| LATIM EM PÓ #6
OU VAI OU RACHA
Governo Lula recorre a uma didática
de uma ONG na tentativa de erradicar de vez o analfabetismo no Brasil,
porém...
por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)
Brasil tem 15 milhões de analfabetos. Nesse número,
podemos incluir jovens e adultos. Já pensou? Tudo bem que
o Brasil é um país continental. Mas além desse
contingente, nós temos aqueles que apenas lêem e escrevem
o necessário. Você, que é capaz de ler o que
está escrito aqui, pode se considerar um pequeno prodígio.
Não imaginamos a conquista de saber ler. Porém, como
eu disse na primeira frase deste parágrafo, o Brasil possui
15 milhões de analfabetos. Imagine então 15 milhões
de almas que não lêem João Cabral de Melo Neto,
são zilhões de brasileiros que não leram uma
frase de Paulo Coelho. E agora? Quem vai dar um jeito nisso? Ao
tomar posse nesse mês, o Ministro de Educação,
Cristovam Buarque, garantiu que em quatro anos não haverá
um só brasileiro sem saber ler ou escrever.
Para a difícil empresa, o ministro investiu
tal missão de iluminar essas almas ignaras na ex-secretária
de educação de Porto Alegre, Esther Grossi. Seu plano
é baseado na didática desenvolvida há cinco
anos pela Organização Não-Governamental Grupo
de Estudos Sobre Educação, Metodologia de Pesquisa
e Ação (Geempa), entidade criada por Esther. Até
hoje, o Geempa ensinou 22 mil pessoas a ler e escrever. Segundo
ela, o programa do governo Lula, o “Analfabetismo Zero”,
vai dar certo por ser o primeiro a utilizar professores não-leigos
e oriundos de redes de ensino, com treinamento específico.
Segundo ela, o “Analfabetismo Zero” pode ser infalível
justamente devido a este ponto. “Teremos 64 mil professores
oriundos de redes de ensino trabalhando a cada trimestre”,
revela Grossi, que está assumindo o cargo de secretária
nacional de Alfabetização.
A meta a partir de agora é educar cerca de
5 milhões de brasileiros a cada ano, para atingir assim os
20 milhões de analfabetos que assolam o Brasil — não
apenas os analfabetos totais, mas também os funcionais. O
curso dura três meses, durante os quais os educandos têm
três aulas de três horas cada durante a semana. “Ao
fim do trimestre, eles devem sair capacitados para escrever um texto
simples, com erros e pontuação, mas compreensível”,
arrisca Esther Grossi. Mas e o dinheiro? A alfabetização
de cada aluno não sai por menos de R$ 350. O custo total
do programa chega a R$ 7 bilhões. O dinheiro, é claro,
não pode vir do Ministério da Educação.
A pasta destinou para o setor apenas R$ 410 milhões —
dinheiro que cobre apenas os gastos com os professores, por exemplo.
A intenção dos responsáveis é que estados
e municípios entrem no combate. Fora isso, para chegar aos
R$ 7 bilhões, será preciso apelar também para
a iniciativa privada. O programa “Fome Zero” pode repassar
recursos para o programa do Ministério da Cultura, com o
pagamento de uma bolsa de R$ 100 cada.
Mas a polêmica não está no alto
custo do programa. Analistas do projeto prevêem que a solução
em três meses não seja satisfatória. Para eles,
o problema está na raiz, ou seja, na filosofia da secretária.
“Onde a Esther Grossi implantou esse programa até agora,
não foi fácil dar prosseguimento”, diz João
Monlevade, consultor do Senado Federal. “Se os alunos não
forem integrados num programa de escolarização permanente,
em três ou quatro anos estaarão analfabetos de novo”.
Com essa tese, a estratégia do “Analfabetismo Zero”
se preocupa mais em erradicar o mal do que educar os alunos de acordo
com os seus respectivos contextos. É um projeto planificado
para todo o território nacional. Para Clarete Traversini,
professora, é importante que a proposta seja acompanhada
de políticas de inserção social. “Só
vai dar certo se ocorrer uma adaptação do método
às realidades regionais”, diz.
Ou seja, a discussão que está dividindo
os educadores é a filosofia considerada “taylorista”
do “Anaflabetismo Zero”, que quer fabricar gente que
saiba ler e escrever em escala industrial, sem contar com o processo
de cada um. Segundo os detratores do plano, franqueado pelo ministro
Cristovam Buarque, ele possui um modelo cujos contornos estão
vinculados mais ao pensamento de Jean Piaget, que alguns coordenadores
de programas de ensino fundamental para jovens e adultos de algumas
universidades consideram ultrapassado. A alternativa, para eles,
é observar a realidade pessoal e social permanentemente de
cada um em primeiro lugar; em segundo, discutir a continuidade da
alfabetização dos educandos, após os três
meses.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), o percentual de analfabetos caiu bastante com o governo
Fernando Henrique Cardoso, mas é elevado à medida
em que a faixa etária aumenta. Conseguir reverter de maneira
radical não é tarefa simples, e todos os problemas
devem ser discutidos e contornados, antes de colocar a nau para
flutuar. Por um lado, os altos custos e por outro, calcular a real
eficácia da didática. O trabalho, como se vê,
é enorme e vai além da boa vontade. Afinal de contas,
este será o 25o plano de alfabetização elaborado
pelo governo desde 1854. Mesmo assim, o Brasil chegou ao terceiro
milênio com a vergonha de 15 milhões de analfabetos.
Se não parece muito, pelo menos imagine o mercado promissor
que nossos editores estão perdendo...
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