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EM PÓ #51
HONNI SOIT QUI MAL Y PENSE
Para quê contratar jogador maior de idade se é possível adquirir o passe ainda bebê?
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br, para LFV
ntão a mulher deu a luz a um garoto. Era um menino robusto, rechonchudo e com uma cabeleira indomável, apesar da pouca idade. Puxou ao avô, pensou o pai, enquanto olhava o seu rebento, que ria um sorriso alegre e inocente de gengivas devolutas e rosadas, confortável no colo de sua mãe. Tudo corria perfeitamente bem, até que, cerca de uma semana depois, chegou um telegrama direto de Moscou, para os pais. O nome do remetente era alguma coisa impronunciável, algo como Ivan Ilitch, Slovevitch, Stochkovich, Abramovich, algo assim. O pai em vão tentava pronunciar. A mãe pensava: ué, vovô era descendente de poloneses de Varsóvia, será que é algum parente distante?
O pai leu as poucas frases da mensagem redigidas em inglês com certa dificuldade, porém salvo pelo seu curso inacabado do Yázigi, ainda no primeiro grau. O telegrama agradecia pelo nascimento da criança e comunicava que, em breve, um emissário iria falar com eles, com o objetivo de levar o bebê. Levar o bebê? Os papais se entreolharam: como assim? No dia seguinte, outra correspondência traz um recibo de depósito: 1 milhão de euros de sinal, pelo negócio.
Porra, mas que negócio? quis saber a mulher, interrogando o pai. O que você andou aprontando, seu patife?
Não sei de nada, não sei de nada! respondeu ele, assustado tanto com a história do emissário russo quanto com o valor estratosférico do cheque.
Três dias depois, aparece o tal emissário russo, com uma barbicha estilo Lênin (aliás, a cara dele era muito parecida com a do Lênin), e baixinho, carregando uma pesada valise.
Bom dia, eu vim buscar a criança de vocês. anunciou o russo.
Mas que história é essa? Espantou-se o pai.
Bom, pela cara de vocês, eu preciso dar uma explicação. adiantou-se o emissário.
Pigarreou, alçou a fronte, e disse:
É o seguinte: eu sou empresário do ramo do futebol. Acontece que nós estamos revolucionando o negócio de contratação de craques para o futebol europeu. Ao invés de ficar gastando rios de dinheiro em apostas ou em jogadores extremamente caros, devido à atravessadores de clubes de futebol e rábulas de porta de vestiário, nós estamos entrando na dinâmica da globalização do capitalismo futebolístico. Então, estamos apenas antecipando a tendência do futuro: os grandes clubes de futebol não vão comprar o passe de jogadores de dezessete, dezoito anos, e enviá-los para a Europa mal condicionados, mal treinados, mal alimentados, ignorantes embora supervalorizados e sem o domínio de uma língua de primeiro mundo. Então, nós estamos fazendo uma avaliação de crianças que possam vir a ser futuros boleiros profissionais e estamos levando todos, ainda em tenra idade, para o futebol europeu. Além do mais, para quê contratar jogador maior de idade e inflacionado se é possível adquirir o passe agora?
Os pais da criança estavam boquiabertos.
Mas como?
Ora, nós temos uma rede de influências, uma rede de informações, já podemos prever a qualidade e a funcionalidade dos futuros atletas através do genoma, do biotipo, da genealogia dos pais. Então, nós averiguamos o passado de vocês e concluímos, através de uma pré-análise matemático-metafísico-biológica baseada em documentos clínicos que o seu filho tem um Q. I. altíssimo, físico de atleta e capacidade de liderança, ou seja, é mais que um craque, é um líder!!!
Mas...como? a mãe tremia sob as chinelas.
Nós temos as nossas fontes, madame. Nós temos as nossas fontes! Mas não se preocupe. No futuro, vai ser assim. Não se assuste. Isso é o futuro. Quem ficar preso a axiomas e a tradicionalismos provincianos, vai certamente ficar na contramão da História...
O que o meu filhinho vai fazer na Rússia, naquele frio??
O emissário, em tom suave e ligeiramente didático, explicava:
Minha senhora, imagino que você esteja pensando no futuro do seu filho. Você quer que ele jogue todo o seu potencial fora, emburrecendo no sistema educacional do seu país, gastando malas de dinheiro em supletivo, cursinho, faculdade para, depois de cinco anos, ficar outros cinco anos desempregado e engordando em casa, e tendo que, depois de velho, ter que fazer cursinho para passar em concurso público? É isso o que a senhora quer? Ou quer que ele, dentro da sua potencialidade como jogador, abra mão de um verdadeiro futuro de ouro no esporte bretão e de um status de celebridade para ficar se carneando entre si em jogos nos cafundós do Brasil, e se tornar um boleiro desconhecido de clube de terceira divisão, jogando de seis em seis meses? Hein? Hein?
Bom...pensando assim, acho que...não.
Viu? Isso mostra que a senhora é uma mulher sábia sorriu o emissário enquanto, sorridente, abria a sua misteriosa valise.
Sim, mas o que a gente ganha com isso? atravessou-se o pai. Quanto vale o meu jogador?
Alberto! irritou-se a mamãe. Isso é forma de chamar o nosso filho?
A senhora não se preocupe, vai ser bom para todos, principalmente para o garoto, e o processo de mudança será simples, indolor, e de muita valia no futuro. A senhora não perderá o contato como seu rebento. E o senhor também não se preocupe, nós vamos hoje mesmo depositar seis milhões de euros por 100% dos direitos federativos do seu jogador, que receberia outros dois milhões de numa negociação remota se recebesse. O menino vai se criar cheio de saúde, vai se tornar um grande atleta e vocês vão lucrar rios de dinheiro, e terão passaporte comunitário para poder viver na Europa, no futuro. No fim, todos saem ganhando: vocês ficam ricos, e o menino não vai ter que ficar perdendo tempo jogando no Brasil e, virando-se para o papai, perguntou: .Qual é o time pelo qual o senhor torce?
Quem, eu? Sou gremista.
Então, assim o senhor poupa o seu garoto de ficar perdendo tempo e dinheiro e sendo desvalorizado em campeonatos intermináveis de clubes miseráveis e maus pagadores, e que não vão ser campeões de coisa alguma.
Mais aliviados, os papais preparam a mala de viagem como todas as roupinhas do bebê. A mãe reluta em entregar o menininho na hora de ir embora. Chora muito. Porém, dias depois, já está reconfortada. E o tempo passou. Passou e, um ano depois, o casal têm mais um filho. Um menino. Era outro menino robusto, rechonchudo e com uma cabeleira indomável, apesar da pouca idade. Duas semanas depois, toca o telefone. A mãe atende. Fica pálida. Depois, fica azul, cinza, amarela, cor-de-rosa, furta-cor. Larga o fone no ar, corre até o berço, e se tranca no banheiro, com estrépito. O pai, irresoluto, cata o fone pendido mesa abaixo e vai atender a chamada. Ouve atentamente o sujeito do outro lado. Depois, vai então vai falar com a mulher:
Abre, querida.
Não abro.
Abre, querida.
Não abro!
Abre, querida.
Não abro!
Abre, querida.
Não abro!
Abre, querida.
Não abro! Não abro! Não abro! Não abro! Não abrooooooooooooo!!
Abre, amorzinha, eles disseram que está tudo bem, que está tudo em ordem, mas eles só levam depois! E eles também disseram que o menino tem genoma de centroavante de área rompedor. Vai ser um número 9 nato!
Eles quem, dessa vez? perguntou a mulher, chorosa.
Ah, parece que é um grupo de empresários portugueses.
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