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3 a 18 de junho de 2006

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LATIM EM PÓ #59

AO CORRER DA PENA
Alencar faz o inventário de sua personalidade literária em Como e Porque Sou Romancista
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ublicado postumamente em 1893, Como e Porque sou Romancista , do escritor cearense José de Alencar (1829-1877), certamente um dos escritores mais lidos em Língua Portuguesa em todos os tempos (só Iracema já passou das cem edições!) é um misto de autobiografia intelectual e análise literária, importante tanto para o conhecimento de sua obra quanto de sua personalidade como homem de letras, jornalista e pensador do seu tempo. Segundo o organizador da edição definitiva da obra, Afrânio Coutinho, o pequeno volume consiste em um “autêntico roteiro de teoria literária”, onde o criador de Ceci e Peri enfatiza, desde a sua formação escolar até a madureza, a grande importância dada à leitura, e como ela, mesmo que involuntariamente, conseguiu incutir em seu sangue o ‘vírus malígno' do escritor.

No primeiro momento, ele relembra as lições do velho mestre Januário Mateus Ferreira ainda nos bancos escolares, e a forma como ele disciplinou-se em direção aos livros. Por outro lado, Alencar mostra exatamente qual era a importância da leitura em família e como o folhetim era capaz de arrebatar as mentes e corações de sua época (o Segundo Reinado, a partir de 1840), muitos anos antes do rádio e da tevê. Naquele tempo, os jornais substituíam o formato casual do texto do folhetim, que versava sobre assuntos diversos, para a publicação de romances em capítulos - estes devorados por ávidos leitores, desde alegres estudantes até santas senhoras.

Em sua casa, o pequeno Alencar era o escolhido para ler o capítulo diário (que podia ser de um folhetim ou de algum livro). Todos se reuniam na sala principal, para o serão na hora do chá. Alguns tópicos considerados interessantes eram relidos onde, segundo ele, “alguém desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos a simpatia do herói perseguido”. Certa feita, o velho escritor se recordava de determinada passagem que arrancara lágrimas das senhoras e senhoritas presentes. Dado o insólito choro coletivo, causado certamente pela compaixão por algum herói desditoso do romance, eis que irrompe na sala o padre Carlos Peixoto, amigo da família, que se assusta e pergunta:

— Mas o que aconteceu, alguma desgraça?

As senhoras escondiam o rosto nos lenços para ocultar o pranto, enquanto o irremediado Alencar respondeu, mostrando o livro:

— Foi o pai da Amanda que morreu!

Apesar de cômico, com o tempo, o episódio marcou o autor cearense tanto no sentido do arrebatamento do texto literário quanto o hábito da leitura involuntária com o tempo cuidou de empurrá-lo para o caminho das letras. A primeira tentativa foi um romance inacabado que ele dedicara ao amigo Joaquim sombra, que seria o protagonista.

A chegada de José de Alencar à São Paulo, para os cursos preparatórios de Direito, coincide com o lançamento de A Moreninha , de Macedo. Porém, naquele tempo, em 1844, o mercado literário era muito diferente do que conhecemos hoje. O escritor é quem revela: “naquele tempo, o comércio de livros era, como ainda hoje, artigo de luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras literárias tinham menor circulação. Provinha isso da escassez das comunicações com a Europa, e da maior raridade de livrarias e gabinetes de leitura”. Como se não bastasse isso, a quase totalidade de obras estava disponível apenas em outras línguas.

Dos anos de Direito, restaram a amizade com o poeta Francisco Otaviano e algumas publicações, como a revista semanal Ensaios Literários , os arroubos de escritor ainda inédito e o interesse pela historiografia colonial em seu tempo de estudante, em Olinda, em 1848. Ali nasceria o interesse pela obra de Walter Scott ( Ivanhoe ) e John Fenimore Cooper ( O Último dos Moicanos ), pelo indianismo e pela criação de romances históricos.

Aos 25 anos, Alencar estréia como jornalista no Correio Mercantil . Em 1855 ele se transfere para o Diário do Rio de Janeiro onde troca a veia de polemista pela de folhetinista. Foi quando surgiu outra polêmica, que lhe poria em choque com o imperador: na sua coluna, passa a atacar a insossa epopéia A Confederação dos Tamoios , de Gonçalves de Magalhães (insígne patrono do Romantismo Brasileiro, junto com Torres Homem e Araújo Porto Alegre, da revista Niterói, editada em Portugal). Magalhães era poeta insalubre, porém protegido de D. Pedro II. Este, ao ler a crítica alencariana Cartas sobre a Confereração , no Diário , resolveu tomar as dores do seu valido, usando pseudônimo para contratacá-lo e pedir a outros escritores, como Herculano, que defendessem Gonçalves.

Já o preclaro autor de Euríco, o Presbítero , por sua vez, deu uma bola nas costas do imperador e, na “réplica” resolveu admitir que a epopéia dos Tamoios era uma bela droga, mesmo. A verdade é que Alencar, independente de qualquer intenção de levantar polvadeira, julgava que o velho e laureado Magalhães era uma empresa esteticamente inválida, e que fazia uso de fórmulas defuntas.

Apontava para formas mais literárias mais novas, como as de Scott (ainda que importadas), a seu juízo mais aptas a enriquecer as letras brasileiras. No rastro da polêmica, o escritor cearense reagiu com O Guarani , publicado em folhetim pelo próprio Diário em 1857, e resposta “scottiana” de Alencar para o modelo do romance brasileiro. Porém, a pecha de mero transplantador de paradigmas estrangeiros (pecha essa que quase nenhum nome do Romantismo escaparia, de Azevedo a Castro Alves) faria com que ele se explicasse, anos depois do lançamento da epopéia de Ceci e Peri, em Como e Por que sou Romancista :

Anos depois de ter escrito O Guarani , reli Cooper a fim de verificar a observações dos críticos e convenci-me de que ela não passa de um rojão. Não há, no romance brasileiro um só personagem de cujo tipo se encontre o molde dos Moicanos , Espião , Ontário , Sapadores e Leonel Lincoln .

Mais do que isso, para ele, o herói de sua pena é idealizado, ou seja, bem ao típico molde entronizado pela literatura do seu tempo, onde o índio é o ‘bom selvícola', longe do estereótipo “realista” pintado por Cooper: “n' O Guarani , o selvagem é um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça”, diz.

Curioso é que, exatamente nesse ponto de seu relato, Alencar passa a defender a sua obra e a sua posição como mentor daquele que foi, segundo João Guilherme Merquior, o responsável pelo nosso primeiro “grande vôo literário”. O criador de Iracema se põe a defender a sua obra, contra tudo e contra todos, até mesmo os neófitos do beletrismo autóctone.

Tal postura é sintomática: é preciso dizer aqui que, na época em que o escritor garatujou Como e Por que sou Romancista , a crítica investia sistematicamente contra ele que, por seu turno, optou pelo silêncio. Mesmo incensado pela imensa maioria de leitores, que disputavam os seus romances publicados em jornal, no plano político, o autor cearense, que em 1869 era Ministro da Justiça, vinha de uma briga histórica com D. Pedro II, cujo paroxismo foi o episódio envolvendo a sua diplomação no Senado. Mesmo tendo obtido o primeiro lugar nas urnas, o Imperador veta Alencar. O azedume das relações entre ambos havia delimitado a sua rede de admiradores. D. Pedro alegou ao ex-ministro que o veto ao seu nome se dava pelo fato de o romancista ser demasiadamente “moço”:

— Por essa razão, Vossa Majestade deveria então devolver o ato do que o declarou maior antes da idade legal — respondeu o insolente Alencar, sem perder o chiste.

O veto imperial o faz abandonar a breve carreira política (iniciada em 1861, quando se elegeu deputado pelo partido Conservador), quando se volta às letras, ou o que ele chama de “velhice literária”. Desiludido, minado pela tísica e entregue aos seus pensamentos como um misantropo, podemos então entender a sua postura na oitava e última parte de Como e Por que sou Romancista . Ali ele analisa o desdém aos seus últimos romances, como Lucíola , onde ele levanta a tese da conspiração do “silêncio e da indiferença”. Além de dissabores desse tipo, José de Alencar parecia achar que até a má qualidade das tipografias da época conspiravam contra ele. E conclui o seu recado zangado:

— Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro é no Brasil e por muito tempo será para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal de inteligência e trabalho que nele se emprega, daria em qualquer outra aplicação, lucro cêntuplo.

Que se faça justiça a Alencar: eis aí uma infausta e insofismável verdade, caro leitor....