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24 de setembro a 8 de outubro de 2005

Equipe Ediηυes Anteriores

LATIM EM PÓ #51

HONNI SOIT QUI MAL Y PENSE
Para quê contratar jogador maior de idade se é possível adquirir o passe ainda bebê?
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br, para LFV

ntão a mulher deu a luz a um garoto. Era um menino robusto, rechonchudo e com uma cabeleira indomável, apesar da pouca idade. Puxou ao avô, pensou o pai, enquanto olhava o seu rebento, que ria um sorriso alegre e inocente de gengivas devolutas e rosadas, confortável no colo de sua mãe. Tudo corria perfeitamente bem, até que, cerca de uma semana depois, chegou um telegrama direto de Moscou, para os pais. O nome do remetente era alguma coisa impronunciável, algo como Ivan Ilitch, Slovevitch, Stochkovich, Abramovich, algo assim. O pai em vão tentava pronunciar. A mãe pensava: ué, vovô era descendente de poloneses de Varsóvia, será que é algum parente distante?

O pai leu as poucas frases da mensagem — redigidas em inglês — com certa dificuldade, porém salvo pelo seu curso inacabado do Yázigi, ainda no primeiro grau. O telegrama agradecia pelo nascimento da criança e comunicava que, em breve, um emissário iria falar com eles, com o objetivo de levar o bebê. Levar o bebê? Os papais se entreolharam: como assim? No dia seguinte, outra correspondência traz um recibo de depósito: 1 milhão de euros de “sinal”, pelo negócio.

— Porra, mas que negócio? — quis saber a mulher, interrogando o pai. — O que você andou aprontando, seu patife?

— Não sei de nada, não sei de nada! — respondeu ele, assustado tanto com a história do emissário russo quanto com o valor estratosférico do cheque.

Três dias depois, aparece o tal emissário russo, com uma barbicha estilo Lênin (aliás, a cara dele era muito parecida com a do Lênin), e baixinho, carregando uma pesada valise.

— Bom dia, eu vim buscar a criança de vocês. — anunciou o russo.

— Mas que história é essa? — Espantou-se o pai.

— Bom, pela cara de vocês, eu preciso dar uma explicação. — adiantou-se o emissário.

Pigarreou, alçou a fronte, e disse:

— É o seguinte: eu sou empresário do ramo do futebol. Acontece que nós estamos revolucionando o negócio de contratação de craques para o futebol europeu. Ao invés de ficar gastando rios de dinheiro em apostas ou em jogadores extremamente caros, devido à atravessadores de clubes de futebol e rábulas de porta de vestiário, nós estamos entrando na dinâmica da globalização do capitalismo futebolístico. Então, estamos apenas antecipando a tendência do futuro: os grandes clubes de futebol não vão comprar o passe de jogadores de dezessete, dezoito anos, e enviá-los para a Europa mal condicionados, mal treinados, mal alimentados, ignorantes embora supervalorizados e sem o domínio de uma língua de primeiro mundo. Então, nós estamos fazendo uma avaliação de crianças que possam vir a ser futuros boleiros profissionais e estamos levando todos, ainda em tenra idade, para o futebol europeu. Além do mais, para quê contratar jogador maior de idade e inflacionado se é possível adquirir o passe agora?

Os pais da criança estavam boquiabertos.

— Mas como?

— Ora, nós temos uma rede de influências, uma rede de informações, já podemos prever a qualidade e a funcionalidade dos futuros atletas através do genoma, do biotipo, da genealogia dos pais. Então, nós averiguamos o passado de vocês e concluímos, através de uma pré-análise matemático-metafísico-biológica baseada em documentos clínicos que o seu filho tem um Q. I. altíssimo, físico de atleta e capacidade de liderança, ou seja, é mais que um craque, é um líder!!!

— Mas...como? — a mãe tremia sob as chinelas.

— Nós temos as nossas fontes, madame. Nós temos as nossas fontes! Mas não se preocupe. No futuro, vai ser assim. Não se assuste. Isso é o futuro. Quem ficar preso a axiomas e a tradicionalismos provincianos, vai certamente ficar na contramão da História...

— O que o meu filhinho vai fazer na Rússia, naquele frio??

— O emissário, em tom suave e ligeiramente didático, explicava:

— Minha senhora, imagino que você esteja pensando no futuro do seu filho. Você quer que ele jogue todo o seu potencial fora, emburrecendo no sistema educacional do seu país, gastando malas de dinheiro em supletivo, cursinho, faculdade para, depois de cinco anos, ficar outros cinco anos desempregado e engordando em casa, e tendo que, depois de velho, ter que fazer cursinho para passar em concurso público? É isso o que a senhora quer? Ou quer que ele, dentro da sua potencialidade como jogador, abra mão de um verdadeiro futuro de ouro no esporte bretão e de um status de celebridade para ficar se carneando entre si em jogos nos cafundós do Brasil, e se tornar um boleiro desconhecido de clube de terceira divisão, jogando de seis em seis meses? Hein? Hein?

— Bom...pensando assim, acho que...não.

— Viu? Isso mostra que a senhora é uma mulher sábia — sorriu o emissário enquanto, sorridente, abria a sua misteriosa valise.

— Sim, mas o que a gente ganha com isso? — atravessou-se o pai. — Quanto vale o meu jogador?

— Alberto! — irritou-se a mamãe. — Isso é forma de chamar o nosso filho?

— A senhora não se preocupe, vai ser bom para todos, principalmente para o garoto, e o processo de mudança será simples, indolor, e de muita valia no futuro. A senhora não perderá o contato como seu rebento. E o senhor também não se preocupe, nós vamos hoje mesmo depositar seis milhões de euros por 100% dos direitos federativos do seu jogador, que receberia outros dois milhões de numa negociação remota — se recebesse. O menino vai se criar cheio de saúde, vai se tornar um grande atleta e vocês vão lucrar rios de dinheiro, e terão passaporte comunitário para poder viver na Europa, no futuro. No fim, todos saem ganhando: vocês ficam ricos, e o menino não vai ter que ficar perdendo tempo jogando no Brasil — e, virando-se para o papai, perguntou: —.Qual é o time pelo qual o senhor torce?

— Quem, eu? Sou gremista.

— Então, assim o senhor poupa o seu garoto de ficar perdendo tempo e dinheiro e sendo desvalorizado em campeonatos intermináveis de clubes miseráveis e maus pagadores, e que não vão ser campeões de coisa alguma.

Mais aliviados, os papais preparam a mala de viagem como todas as roupinhas do bebê. A mãe reluta em entregar o menininho na hora de ir embora. Chora muito. Porém, dias depois, já está reconfortada. E o tempo passou. Passou e, um ano depois, o casal têm mais um filho. Um menino. Era outro menino robusto, rechonchudo e com uma cabeleira indomável, apesar da pouca idade. Duas semanas depois, toca o telefone. A mãe atende. Fica pálida. Depois, fica azul, cinza, amarela, cor-de-rosa, furta-cor. Larga o fone no ar, corre até o berço, e se tranca no banheiro, com estrépito. O pai, irresoluto, cata o fone pendido mesa abaixo e vai atender a chamada. Ouve atentamente o sujeito do outro lado. Depois, vai então vai falar com a mulher:

— Abre, querida.

— Não abro.

— Abre, querida.

— Não abro!

— Abre, querida.

— Não abro!

— Abre, querida.

— Não abro!

— Abre, querida.

— Não abro! Não abro! Não abro! Não abro! Não abrooooooooooooo!!

— Abre, amorzinha, eles disseram que está tudo bem, que está tudo em ordem, mas eles só levam depois! E eles também disseram que o menino tem genoma de centroavante de área rompedor. Vai ser um número 9 nato!

— Eles quem, dessa vez? — perguntou a mulher, chorosa.

— Ah, parece que é um grupo de empresários portugueses.