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2 a 16 de maio de 2006

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LATIM EM PÓ #57

VOSSA INSOLÊNCIA
Coletânea traz a pena da galhofa e a tinta da melancolia de Olavo Bilac
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ão sei você, mas muita gente não sabe que, além de parnasiano e de ícone de cartilha escolar, Olavo Bilac (1865-1918) também era uma espécie de faz-tudo, e inclusive militou na imprensa por muitos anos. A maioria dos estudantes que aprende alguma coisa sobre ele têm a idéia daquele senhor sempre de perfil e usando um pincenê fincado no meio do seu impávido facho passava a vida longe do estéril turbilhão da rua, compondo beneditinamente sonetos com inefáveis fechos de ouro. Mas a verdade é dura, e os poetas nunca puderam viver de brisa ou tocando a sua harpa dourada numa torre de marfim. Por isso, o autor do Hino da Bandeira vivia como malabarista. Para sobreviver, trabalhava como jornalista, inspetor escolar e até como publicitário avant le lettre : são dele os versos:

Acha um amigo entre inimigos mil!
Tens um resfriado? Não terás segundo:
Defende os teus pulmões! Toma BROMIL!

Ele mesmo ironizava a sua inusitada e paradoxal situação de carregador de piano e “imortal da academia” em seus versos:

Sem lar, sem pão, sem conforto,
O acadêmico, afinal,
Não tem onde cair morto...
Por isso que é imortal...

Colaborador de vários jornais por duas décadas, ele teve os seus melhores momentos como cronista da Gazeta de Notícias, diário carioca de Ferreira Araújo, considerado um dos responsáveis pela modernização da imprensa naquele tempo. Lá o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” começou a escrever crônica a partir de 1890. Sete anos depois, ocuparia o espaço antes pertencente à Machado de Assis, já então entronizado como o maior escritor brasileiro. Seguindo também uma nova linha crítica da Gazeta, o autor virou uma espécie de franco atirador que, às vezes acertava em cheio, mas em outras, nem tanto. Muitas dessas crônicas estão reunidas em livro, Vossa Insolência , organizado por Antônio Dimas, professor de Literatura da USP, e que saiu pela coleção Retratos do Brasil da Companhia das Letras, em 1996.

O próprio Dimas salienta que o autor de Profissão de Fé dançava conforme a música, era tributário ora da orientação política da Gazeta, ora do embaralhamento das fronteiras entre uma pusilanimidade contestatória e um reacionarismo jucundo — fato que, com efeito, não deixa de ser contingente, se entendermos o escritor enquanto produto de sua época e de seu meio. Mas o relevante nesse resgate é encontrar um elo perdido que une o Bilac sonetista fundamental das Panóplias , de In Extremis , de Língua Portuguesa , e das apostilas de cursinho; o Bilac que fale à imaginação, o Bilac do rés-do-chão, o Bilac dilaceradamente mortal e real, diferente da caricatura imposta pelos modernistas de 1922, o Bilac com vínculos com a cultura viva.

O que não deixa de ser curioso, se levarmos em conta o tipo de jornalismo que se fazia na época, além da popularidade que o gênero folhetinesco ia ganhando, até desaguar na estética da crônica como conhecemos hoje. Porém, descobrir toda a sua verve literária incursionando por um estilo que para o bardo das estrelas pode ser considerado literariamente menor é ir além do seu estereótipo altivo e elegante de parnasiano, excêntrica demais o país pobre que vivia o sonho da Belle Époque . Mas é justamente no triste atoleiro desse Brasil patético, pobre, feio e doente que o Bilac das estrelas nasce: menor em matéria de gênero se comparado à sua extensa produção poética, mas não menos hábil no manejo da linguagem.

E não menos irônico. A crônica, como conhecemos, nasceu no Século XIX e servia também para o aumento das tiragens, já que o assinante se via obrigado a ler a edição seguinte, por causa do folhetim, que era nota de rodapé. Com o tempo, esse gênero virou sinônimo de história contada em capítulos, e o conteúdo original de folhetim se tornou a coluna de rodapé, que é a gênese da crônica.

A intenção de informar e divertir obrigava cada vez mais ao exercício de um texto mais despojado e muitos dos grandes escritores da época também eram cronistas, como Alencar, Machado, e tiveram muito de sua popularidade por conta de sua participação amiúde em jornais, como “comentaristas do cotidiano”. Assim foi com o autor de Dom Casmurro e depois, com muitos outros. E a ironia é o combustível de sua lírica.

E o melhor da crônica bilaquiana está primeiro em vê-lo relatar, comentar e comiserar-se de todas as misérias humanas que narra e o quanto todo aquele conteúdo do drama humano que ele fala é mais atual do que nunca. Veja o caso de uma coluna, intitulada “Menor Perverso”, de 1908, onde ele narra a tocante história de um menor de três anos assassinada por outro, de dez. Depois, Bilac diz:

A ocasião é para mais uma vez se verificar quanto estamos mal aparelhados para atender às múltiplas necessidades de assistência social. Um criminoso de dez anos não é positivamente um criminoso; se é verdade que esse menino conscientemente praticou a maldade de que é acusado, o nosso dever não e castigá-lo: é salvá-lo de si mesmo, dos seus maus instintos, de suas tendências para o exercício do mal (...) e aqui que somos forçados a reconhecer que, se estamos muito adiantados em matéria de politicagem e parolagem, ainda estamos atrasadíssimos em matéria de verdadeira civilização...

Mais:

Sei que há uma Escola Correcional. Mas, ainda há pouco tempo, o que se soube da vida íntima dessa Escola serviu apenas para mostrar que, lá dentro, os pequenos maus, pelo vício da organização do estabelecimento, estão arriscados a ficar piores. Tudo quanto se refere à assistência pública ainda está por se fazer no Brasil: asilos, escolas correcionais, penitenciários, presídios, não têm fiscalização efetiva. Só pensamos nessas casas de beneficência ou de correção quando um escândalo, dos que estão dentro delas, faz explosão cá fora, comovendo-nos ou indignando-nos . Então, há uma grita convulsa, um grande espalhafato, um grande dispêndio de artigos para folhas e de atividade pela polícia; mas, logo depois, tudo volta ao mesmo estado...à espera de novo escândalo.

No fim ele arremata que:

Tive muita pena da pobre criança de três anos, morta no meio de horríveis torturas. Mas tenho também muita pena dessa outra criança, que uma brincadeira funesta (...) levou à prática de um ato tão cruel. Nesse pequeno infeliz, que os jornais consideram um grande criminoso, há um homem que vai ser perder, por nossa culpa, porque lhe não podemos dar o tratamento que a sua enfermidade requer...

Noutra crônica, o poeta diz:

O Rio de Janeiro está cada vez mais sujo. Há ruas que têm a vegetação das florestas virgens, e outras que pela rua sua porcaria faz lembrar as ruas porquíssimas do Fez. Nos aterros que vão se fazendo no Cais, vão, de cambulhada coma terra, cadáveres de burros e cachorros. E toda a cidade cheira mal. E os poderes municipais cuidam de plantar nela um Teatro Normal – flor da arte e civilização no meio de um atoleiro...

Não deixa de ser impressionante a atualidade do tema, e a constatação de que a história não vai para a frente; na menos otimista das hipóteses, apenas insiste em andar em círculos.