| LATIM
EM PÓ #55
O VELHO E A BALEIA
Vidas Secas nasceu de um conto quase rejeitado pelo autor
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
rês meses depois de ser libertado de seu cárcere da Ilha Grande, Graciliano Ramos resolveu escrever um conto inspirado no sacrifício de uma cadelinha que foi morta diante dos seus olhos, quando o escritor alagoano era menino, em Buíque, no sertão pernambucano. Diante das resmas de papel, na penumbra e a pena suspensa, pensou; “o que se passa na cabeça de uma cachorra?”. Imaginou que o pobre animal se imaginaria renascendo num mundo cheio de preás”. E escreveu a história, começo, meio e fim.
Publicada sob encomenda para o suplemento literário de O Jornal , depois de enviar o texto, começou a se arrepender (como acontece a quase todos os escritores). Para ele, o conto parecia fraco, sem qualidade. Mas resolveu deixar passar: de qualquer maneira, precisava dos honorários para poder sustentar sua família. Mesmo assim, o sentimento de que seu escrito soava ruim lhe assomava. Dias depois, ao retornar aos encontros nas rodas de leitura da Livraria José Olympio, se surpreendeu com a repercussão positiva que seu conto provocara ali. O poeta Augusto Frederico Schimidt e Zé Lins do Rêgo insistiram para que Graciliano continuasse aquela instigante história.
Imaginou que a cadela pertencesse a uma família de retirantes, que chega a uma fazenda abandonada, sobrevivendo de maneira famélica. Perseguidos pela polícia, são obrigados a errar pelo sertão. Assim nascia Vidas Secas , decerto o livro mais bem escrito que já li (e reli). Escrito com lavor de joalheiro, um primor de elegância e estilo. Sobre o romance, existem dois fatores que o tornam também peculiar dentro da obra do autor de São Bernardo. O primeiro é que é o seu único livro escrito na terceira pessoa; o segundo é que, por uma questão de ordem financeira, ele se tornaria numa obra originalíssima. Já que o Velho Graça tinha mulher e filhar para criar, ele se obrigou a produzir o livro em forma de contos em separado, para poder publicá-los (como ocorreu com o primeiro), para dezenas de revistas e jornais.
Dessa forma, Vidas Secas nascia como uma colcha de retalhos cerebralmente concebida. Cada “conto' era enviado à publicações como Diário de Notícias , O Cruzeiro , O Jornal , onde ele espertamente mudava apenas o título. Por conta disso, ao lermos a obra de forma linear, não encontramos uma narrativa segmentada. Baleia , o primeiro texto a vir à lume, foi o primeiro (como sabemos). Um mês depois é que Sinhá Vitória ganhava revisão final. Paradoxalmente, é possível encontrar uma lógica temática, conceitual, dentro de vários esquetes em texto, como se fossem quadros de uma exposição. Outro “Velho”, o Rubem Braga o chamava de “romance desmontável”...
Graciliano era extremamente rigoroso e metódico ao escrever. Depois do esboço, ia escrevendo e reescrevendo, limando e polindo, moldando e remoldando, como se fosse um joalheiro ou escultor, a buscara forma ideal. Como se sabe, o Velho reescrevia seus textos sem parar, só os publicando depois que estivessem finalmente enxutos e livres de excessos. É por isso que o seu estilo é tão peculiar e para mim o mais bem elaborado de toda a história da Literatura Brasileira. Mais do que o enredo, ou até muito mais, é isso o que tanto atrai nos livros de Graciliano: é um convite à discrição e sobriedade literárias.
Essa secura estilística também estava retratada e plenamente exposta no enredo. Para ele, a exposição de quadros era a descrição fiel de uma região “aspérrima” (pegando o termo euclidano). Certa vez, o Graça disse: “procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na área mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana”. Para o autor de Caetés , portanto, para ela, a sua demanda psicológica ia além da leitura dos regionalistas como Zé Lins ( Fogo Morto ) e José Américo de Almeida ( A Bagaceira ). É essa secura e ótica portinaresca e ultra-realista que fundiu a cuca da crítica literária. Até então, nenhum um autor brasileiro havia chegado tão fundo naquele universo rarefeito e sombrio de Vidas Secas .
E Baleia? Sempre achei curioso (e nunca é desproposital) de que esse nome, que evocasse mares camonianos, fosse um paradoxo num mundo árido. Mas o maior paradoxo é perceber que ela era o elo racionalizante num mundo onde o homem se torna irracional (Fabiano, que demonstra dificuldade de se comunicar com outras pessoas, como na cena em que ele apanha do “polícia”) e pode, enfim, projetar uma relação harmônica com os animais: “Baleia andou feito gente, com dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do seu corpo”. E essa harmonia é perfeita, exemplar, tudo se relaciona, tudo se planifica, tudo é pleno. Nesse ponto, o Velho Graça consegue demonstrar toda a riqueza poética do seu mundo crestado e patético.
Porém mais do que isso, os seis meses que compreenderam a odisséia de Baleia e sua família significam um outro valor maior “que se alevanta”: além, muito além do inefável drama dos retirantes, como afirma o ensaísta Dênis de Moraes, em Vidas Secas , Graciliano defenderia essa dura realidade com a arma que ele dispunha ao seu alcance: a sua inabalável convicção pela potência das palavras.
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