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24 de julho a 6 de agosto de 2005

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LATIM EM PÓ #50

À SOMBRA DOS VIRA-LATAS EM FLOR
Nunca houve um futebol tão sem Deus quanto o carioca
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

omo disse o profeta, não há nada mais falso do que a entrevista verdadeira. A cada vez que ouço e vejo, percebo que todas são de uma imodéstia e de uma circunspecção inequívocas. Mais do que isso, todos parecem discorrer — ainda que de forma involuntária —, o mesmo percurso do “Poema em Linha Reta” do poeta Fernando Pessoa, onde todos foram e sempre serão príncipes na vida. Depois de ler o ouvir tanto cabotinismo, decidi que ninguém deveria ser entrevistado. Todos, à sua maneira, sempre dissimulam a verdade e escondem os recônditos de suas densas verdades. Foi assim que o profeta inventou a “entrevista imaginária”. Segundo ele, essa é a única forma de arrancar do entrevistado as confidências que ele jamais exporia ao seu padre, ao seu médium, ao seu analista, por exemplo.

Essa idéia me ocorreu quando resolvi entrevistar algum especialista em esporte bretão aqui em Pindorama para que ele me explicasse a razão e os motivos do fracasso do futebol carioca, que outrora já foi um celeiro de craques e forjou atletas como Didi, Leônidas, Zico, Roberto Dinamite, Zagalo, Nílton Santos, Mestre Ziza, Zico (a lista é interminável). Essa era a minha pauta. Depois de escutar um ou outro idiota da objetividade, ou tentar embalde arrancar alguma confidência de algum cartola, conclui que o melhor seria recorrer à tal entrevista imaginária. O golpe era a falsa confissão. Para tanto, eu precisava arranjar primeiro uma paisagem: não pode ser um reles gabinete. Logo, como o profeta sugeriu, o melhor seria um terreno baldio. No máximo, eu e o entrevistado. Ao fundo, uma cabra vadia a pastar. Só faltava o horário. Claro, à meia-noite, a hora que apavora. Até porque, como disse alguém, nada do que se diz sob à luz dos archotes e à meia-noite é intranscendente. Esta é a hora de morrer, de matar ou de revelar o inefável.

Pois como a entrevista seria imaginária, não seria problema em arranjar um entrevistado qualquer. E já que o assunto era futebol carioca, pensei em entrevistar ninguém menos que Nelson Rodrigues, o profeta do óbvio ululante. De todos os vivos ou mortos, ele era o imprescindível nesse momento extremo em que vive o esporte bretão na Cidade Maravilhosa. Eis que, ainda ontem ocorreu a tal entrevista imaginária com o dramaturgo, jornalista e defunto autor. Hora aprazada, à meia-noite, lá vinha o Nelson, de terno azul marinho, sem gravata, caminhando como que se não quisesse ser reconhecido. Abanava-se com a Manchete Esportiva. Ao longe, a cabra pastava a paisagem imaginária. Sob a tíbia luz de um archote, iniciei o papo: “Vai um cigarro? Fuma?”. Ele respondeu, como olho rútilo e o lábio trêmulo: “Estou tentando parar! Estou tentando parar!”.

Então lasquei a primeira pergunta:

— Nelson, como é o Céu?

— Ué? Mas quem disse que eu estou no Céu? — riu.

— Hehe. Bom, começando... Meu caro Nelson, o que você está achando do futebol hoje?

— Meu caro Marcelo, o golpe é o seguinte: antes, o futebol antigo era um fenômeno vital muito mais rico, complexo e intrincado. Hoje, os jogadores, bandeirinhas e juízes se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos em ninguém uma dessemelhança forte, crespa e taxativa.

— Mas e o torcedor?

— Antes, morria-se de fome no futebol. — vociferava, com sua típica voz cavernosa. — Hoje, o torcedor é que gane de inanição, ao ver o futebol famélico que os escretes jogam. No meu tempo, a assistência comparecia ao Mário Filho na esperança de saborear como um Chica-Bon o supremo triunfo do seu respectivo clube. Agora é diferente: o torcedor aqui compra o seu ingresso como quem adquire o direito, o inalienável direito de sofrer. Eis a verdade: o torcedor carioca não vai a campo ver futebol; ele quer desgranhar-se, esganiçar-se, rugir e bramir contra o seu clube.

— O que você está achando do Vasco da Gama?

Neslon se exasperou. Disse:

— O Vasco quer ver a própria caveira no espelho — sentenciou, muito sério. — É notável que, depois de tantos e tantos anos de glória, um clube seja capaz de tão infrene decadência. Pelo menos, ano passado, ainda havia um Petkovic, que lutava de fio a pavio, incansável até a última gota de suor. Corria em campo como um coelhinho de desenho animado e, além disso, carregava o escrete inteiro às costas como um Gigante Adamastor. Agora, quem for à São Januário uniformizado da camisa às chuteiras corre o risco de ser incorporado ao elenco.

— Mas e o Alex Dias? — quis saber.

— É a maior contratação de peso depois do Alex Alves.

— Como assim?

— Ano passado, foi só contratação de peso. O Alex Alves, por exemplo, ficou inclusive mais pesado depois do regime que o Eurico Miranda mandou ele fazer.

— Mas e o Vasco desse ano?

— Esse Vasco é o Alex Dias e mais dez camisetas. Ele é o único amigo da bola em São Januário — exclamou. — Eles têm é que dar uma estátua de bronze a ele por fazer atuações belas, ao vê-lo no comando daquele quixotesco time. Se ele estivesse em um time bom, com bons armadores, eu duvido que ele não estaria figurando como o artilheiro do Brasileiro. Ela parece um jogador comum num time medíocre, imagine se jogasse num Expresso da Vitória. Mas qualquer virtude cai diante de tanta ruindade. O Vasco treina apenas para aprimorar a própria ruindade.

— E o Fluzão? Como pôde perder do Paulista daquela maneira? O que você acha?

— O Abel é um vice-campeão vocacionado. É um homem mais vocacionado do que um Santo Tomás de Aquino. Parece que depois do Waterloo do Flamengo diante do famélico Santo André, só os profetas enxergavam o óbvio ululante: ninguém possui mais vocação para ser vice do que o Abel. Ele é um vice de esporas e penacho. Estava escrito há seis mil anos nos oráculos de Tebas que o Fluminense tão sem Deus iria entregar novamente os louros da glória aos paulistas. Aquele Fluminense foi pior do que o Bela Vista!

— E você? O que pensou??

— Diante de tamanho e invulgar vexame, a vontade que deu foi de sentar no meio fio e chorar lágrimas de esguicho. Ai de nós, ai de nós! Diante do Paulista, nós caímos em inibições convulsivas. O técnico do time de Jundiaí botou o escrete para suar como se fossem os barqueiros do Volga. E não houve leiteria que salvasse o tricolor. Fomos atropelados pela carrocinha de Chica-bon do Paulista. E convenhamos: isso é pior que cair de um terceiro andar. O leite já não mais jorrava das tetas da sorte.

— E o que você acha do Romário, Nelson?

Ele pensou um pouco. Pigarreou, alçou a fronte, e disse:

— O Romário é o Sílvio Caldas do futebol. Só alguém como ele seria capaz de se amotinar contra o técnico e, com um salário de um Walter Moreira Salles, vai tirar feriado no litoral carioca. Se amotinou contra o técnico, mas quem há de perdoar o que se amotina contra o clube? E ainda há quem seja cego para a evidência estarrecedora: quero crer que, do alto de sua idade provecta, hoje a sua maior virtude é justamente uma lambida imodéstia absoluta. Nem Salomão, em toda a sua inenarrável sabedoria, seria capaz de colocar o Dário de gandula de treino. Deu no que Deu.

— O que você está achando do Mengão no Brasileiro?

— São onze camisetas errantes.

— Como???

— Onze camisetas, e só. Só restaram as camisetas a serem desfraldadas ao vento, como estandartes de Quarta-feira de Cinzas — desdenhou. — Eis a verdade inapelável: é só olhar o Flamengo, um escrete de pintos-calçudos. Pois eis o que eu queria dizer: a despeito de todas as convenções disciplinares do profissionalismo, o futebol vive mesmo é da bravura pessoal dos craques. Os inexperientes, pusilânimes, covardes se entregam muito menos, dão menos no couro; ao primeiro rugir do adversário, ganem de humildade.

— Mas o Mengão acabou ganhando do Vasco.

Ele crispou sua mão voraz no meu braço. E sussurrou, com sua voz cavernosa:

— O Flamengo é tão ruim que só ganha do Vasco. E o Vasco é tão ruim que perde até do Flamengo.

— Bom, mas, e o Fogão??

— O Botafogo é, com efeito, o clube mais passional, mais calabrês, mais siciliano de todo o futebol brasileiro. Um torcedor pode vibrar em surdina. Mas o botafoguense é de uma extroversão ululante.

— Parece que este ano ia, mas não tem grupo suficiente — timidamente emendei.

— O Botafogo espera pelo meia como os hebreus esperaram seis mil anos por um Moisés de Cecil B. de Mile. Sem grupo, não atravessa o Rubicão nem de caravela. A sua torcida é formada de lázaros da pátria. Quantas vezes já ressucitaram para morrer? Pior: o Botafogo já teve o seu galardão, quando foi investido inexoravalmente pelo estigma de ser rebaixado.

— Mas e o César Prates?

— Ele é o Sérgio Manoel do Bota. Faz os seus golzinhos de falta mas engana muita gente....

— Mas, e então, o que resta? Fazer o necrológio do futebol do Rio?

— São dezenas, centenas, milhões de sujeitos no São Januário, na Gávea, em General Severiano, em Laranjeiras e pelo Rio afora, pagando pela burrice alheia. Não apareceu ninguém para amarrar alguma comissão técnica num pé de mesa, dizendo-lhe: “bebe água numa cuia de queijo Palmira”. Nunca ninguém irá conseguir chegar a parte alguma sem imaginação, sem arte, sem originalidade. O cronista esportivo que viveu os tempos áureos do Mário Filho com dois pés agora assiste andando de quatro, como um cachorro vadio a uivar para a Lua. O urubu do Flamengo agora é o urubu de Poe, dizendo que o futebol carioca não se levantará nunca mais, nunca mais, nunca mais. E, subitamente, eu compreendi o seguinte: não existe um deus geral, existe um Deus de cada um. E o Deus do nosso futebol é o inexorável Deus das derrotas. Pior. Com uma obtusidade de ateus, nunca houve um futebol tão sem Deus quanto o carioca.

De repente, um trovão se ouviu. Fez-se um mau tempo de quinto ato de Rigolletto, e um forte vento desfolhou os arvoredos, e levou junto toda a paisagem. A coruja parou de piar (nas minhas crônicas, as corujas piam!). A cabra vadia que pastava foi levada pela ventania, e junto com os funestos e aziagos zéfiros se foram tudo, a pastagem, os arbustos, enfim, tudo desapareceu com o vento, até o meu entrevistado sumiu e uma forte tempestade desabou. Mas, ao fundo, enquanto eu tentava correr sem direção para me salvar daquele dilúvio, ainda pude escutar uma voz fantasmagórica e terrível que bradava e repetia com escárnio, metálico como um patético trovão de orquestra: “O Romário é o Sílvio Caldas do Futebol”.