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4 a 18 de junho de 2006

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LATIM EM PÓ #58

O CASO DO MITU
Saber uma língua estrangeira pode abrir uma janela ao infinito. Ou não.
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

e em época de Campeonato Brasileiro, quem faz a festa são os matemáticos de plantão, sempre destacados para fazer os cálculos de quantos pontos faltam para determinado time ser campeão quanto para outro ser rebaixado, em tempos de Copa do Mundo 2006, o alvo são os tradutores. Um jornalista que se mete a expedicionário da notícia e parte de mala, cuia e passaporte para cobrir a Seleção na Alemanha pode saber o ABC do bom jornalismo, mas, se não sabe nada da língua de Goethe, de Heine e de Schiller em terras germânicas, vai se sentir mais órfão e solitário que um Robinson Crusoé sem radinho de pilha. E lá, no palco do futebol mundial, quem sabe alemão e português vira tradutor em potencial. Em Königstein, onde o Brasil se concentrou, por exemplo, a prefeitura do município contratou pelo menos dez brasileiros que vivem na região para servir de intérpretes para os visitantes que falam a língua de Camões.

Se a torcida brazuca que não vai além do “O Tannenbaum, O Tannembaum”, até consegue quebrar o galho com algum manual de viagem ou com algumas frases-chavões tipo: “um caneco de chope, por favor?”, “quanto custa essa camiseta verde-amarela?” ou “onde fica o cabaré mais barato?”, o que dizer dos jornalistas? Esses sim, dependem da palavra exata, pura e cristalina, para traduzir desde o pensamento luminoso de um jogador de futebol fora de forma até as razões de um treinador teimoso e retranqueiro. Porém, se for a fala oriunda de nossa Seleção, tudo bem. Mas se for de outra, o que fazer? Uma emissora de rádio aqui resolveu o problema: arranjou um intérprete a tiracolo. Deram um treinamento para o gajo e meteram o pobre diabo na equipe de esportes que zarpou para a Alemanha.

Tudo muito bem. O problema é que o pessoal da tal rádio resolveu esse problema comezinho, mas se esqueceu de arranjar alguém que soubesse inglês na mesma medida, a boa e velha “língua universal”. Sem poder usar seu fiel escudeiro para traduzir a língua de Poe, fez o que pôde para traduzir o que o Carlos Alberto Parreira respondia à imprensa britânica. Franzia a testa para entender a resposta do técnico e, depois de assimilar alguma coisa traduzível no meio daquele feixe de palavras desconhecidas, respondia aos ouvintes pelo microfone, lacônico: “ele tá falando do Ronaldo”, ou “ele tá falando do quadrado mágico”, ou a variação: “ele tá falando do Ronaldo e do quadrado mágico”, ou “ele tá falando do Robinho e do quadrado mágico”. E por aí vai. Pelo menos, a “tradução” valeu umas boas risadas, isso é o que importa.

“O inglês é a língua universal”, tá legal, eu aceito o argumento. Mas para o cálido, honesto e parnasiano catedrático versado na língua inglesa, seria preciso achar outro para que se estabeleça o canal. Universal pode até ser; contudo, como seria se a Copa fosse no Brasil, onde a gente mal sabe balbuciar o Hino Nacional em Português vulgar? Universal para quem, cara-pálida? Ou seja, de alguma forma, sempre vai existir a barreira da língua. Uma repórter de política foi cobrir a viagem de um governador de estado, lá na China. Um dia, com seu parco conhecimento de mandarim, resolveu se aventurar por Beijing. Por pouco não ficou perdida lá para sempre, ou não foi parar num sanatório, passando por doida varrida. Acontece, paciência...

Existe uma história curiosa sobre isso. O ex-lateral gremista Ortunho, por exemplo. Ele integrava a seleção gaúcha campeã pan-americana de 1956 no México. Numa das escalas da viagem, a delegação foi obrigada a esperar algumas horas pela conexão aérea, no aeroporto da capital do Panamá. Como ali a língua oficial era o Inglês, os atletas não sabiam o que fazer: ficaram todos intimidados. Na hora da janta, Ortunho abriu o cardápio e gelou. Caçarola! Não entendia nada do que estava escrito ali. Chamou o mâitre , e não compreendeu patavina do que o homem de bigodinho falava. Olhou para os lados, esperando uma salvação. Eis que, de repente, um garçom preto saiu altaneiro da cozinha, com bandeja e toalhinha. Ao ver alguém da sua cor, o atleta sorriu aliviado. Gesticulou para o homem. Quando o homem se aproximou, o lateral disse, com ar amistoso:


— Pô, negrão, vem cá. O negócio é o seguinte. Me dá uma ajuda aqui! Eu quero um filé a cavalo, com fritas. Mas acontece que esses gringos não entendem nada do que eu falo, pô!

Mas a melhor de todas é a do Mitu.

O Stanislaw Ponte Preta escreveu uma história muito engraçada que aconteceu durante a Copa da Inglaterra, em 1966. É o seguinte: quando a seleção brasileira chegou a Liverpool, um grupo de jornalistas veio a reboque. O problema é que havia um deles que não sabia nada de inglês, no máximo, ensaiava um "Hello" ou um "How Are You". Depois do jogo da Bulgária, foram todos comemorar num restaurante. Um deles pegou o cardápio, e o dissecou, diametralmente. Chamou o garçom, pigarreou, alçou a fronte, e fez o pedido. O jornalista ao lado olhou para o garçom, e respondeu: "me too". Assim foi, um a um: "me too", "me too". Até chegar no rapaz que não sabia inglês: foi surpreendido pelo olhar curioso do mâitre . Suspense total. Sem pestanejar, respondeu:

— Mitu.


Foram prontamente atendidos. Então aparece o garçom, com o prato: bife com batatas fritas. O tal jornalista "bilíngue" sorri, aliviado. Assim foi, depois de cada jogo do Brasil. Todos iam juntos ao tal restaurante. Um dos repórteres lia o cardápio, pedia, e todos respondiam: "me too", "me too", e nosso herói respondia: "mitu".


E em minutos, aparecia o prato: suflês, macarronadas, carne de porco, panquecas, filés. Em pouco tempo, ele já se sentia um Poe, um Wilde, um Dickens. O "mitu" lhe abriu as portas da língua. E cada dia era um prato diferente. Ele dizia a palavrinha mágica e, de repente, desfilavam cardápios cada vez mais exóticos. Mas se a comida era de primeira, o futebol da seleção brasileira nem tanto. Uma casa de Irene. Foram convocados 44 jogadores, 4 times, para a copa. Além disso, a seleção promoveu um supersticioso "culto aos antepassados" e vários veteranos das copas passadas foram convocados por conta desse tolo sortilégio. Não podia ter dado certo. Após vitória inicial sobre a Bulgária por 2 x 0, o Brasil perdeu para a Hungria, 3 x 1. No fim, não passamos da primeira fase, depois do vexame do 3 a 1 de Portugal, sem contar com a cena do Pelé sendo caçado pelo gramado afora, como uma adúltera bíblica.


No dia seguinte à derrota, a maioria dos jornalistas brasileiros retornou ao Brasil. Nosso herói bilíngüe, porém, resolveu esticar a viagem. Na manhã seguinte, ele resolveu almoçar no restaurante de sempre. Sentou-se na mesa como um dândi, com um perfil de César e ar de desdém. Eis que aparece o garçom. Arrumando o guardanapo na gola, como um Mazzaropi (o do filme), encarou o homem e pediu, triunfante:

— Mitu!


E nada. Ele insistiu: "Mitu, pliz!". O garçom chamou o mâitre . Este também não entendeu o pedido do ilustre cliente. Envergonhado, nosso herói bateu em retirada.


Conclusão dele: depois que o Brasil perdeu a Copa, o mitu também acabou.