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6 a 21 de Dezembro de 2005

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LATIM EM PÓ #53

A VELHINHA DA FEIRA
Nem só de lista de mais vendidos vive o leitor
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ais uma Feira do Livro ocorreu em Porto Alegre e, de roldão, mais um recorde: de 28 de outubro a 15 de novembro, foram comercializados, ao todo, 530.978 livros na Praça da Alfândega. Os números finais da 51ªedição do evento, que fizeram muitos livreiros esfregarem as mãos de alegria, resultaram num aumento de 7% sobre a edição do ano passado, quando os números chegaram a 494.639 exemplares, foram divulgados pela Câmara Rio-Grandense do Livro. “A missão foi cumprida”, disse Waldir da Silveira, presidente da entidade, ao revelar os vultosos números. Ele afirma que o resultado positivo foi impulsionado pela Área Infantil e Juvenil, novidade desta edição.

Aliás, segundo parcela significativa do público, há muito que a Feira tem decaído, pelo menos naquilo que ela tinha de mais interessante. Por exemplo, foi-se o tempo em que o toldo com o bar, onde se poder reclamar cerveja de caneco, foi subtraído da Feira. Afinal, não havia nada melhor do que ir à Praça para tomar cerveja e assistir ao desfile de moçoilas em flor a flanar pelas alamedas. Este ano, então, nem fale: mandaram o pavilhão de autógrafos para a Avenida Sepúlveda, fora do centro do evento, quase à beira do Cais. Uma pena, já que, depois de tomar cerveja, a segunda maior atração do evento era ficar de papagaio de pirata no coração da Alfândega, ao lado da impassível estátua eqüestre do General Osório, olhando o movimento, à sombra das moçoilas em flor.

A minha vizinha aqui do apartamento 5 (e que é sempre uma fonte confiável), disse que esteve lá, e me contou tudo. Falou que é do tempo em que os balaios (cestos de madeira onde se vendem livros em promoção) continham material de utilidade. Segundo ela, os mesmos balaios hoje apenas servem para entulhar a Feira de encalhe. Ou, pior: balaios onde se vendiam livros em catálogo, com preço idem. “Há dez anos, eu achava Manuel Bandeira encadernado da Aguilar, hoje eu só acho Tesouro da Juventude e aquele tal de Zélia, Uma Paixão ”, riu minha vizinha, ressabiada com o estado das coisas.

Expliquei-lhe que o Tesouro até que não é boa pedida. Mas ela me revelou um episódio curioso: na Segunda, caiu o maior toró em Porto Alegre. Foi tanta água que muitos exemplares foram atingidos. E, como acontece em toda feira, algumas bancas resolveram vender esse exemplares como “xepa”, para o gáudio dos desvalidos. Afinal de contas, Feira do Livro é, antes de tudo, para vender e faturar, e o fato de ser um dileto leitor não conta nada num país sem bibliotecas e de livros caríssimos. Exultante, minha alegre vizinha disse que conseguiu um exemplar de Estrela Solitária , de Ruy Castro, por R$ 5. Não é incrível? E ainda tem gente que ainda reclama quando chove na Feira....

Mas o presidente da Câmara do Livro se referiu à Área Infantil, e eu acho que aquilo foi uma das melhores coisas do evento. Proust dizia que as melhores coisas da vida ele aprendeu quando era guri. Acho que ele estava certo. E os livreiros também: localizado no Cais do Porto, o espaço da petizada lhes rendeu um aumento de 83% sobre o volume de 2004. As vendas fizeram os livreiros babaram na gravata. Afinal de contas, Feira é para vender, não é para olhar, não é minha gente? O presidente observa que a experiência será repetida no ano que vem, mas o local precisará de uma reforma para conter o calor dos armazéns, além de arrumação no piso e outras prioridades. “Mostramos que a população quer ficar próxima ao Guaíba”, completa o feliz presidente da Câmara, com o sorridente resultado das vendas deste ano. Brincadeiras à parte, a criançada fez a festa, se divertiu com as mais de 470 atividades paralelas e eventos literários como saraus e representações de peças infantis à beira do frondoso e poluído Guaíba. Afinal de contas, para eles, o dinheiro e a cerveja e as moçoilas em flor são o de menos. E como diria Saint-Exupéry, são eles que esmagam o nariz no vidro dos comboios...

E como não se poderia olvidar de dizer aqui, os mais vendidos: conforme os livreiros, foram, na categoria ficção: Código Da Vinci e Fortaleza digital , de Dan Brown. Na categoria não-ficção, três gaúchos foram responsáveis pelos títulos mais vendidos: Voltaremos , de José Antônio Pinheiro Machado, Desembarcando o Colesterol , de Fernando Lucchese, e Egito dos Faraós , de Aírton Ortiz. O interessante na Feira é que, além da badalação natural de livreiros e escritores, existe aqui em Porto Alegre um fenômeno paroquial onde os autores mais vendidos são os de mais visibilidade na província. Claro que visibilidade não é sinônimo de carência de qualidade. O citado Voltaremos , por exemplo, é um pocket-book de uma antologia de receitas de cozinha de uma qualidade literária capaz de ruborizar de viralatismo Poe, Dickens, Dante e Montaigne. Sinal de que, na Feira do Livro , marketing e alta literatura andam juntos como feijão e arroz. O editor, ao ser interpelado sobre qual era o seu livro mais vendido, mal conseguia esconder o rubor das faces ao revelar, diante de assistência, que montava na bufunfa vendendo livro de receitas...

Porém, no meio do escarcéu de mercadologismo e de números das vendas de livros e da badalações de editores e de autores, discorrendo sobre literatices e tal, eis que, de repente, no apagar das luzes da Feira , a cozinheira aposentada Francisca Zubovski, 90 anos, do bairro Sarandi, Porto Alegre, folheou as páginas do primeiro livro comprado por ela. Analfabeta até janeiro deste ano. Ela visitou a Feira junto com colegas do Programa de Alfabetização de Adultos do Centro de Integração Empresa Escola (Ciee). Filha de agricultores de Santo Antônio da Patrulha, dona Francisca freqüentou a escola por apenas um mês. A lavoura fez com que ela se apartasse dos livros. “Eu sempre quis entender o que os meus olhos viam, mas tinha vergonha de pedir para estudar porque me acham velha demais”, diz ela.

Perdida no emaranhado de gente entre bancas e bancas e à sombra dos jacarandás em flor, a lírica cozinheira aposentada de repente se deparou com um livro, um inocente e esquecido livro, perdido num balaio de R$ 1. O título era O Trigo e a Erva Malvada , um conto sobre histórias da Bíblia.

— Ainda vou ler todo esse monte de palavras! — anunciou dona Francisca, enquanto examinava aquele emaranhado de páginas encadernadas e o mundão de palavras novas que ela descobrira.

Então eu descobri que, por esses momentos inesquecíveis e indescritíveis, a Feira do Livro vale a pena.