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2 a 23 de abril de 2005

Equipe Edições Anteriores

LATIM EM PÓ #45

NO DONUT FOR YOU
Um pequeno inventário das coisas que eu aprendi no Orkut
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

rkut, para quem ainda não sabe, é um site de relacionamentos desenvolvido pelo site de buscas Google (www.orkut.com). Se é uma moda passageira ou se um dia as pessoas saberão utilizar de maneira correta esse tipo de ferramenta da internet, isso apenas o tempo dirá. Mas, para quem é marinheiro de primeira viagem, é possível descobrir algumas coisas interessantes sobre esta página da web.

A primeira delas, e a mais curiosa: o site foi criado por um turco um tanto simples de coração, chamado Orkut Buyukkokten, e cerca de 50,15% dos 800 mil usuários cadastrados são brasileiros. Ou seja, daí se depreende o que pode sair desta contingente situação. Além disso, como não poderia deixar de ser, a maioria dos internautas cadastrados (54,15%) têm entre 18 e 25 anos; os usuários entre 26 e 30 anos respondem por 19,26% do serviço. Para um site bolado por um turco nada modesto e abarrotado de brasileiros, em parte está explicado as freqüentes quedas do servidor. Aliás, o Orkut é tão brasileiro que tem muito brazuca infiltrado em comunidades em inglês (que não deve estar entendendo nada do que se discute na inculta e bela flor do Lácio). Eu até proponho que mudem o nome do site para algo mais brasileiro. Em vez do turco “Orkut”, mudem para “Almeida” ou “Raimundo”.

Descobri que tenho uma invencível preguiça em preencher dados. Levei cerca de duas semanas para completar um perfil satisfatório para ser lido Deus saber por quem. Mas descobri, depois de concluir uma “autopsicografia” um tanto tímida e lacônica, que a maioria das pessoas demonstra muito mais do seu caráter nas escolhas que faz pelas comunidades em que se filia àquilo que proclama sobre si mesmo. Como se sabe, toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto. Contudo, também descobri que a maioria dos usuários possui a tendência a se associar a um número maior de comunidades do que seria capaz de administrar. Isso explica porque o grupo relativo Jimi Hendrix tem cerca de 19 mil membros e cerca de uma atualização por semana. Ou nem isso — no geral, sempre aparece o mesmo tópico: “Hendrix ou Satriani”?

Descobri que, assim como outras ferramentas e situações da rede, o Orkut pode servir para que as pessoas façam coisas que pessoalmente não teriam coragem de fazer. O que é proclamar o óbvio.

Descobri que qualquer motivo serve para se fundar uma comunidade. O bar do seu Hermínio, aqui na esquina, por exemplo, já ganhou uma. E precisava?

Descobri que existem pessoas em que me rejubilei em reencontrar pelo Orkut. Outras, no entanto, não sei se faria questão de reencontrá-las e tenho medo de que a recíproca possa ser verdadeira.

Descobri que a excelente atriz tcheca Sylvia Saint (alguém conhece?) aceitou um amigo meu como amigo. Só não sei se se trata da verdadeira. O problema é que espocam pelo Orkut páginas de personalidades que não sabem nem o que é Google. Se a Sylvia do Orkut é fajuta ou é aquela que a gente conhece isso eu não sei — só sei que o meu amigo está com um sorriso de orelha a orelha com essa nova amizade!

Descobri que tem gente que desmente o profile (a descrição pessoal) na escolha das comunidades. Como aquela moça que escreveu “Eu sou sensível e caseira” no perfil, mas pertence à comunidade dos “Eu bebo e faço merda” ou “Eu bebo e falo merda”. De certa forma, fica implícita a comovente sinceridade da pessoa, não é mesmo?

Descobri que o esquema de panelinha virtual, tão largamente proclamada por especialistas em informática, cai por terra quando ingressamos no programa. Afinal de contas, qualquer cartilha que oriente as milhares de comunidades passa longe de qualquer regra de formalidade. Mas também descobri que todos nós regredimos aos risonhos serões de infância quando embarcamos nos adoráveis joguinhos pueris de tópicos das comunidades do site, como “dedique uma canção para a pessoa acima”, “qual é o seu preferido?”, “aumenta o volume, abaixa o volume”, e por aí vai. Depois que ninguém estranhe se alguma revista de informática publique alguma matéria sobre usuários da Internet que perdem quase dois terços da vida na frente do computador...

Descobri que as melhores comunidades são as mais fúteis, mas ao mesmo tempo, são as mais divertidas e elucidativas do espírito de cada um: “Eu odeio acordar cedo”, “Eu tenho medo da musiquinha do Plantão da Globo”, “Eu sou fã do Mussum” (inclusive, a do Mussum tem o joguinho do “Vai te fudesis!”), “Deve ser chato ser uma árvore”, “Eu tocava a campainha e corria”, “Eu tenho medo da Samara”, “Meu cabelo me odeia”, “Eu adoro homens engravatados”, “Eu xupo xoxota”, “Eu odeio bater a testa no ‘puta merda'”, “Sou gremista até na segundona”, “A culpa é da cerveja”, “Poltrona 36”, “Eu adoro a Hello Kitty”, “Eu amo o meu Schnauzer”, “Eu toco bateria imaginária”, “Eu adoro a mulher do Sanduíche-iche”, “Eu falo com a minha samambaia”, “Eu falo sozinho”, “Eu já fui atropelado”, “Eu amo a 25 de março”, “Eu amo catchup”, Eu amo o Mamute”, “Tá no Inferno? Abraça o Capeta!”, “O Patrick Estrela fuma maconha!”, “Minha avó fumava maconha”, “ O Gargamel fumava maconha”, entre outros...

Descobri que a Loira do Banheiro não é lenda urbana. Sim, ela existe, e tem um profile no site. O mais engraçado é que no link de fotos possui diversos cliques um tanto ousados da funérea moça, e todas as suas comunidades são de colégios de São Paulo (e para adicioná-la ao Orkut não é preciso dar três descargas na privada). E mais: descobri que sou amigo de uma amiga que é amigo do amigo do amigo da Loira do Banheiro!

Descobri que Saci Pererê também está no Orkut. Ele diz que bebe prá caramba, é fã do Senhor dos Anéis, e gosta de assistir ao Vale a Pena Ver de Novo . Contudo, procurei a Mboitatá, o Caapora, a Dona Carochinha e o santão do Cerro do Jarau, e não os encontrei. Que pena!

Descobri que estou ficando inexoravelmente velho. Uma maioria assustadora de velhos amigos e amigas que reencontrei está casando, mudando de emprego, viajando para o exterior, ou criando levas de filhos. Isso sem falar de velhos colegas de faculdade ou dos tempos da escola, e que, para ver como funciona a dialética dos relacionamentos reais (e o que explica, num formato virtual, a facilidade que as pessoas têm em adquirir novos amigos apenas por algumas afinidades mas, só para ver que a vida real deveria ter a vantagem de nos proporcionar uma escolha mais livre e descompromissada das relações e das formalidades), eu fui reencontrá-los em outra situação, trabalhando em outros lugares, com mais ou menos cabelo, convivendo com outras pessoas, outras paragens, outras línguas (ou com as mesmas de sempre!).

Mas o incrível do Orkut é descobrir mais sobre a vida de conhecidos de obas e olás e sobre a sua inescrutável vida particular e suas respectivas preferências pelo site. Quer dizer, na mecânica dos relacionamentos, fato irrefutável é que, com efeito, é possível conviver com alguém por anos sem saber o que ele(a) lê, que lugares freqüenta, se gosta ou odeia o Mamute, se tem medo da musiquinha do Plantão da Globo, se adora a mulher do Sanduíche-iche ou se ama catchup, se teve uma avó que fumava maconha, se bebe e fala merda, se adora tamborilar em qualquer coisa, ou se toca bateria imaginária. De repente, você tem um maluco ao seu lado e só descobre isso no Orkut. Que coisa.