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30 de outubro a 12 de novembro de 2005

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LATIM EM PÓ #52

DRAGÕES DE ESPORA E PENACHO
O tempo ainda fará justiça aos verdadeiros heróis da Copa de 1950
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ste ano marca a passagem dos cinqüenta e cinco anos daquilo que os uruguaios jocosamente apelidaram de "Maracanazo". Em 16 de julho de 1950, 173.850 pagantes assistiram à maior tragédia do futebol brasileiro de todos os tempos. Na final da Copa do Mundo, no Maracanã, no Rio de Janeiro, o Uruguai venceu o Brasil por 2 a 1, de virada, e o Brasil não pôde comemorar aquele que seria o seu primeiro título mundial. Contudo, a verdade é que o Brasil comemorou a sua primeira estrela - o problema é que a celebração aconteceu antes.

A seleção jogava apenas pelo empate, já que a fase final era disputada num quadrangular, e o campeão seria aquele que fizesse mais pontos. Além do mais, o escrete era certamente o melhor de todos até então, sendo que a base era nada mais nada menos que o "Expresso da Vitória" do Vasco da Gama (Barbosa, Chico, Augusto, Danilo, Maneca, Ademir Menezes), acrescido de grandes jogadores como Bauer (São Paulo), Bigode (Flamengo), Zizinho (Bangu), Jair (Palmeiras), e muitos outros. Além da certeza da vitória por parte de todos os brasileiros, a concentração do Brasil, no estádio de São Januário, já havia se transformado, pouco tempo antes do jogo, numa verdadeira casa de Irene .

"Estávamos almoçando quando chegou um candidato a presidente da República [Cristiano Machado, do PSD, depois Ademar de Barros, pelo PSP]. Nós nos levantamos da mesa, na hora do almoço, para ouvir discursos e promessas mil", revelou Augusto, no livro Dossiê 50 , de Geneton Neto. "Se vencêssemos, seríamos deputados, senadores".

- Desde três dias antes do jogo, houve muita perturbação: a euforia era tremenda. Era visitante, político promessas, autógrafos - disse Augusto - uma tremenda barafunda.

Zizinho também se recordava daqueles momentos que antecederam a decisão: "cansei de dar autógrafos antes da decisão", explicou. "A verdade é que não houve concentração antes do jogo. Depois, o general Mendes de Morais, prefeito da cidade, jogou essa em cima da gente: "dei o estádio [o Maracanã] à vocês. Agora quero de vocês o campeonato". Se a torcida celebrava o título antes do jogo, jornais foram impressos saudando o time campeão antes do tempo.

No gramado, Friaça abria o placar logo no primeiro minuto do segundo tempo. O Maracanã explode. Se o Brasil precisava de um empate, então o jogo estava definido: a seleção era a campeã. Mas como disse alguém, se o Brasil era um time, o Uruguai era um país. Schiafinno empataria logo depois. Aos 35 minutos, o veloz e oportunista Ghiggia, pela ponta direita, antecipando uma jogada combinada com Julio Perez, enganou Barbosa e fulminou as redes brasileiros: 2 a 1. Naquele momento, todos emudeceram. Quando os jogadores mais precisavam da torcida, ela emudeceu.

Os heróis uruguaios - Máspoli, Mathias Gonzales, Tejera, Gambetta, Varela, Andrade, Ghiggia, Julio Pérez, Miguez, Schiaffino e Morán, mal puderam comemorar, até o total clima de comoção que invadira o Maracanã e o tomara de assalto. Já do panteão dos heróis, os atletas brasileiros foram guindados à posição de réus. O trauma foi grande para os brasileiros, mas foi pior para o time. Todos carregaram as mínimas lembranças daquele tarde para sempre: "várias vezes eu sonhei com aquele jogo", relembrava Augusto. "O placar era sempre diferente, no sonho. A gente ganhava, eu levantava a taça, quantas vezes eu sonhei isso...". Zizinho foi outro que não conseguiu dormir por dias a fio: "eu tinha pesadelos pensado que o jogo não tinha começado. O sonho era assim: a gente ia jogar, aquilo tudo que aconteceu era mentira, um pesadelo que tinha passado, o jogo ainda iria começar".

"Quando acabou a partida, fui para casa", disse Juvenal. "assim que entrei em casa, eu não quis conversar com ninguém. Fiquei uns quinze dias sem sair". Bauer lembrava do vestiário:

- Era um velório. Quando o primeiro chorou, todo mundo chorou também. Nós todos entramos no vestiário chorando.

Já Bigode, acusado injustamente de ter sido um dos principais culpados pelo segundo gol uruguaio: "quando sou apresentado a alguém na rua, dizem: "é Bigode, um dos que perderam a Copa do Mundo de 1950". Ademir revelou que, depois do jogo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) já tinha contratado uma boate de Carlos machado para um jantar. Teve que desaparecer. Pegou a família e fugiu para Itacuruçá, no interior do Rio. Pior aconteceu com Bauer. Por medida de prevenção, comprou passagem de volta para São Paulo. O seu desejo era o de confraternizar com os pais na capital paulista. Porém, durante a semana anterior ao clássico, um repórter de O Cruzeiro escalado para seguir os passos do jogador o infernizou dizendo que ele não deveria voltar. Haveria uma comemoração com os "campeões brasileiros". Tanto insistiu que o atleta acabou devolvendo a passagem:

- O repórter me obrigou a devolver a passagem para ter certeza de que eu ficaria no Rio - revelou Bauer. - Domingo, quando a tragédia calou o Maracanã, a comemoração virou pesadelo.

Agora, não havia ninguém do seu lado - nem o tal repórter. À noite, a cidade morrera. Não havia vivalma nas ruas. Com dois amigos, o jogador tentou embarcar no trem sem passagem. O fiscal quis parar a viagem, para retirar o viajante acidental. "Conseguimos convencer o homem", lembrou Bauer. "A cabine era de dois, comigo, três. Pedi um cobertor. Fui dormindo no chão. A verdade é essa".

O pior para mim veio quando o jogo acabou", disse Friaça. "Vim para o Vasco, ficamos eu, Bauer e o Noronha andando em volta do campo, na pista do Vasco. Foi o momento mais duro que eu tive em minha vida. Não sei nada do que aconteceu depois. Quando eu dei por mim, estava em Teresópolis. Passei pela barreira, fui para um hotel. Quando me perguntaram: "Friaça, o que você quer?", eu não sabia onde estava. A minha família não sabia onde eu estava. O pior é que eu também não sabia".

Contudo, nem só de más recordações viveram os heróis de 50. Ademir se recordava do ouriço após a goleada sobre a Espanha (6 a 1). "Eu estava na concentração, quando apareceu um senhor num automóvel. Quando conseguiu entrar, o homem foi direto ao técnico, Flávio Costa. "Estou com um filho de quatorze anos na mesa de operação. E ele me fez um pedido que vou ter que atender: ele quer que Ademir vá ao hospital". Flávio chamou o jogador num canto: "vai com o médico da seleção, num carro da CBD. Veja a situação e volte". Quando Ademir chegou, viu que se tratava de um pequeno fã seu, e que gostava de futebol de mesa. O menino veio, lhe beijou, virou para o médico, e disse: "Pode me operar!".

Meio alado, Ademir pensava, com espanto: "O que eu sou? Um santo? Eu sou Deus?". Aquilo o impressionou. "Para dizer a verdade, eu nem poderia Ter saído da concentração, mas deram autorização e eu fui".

Vinte anos depois, em 1970, Ademir estava trabalhando em rádio como comentarista e decidiu ir numa agência de banco para trocar cruzeiro por dólar, para poder viajar para o México, a fim de cobrir a Copa do Mundo daquele ano. Eis que, de repente, um homem que estava na fila se aproximou do nada e perguntou ao ex-craque:

- Você não se lembra de um senhor que, em 1950, foi lhe buscar lá na concentração do Brasil para ver um menino na Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo?

- Sim, me lembro - murmurou.

Aquele menino era eu! - respondeu o homem.

"São passagens assim que marcam a gente no futebol", recordava Ademir, décadas depois.

Da mesma maneira, um gesto de terna gratidão as futuras gerações ainda vão declarar aos eternos heróis da Copa de 1950 e desfazer para sempre a enorme injustiça e preconceito a que foram penalizados. Os nossos eternos heróis são: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer, Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico.