Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

10 a 23 de julho de 2005

Equipe Edições Anteriores

LATIM EM PÓ #49

A PENA DA GALHOFA E A TINTA DA MELANCOLIA
A rivalidade Gre-Nal ainda existe no campo da literatura
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

secular rivalidade entre Grêmio e Inter deu um tempo no gramado, mas não arrefeceu de todo: ela ainda preexiste, pelo menos no livro Grêmio - Nada Pode Ser Maior (272 páginas, R$ 39,90), de Eduardo Bueno, lançado este mês pela Ediouro Publicações. Em 2004, o também escritor e jornalista, Luís Fernando Verissimo, havia lançado o seu, pelo mesmo projeto da editora (Camisa 13), intitulado Internacional - Autobiografia de uma Paixão (144 páginas, R$ 29,90).

Quem ainda não leu nenhum deles, tanto para quem é torcedor ou até mesmo para quem não sabe qual é a regra do impedimento, as duas obras são prá lá de recomendáveis. Autorais por natureza, e recheados de valiosas informações, tanto Verissimo quanto Peninha fornecem subsídios para explicar (pelo menos dentro do campo do possível) a gênese desse sanguinolento estado de conflagração em que vivem as torcidas vermelhas e azuis. E para quem sabe do despeito recíproco entre gremistas e colorados e a eterna rivalidade da dupla Gre-Nal, é impossível não traçar paralelos entre ambos.

No caso do Luís Fernando, talvez o mais autoral dos dois, trata-se de um ensaio onde o escritor põe muito de seu envolvimento afetivo com o Internacional, uma obra típica de um homem da índole e da idade do Verissimo. Uma crônica de saudades, mas também quase um necrológio. LFV faz uma narrativa quase proustiana: fala da confusão de nomes de sua avó e do lateral do Inter (Abigail) e do cheiro da grama dos Eucaliptos, e toda essa confusão de odores e de nomes é a sua recherche particular.

O ponto negativo é tão proustiano quanto: o livro é uma prova da passagem do tempo. Mais que odores e nomes, é nostalgia, e não paixão, o que brota de suas páginas. Eu particularmente fiquei com a sensação de que o Inter é algo que passou para o Verissimo, o resto é um imenso e silencioso anti-clímax. Ele mesmo usa essa expressão: anti-clímax. Brinca que, se o seu Inter seguisse amealhando mais e mais títulos, ele acabaria “viciando demais”. Pois o Inter dele começou em 1946, no auge do futebol-força do Rolo Compressor (Ivo, Alfeu, Nena, Ávila, Carlitos, Tesourinha...) e terminou em 1979, nos festejos do tri brasileiro invicto. Um frio observador objetaria que o colorado não foi além disso depois daquele ano. Talvez a falta de ambição do clube (que não ganha títulos de expressão desde 1992, o que até explica em parte a brevidade do ensaio) tenha afetado a paixão da sua autobiografia.

Já o Eduardo Bueno, que é um compilador de histórias nato, resolveu contra-atacar: quis fazer do livro uma cruzada um tanto sintomática, ainda mais pelo fato de que o clube dele está amargando uma doce e cálida incursão pela série B e, devido aos frouxos de riso de (quase) toda a crônica esportiva a respeito das peripécias do Grêmio nos últimos tempos, ele resolveu dar vazão ao seu estilo historiador gonzo e fazer um amálgama de grande reportagem entronizada à altura de mito. O que o intuitivo Peninha fez foi pegar todo o sentimento que os torcedores nutrem a respeito do Grêmio "copeiro", "cosmopolita", "peregrino", "viril", de "alma castelhana", enfim, todos os mitos fundadores do futebol gaúcho, e fundi-los naquela tese furada, de goró de arquibancada, misturando alhos com bugalhos, usando naturalmente outros mitos, como o do cavalo no obelisco, o seu background como compilador de História do Brasil e uma rápida pesquisa em livros (e sites) sobre o assunto.

Também desenvolve mais o texto dentro da esfera do epopéico ao descrever do Grêmio os seus ídolos particulares, como o mítico Eurico Lara, que é naturalmente guindado à estatura de um ser quase incorpóreo, um hercúleo e inexpugnável guarda-redes, com um perfil aterrador de Boris Karloff. Mas mais inexpugnável ainda é a defesa incondicional do mito do clube de índole castelhana (embora o próprio autor prefira relacioná-la à uma pretensa e anacrônica raiz “cisplatina”). O que vale é o mito – mesmo que o modelo de futebol-força e aplicação física tenha sido obra de um único e escasso homem: Oswaldo Rolla, que importou o futebol do Honved de Puskas e Kocsis para Porto Alegre, para formar um time capaz de conquistar uma década de vitórias.

Mas se o Verissimo pôde fazer do seu livro uma espécie de acerto de contas com o Internacional de suas memórias e saudades, o sintomático Eduardo Bueno resolveu fazer do seu volume uma blague, uma arrogante jihad contra tudo e contra todos. É a pena da galhofa do Peninha contra a tinta da melancolia do Verissimo. Nesse aspecto, ele foi mais autoral que o seu amigo tricolor. Tanto que muito da história do Inter cruza com a biografia do Luís Fernando, da avó que não jogava na lateral ao apelido de "mandarins" à patota do Aldo Dias Rosa, que tudo sabia, mas nada mandava, e ao antológico jantar com o Figueroa, regado à vinho tinto e à Pablo Neruda.

Sintomático porque o Peninha quis delimitar com perfeição a virtú gremista. Nada mais sintomático do que a primeira frase do livro: futebol-arte é coisa de "veado". Parece que é preciso se posicionar sexualmente. Nesse caso, Mário Sérgio foi definido como "ex-bailarino". Futebol é feio, feíssimo, de muita retranca e bola quebrada numa partida ganha de um a zero embaixo da chuva (e nesse caso nunca o futebol gaúcho foi tão macho quanto nos últimos tempos).

O Grêmio centauro, charrua, gaudério, etc, etc. O mito do Grêmio maragato, anti-imperial, farroupilha. Um Grêmio de literatura de cordel. O Grêmio é diferente porque é diferente, é Grêmio porque é o Grêmio, está na Série B porque é o Grêmio e a história não acabou porque só vai acabar com o Grêmio no topo do mundo outra vez. Como se vê, é uma tese irrepreensível. O Eduardo Bueno, como marqueteiro e pseudo-cientista que é (e leitor do Profeta do Acontecido), fez justamente o jogo do leitor, entrou no pensamento da torcida, escreveu ali exatamente o que todos os gremistas pensam (e, de certa forma, o que o olhar estrangeiro também corrobora). Se o Verissmo foi o cronista do Inter, Peninha foi o evangelista do Grêmio.

Pelo menos, a despeito da rivalidade clubística de ambos, em matéria de bola na trave, Peninha e Verissimo se equipararam. Este declarou a morte do glorioso Cruzeirinho de Porto Alegre. Não, Luís Fernando, o Cruzeiro existe, e estava disputando a Segundona Gaúcha. Ele também não tinha certeza se o Inter teria recebido a vaga para o Brasileiro de 1979 do Juventude ou do Esportivo. Foi do Esportivo. Outra: diferente do que está em Autobiografia de uma Paixão , Júlio Perez não jogou no Colorado em 1957, mas sim em 1959, em comemoração ao cinqüentenário do clube alvi-rubro.

Já o Peninha, além de toda a barra que ele forçou no livro (Bob Dylan gremista, huahua! Por favor.), ele conseguiu inventar que Elis Regina, supostamente namorada do meio-campista do Grêmio Gessi Lima, havia defendido "uma canção de Edu Lobo" em 1968, no mesmo ano do hepta tricolor. Prá começar, ela defendeu “Arrastão”, sim, mas foi no Festival de 1965. E quando o Grêmio foi campeão em 1968, Gessi não estava mais no Olímpico. A história entre ele e Elis (compilada de A História dos Gre-Nais) ocorreu muito, muito antes, nos áureos tempos da “pimentinha” no Clube do Guri. Peninha explica a forçada de barra: segundo ele, é a "história do meu Grêmio, do que ele significa para mim".

Pelo menos, o Peninha ganhou o Gre-Nal (ou Gre-Pal, já que o obtuso historiador trocou o Internacional por Municipal, talvez por despeito do fato que o seu respectivo time tem o Porto Alegre no nome...) dos livros num aspecto. Parece que ele conseguiu aprender alguma coisa sobre futebol. Ou não: como disse alguém, o torcedor mesmo não torce para o time, torce pelo clube. Logo, a história de dedicar o livro aos "volantes de contenção" é pura gozação. Está mais para um interessante anedotário do que para um livro de história (para tanto, é recomendável ler Meu Coração é Azul , de Ruy Carlos Ostermann)

Mesmo que Eduardo Bueno não consiga distinguir um ponta-esquerda de um centromédio, é preciso reconhecer que o livro dele é brilhante. E em matéria de corneta e avacalhação com os colorados, irretocável. Vale cada um dos trinta contos. E para quem é fã de Luís Fernando Verissimo, mesmo aquele que detesta futebol, também vale a pena ler Autobiografia de uma Paixão . Até porque faz tempo que ele não escreve um livro tão original. Bom é saber que, pelo menos no quesito literatura, Grêmio e Inter ainda rivalizam – já que, hoje, esse glorioso futebol que projetou a dupla dos arrabaldes de Porto Alegre para o Brasil e o mundo exista apenas na memória dos torcedores...