pay-per-wiew da Série B. Narizinho é um caso triste e singular. Agora se chama Lúcia apenas, casou, e pagou o pão que o diabo amassou com o marido alcoólatra e infiel. O homem trocou a carreira numa multinacional por uma garrafa de cachaça, e hoje é uma pedra rolante. Depois que ele a abandonou, com a prole e milhares de contas para pagar, e a vida toda que poderia ter sido e não foi. Hoje, seus filhos a deixaram, e ela vive com uma pensão (do pai, que era militar) que mal serve para pagar a sua operação de câncer de mama. Queria ser princesa, e virou uma traviata . E Emília?
Todos envelheceram e se perderam na vida, mas a Marquesa de Rabicó (agora viúva) ainda sobrevive. O tempo apenas cuidou de torná-la em uma boneca mais raivosa e contestadora. Também ficou um tanto paranóica. Para ela, todo mundo é "cara-de-coruja". Há quem diga que é seqüela de tanto cheirar pó de Pirlimpimpim. O pó jogou a boneca de pano num vício horrível, que deteriorou toda a sua saúde. Ficou com o tecido todo amarelado, e com o nariz mais arrebitado do que a Narizinho. Pior: perdeu todos os cabelos, e teve que recorrer a uma peruca colorida. Menos mal que ela é uma boneca. Depois do susto, ela passou por um lento processo de desintoxicação na Pinel. Coitada! Desde que lhe tiraram o Pirlimpimpim, ela ficou meio alada, perdida, como que lobotomizada. Sem norte, de tão macambúzia. Resolveram chamar o Doutor Caramujo, para lhe receitar alguma pílula salvadora. Mas há muito ele deixou a Medicina — desde que uma junta militar derrubou o Príncipe Encantado (que teve que pedir asilo político em Pasárgada, onde era amigo do rei) e instaurou uma ditadura sanguinolenta no Reino das Águas Claras.
É óbvio que isso foi há algum tempo (esse ano, estão tentando abrir os arquivos da ditadura, mas isso é uma outra história). Louca como uma Ofélia, dizem que a Marquesa alterna momentos de lucidez, e outros de loucura. É claro, Emília (já sem a realeza de outrora) não pôde esconder as marcas do tempo — Narizinho não existe mais para recoser seus trapinhos puídos. Perdeu um botão do olho esquerdo. Tentou operação plástica pelo SUS, mas indeferiram. Afinal, ela não passa de uma reles boneca feiosa, escroque, gagá e muito desaforada, à proferir as suas asneirinhas de sempre. Mas Emília, a eterna nefilibata, continua a mesma de sempre, e ainda sonha.
Sonha com o Sítio do Pica Pau Amarelo dos livros, com aqueles desenhos sinistros do Belmonte. Aquele onírico Sítio mágico que saiu da pena do Monteiro Lobato, há muito tempo atrás. Sonha que, um dia, tudo voltará a ser como antes, e a vida fosse alegre e doce como nos tempos de antanho, quando a tarde tinha o odor suave do bolo de fubá da saudosa Tia Anastácia. Hoje, ela fica mostrando a língua para os tais sem-terra que invadiram o velho Sítio de Dona Benta. Dizem que, já que ninguém mais lê Monteiro Lobato, ele se tornou improdutivo. Agora querem varrer toda a fantasia para o lado, para então plantar trigo, feijão. Afinal, livro não enche barriga de ninguém. Contudo, Emília está dividida: seu lado tradicionalista e conservador quer chamar a Polícia Militar para enxotá-los de sua amada querência à bala se for preciso, mas o seu lado jacobino e anarquista quer aderir aos camponeses, e transformar o Sítio numa fazenda-modelo "auto-sustentada", no melhor estilo cubano. Coitada! A Marquesa de Rabicó, aturdida, já não sabe mais para onde ir. Apenas consegue se lembrar das antigas palavras da sua velha negra. Este mundo está perdido.
Nem tanto, nem tanto. Já ia me esquecendo do Visconde de Sabugosa. Quem quiser visitá-lo é só passar qualquer dia desses no chá das cinco da Academia Brasileira de Letras, entornando Capim Santo em sua pequena xícara e discutindo Paulo Coelho e Harry Potter com o Moacyr Scliar. Vocês precisam ver aquela espiga falante enfiada no fardãozinho azul! Um colosso!
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