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EM PÓ #56
UM PERITO DA PALAVRA
Josué Guimarães elaborava mentalmente os mapas de seus livros
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
m dos melhores textos da nossa literatura nos últimos anos foi Josué Guimarães, cujo passamento é lembrado este ano. Narrador de um estilo que amalgamava uma linguagem direta e simples e descrições deliciosamente detalhadas, produziu muito em pouco tempo (cerca de quinze anos), primou pelo apuro formal e a estruturação dos seus romances, foi no dizer de Flávio Loureiro Chaves, o “narrador da trágica década de 70”. Sua trajetória de autor, não entanto, é bastante peculiar: nascido em São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, em 1921, ele só se tornaria escritor a partir dos anos 70. Antes, porém, o autor de A Ferro e Fogo vivia basicamente de publicidade e jornalismo. Foi locutor de rádio e passou pelas redações de Última Hora , O Cruzeiro e Folha de São Paulo , entre outros. Em sua fase política, Guimarães foi vereador pelo antigo PTB e apoiou a campanha da Legalidade. Com o Golpe, em 1964, passou a ser perseguido. Virou livreiro e até vendedor de apólices do Montepio da Família Militar, com o nome falso de Samuel Ortiz.
Numa de suas incursões apócrifas pelo ofício de vendedor, chegou a ser reconhecido por um general que, por uma questão de solidariedade, não o entregou aos seus superiores. Ele entendeu que, na cova dos leões, o pobre e acossado ex-vereador trabalhista lutava por sua vida. Já no auge da repressão, exilou-se a partir do fim dos anos 60 em São Paulo e, depois, Portugal.
Foi quando a veia de autor falou mais alto. Seu primeiro livro veio à lume tarde, quando Guimarães já contava 49 anos, com Os Ladrões . Talvez isso se explique tanto pelo fato de que a carreira política exigisse muito de seu tempo, quando pela sua própria resistência em se aceitar como escritor (modéstia que acomete os grandes escritores). “Ele não se acreditava escritor”, revelou Nídia Guimarães, anos após a morte de seu companheiro desde 1951, de câncer, em março de 1986. “Sempre se disse jornalista, e custou muito a acreditar que era um ficcionista”, conta. “E também a falta de tampo, trabalhando na imprensa é difícil ter tempo para criar”. Carreira, por sinal, que ele nunca abandonou: até o fim da vida, assinava uma coluna diária em Zero Hora e era chefe da sucursal gaúcha da Folha de São Paulo.
E foi com o cacoete de homem de jornal, Josué dava à luz a seus livros sem dificuldade. Mesmo no exílio, ele concebia os enredos e personagens e costumava contar com pureza de detalhes muitos dos seus livros exaustivamente aos amigos mais chegados antes de por a história no papel. Isso explica a inexistência de originais. As poucas provas que ele deixou se referiam a correções de datilografia e (algumas poucas) de ortografia. O livro sempre saía completo. E o escritor costumava brincar com isso, explicando que, no futuro, os seus originais não teriam qualquer valor, já que eram limpos, concisos, quase irretocáveis.
O incomum hábito de contar o livro antes de escrever que permitiu que muitos de seus amigos pudessem travar conhecimento das grandes obras que Guimarães concebeu, como se fosse um furo jornalístico, uma confidência genial. Ele ligava para alguém, e dizia: “estou com um enredo na cabeça, quer ouvir”? E foi assim, por exemplo, que o seu primeiro editor, Ivan Pinheiro Machado, foi o primeiro “leitor” de sua obra-prima, a saga Camilo Mortágua . “Fazia parte do seu processo criativo, compartilhar, numa espécie de catarse, a história que tomava forma em sua imaginação”, relembra Machado. “Depois de contar para sua companheira, Nídia, e amigos ele se punha a escrever, e as laudas iam jorrando sem emendas”.
Pinheiro Machado havia conhecido Josué em Lisboa em1976, onde o degradado jornalista vivia desde o ano anterior, depois de haver sido perseguido e preso, até optar pelo auto-exílio. Curiosamente, o jovem editor recém começava a sua empresa no mercado, e Josué foi um de seus primeiros autores: Guimarães teve o seu livro É Tarde Para Saber vetado pela José Olympio, sob a singela acusação de “subversivo”. A obra sairia pela nascente LPM de Porto Alegre, junto com Devora-me ou te Decifro , de Millôr Fernandes.
Seria o primeiro de dezessete títulos lançados pela editora, que foi o celeiro do melhor de sua obra, desde o comovente É Tarde Para Saber , passando pelos seminais Os Tambores Silenciosos e Camilo Mortágua , os infantis (muito bons) do Xerloque da Silva até um pequeno volume, chamado Amor de Perdição . Relançado há pouco tempo em formato de bolso, este homônimo do português Camilo é breve e lírico como um cordel que narra o desventurado amor de Maria Manoela, sobrinha do general Bento Gonçalves, pelo famoso condotieri italiano Garibaldi. A triste história de amor reapareceria anos depois diluída sob a forma de romance em A Casa das Sete Mulheres .
A despeito de sua brevidade, o último livro do autor de Dona Anja é lapidar, típico do mestre da narrativa, do grande contador de histórias que foi Josué Guimarães. Mesmo ligado ao realismo mágico setecentista, a sua obra toda se mantém cada vez mais viva tanto pela dimensão literária quanto pela originalidade do caráter visionário de sua ótica crítica do mundo.
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