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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003



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LATIM EM PÓ #6

OU VAI OU RACHA
Governo Lula recorre a uma didática de uma ONG na tentativa de erradicar de vez o analfabetismo no Brasil, porém...

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

  Brasil tem 15 milhões de analfabetos. Nesse número, podemos incluir jovens e adultos. Já pensou? Tudo bem que o Brasil é um país continental. Mas além desse contingente, nós temos aqueles que apenas lêem e escrevem o necessário. Você, que é capaz de ler o que está escrito aqui, pode se considerar um pequeno prodígio. Não imaginamos a conquista de saber ler. Porém, como eu disse na primeira frase deste parágrafo, o Brasil possui 15 milhões de analfabetos. Imagine então 15 milhões de almas que não lêem João Cabral de Melo Neto, são zilhões de brasileiros que não leram uma frase de Paulo Coelho. E agora? Quem vai dar um jeito nisso? Ao tomar posse nesse mês, o Ministro de Educação, Cristovam Buarque, garantiu que em quatro anos não haverá um só brasileiro sem saber ler ou escrever.

Para a difícil empresa, o ministro investiu tal missão de iluminar essas almas ignaras na ex-secretária de educação de Porto Alegre, Esther Grossi. Seu plano é baseado na didática desenvolvida há cinco anos pela Organização Não-Governamental Grupo de Estudos Sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa), entidade criada por Esther. Até hoje, o Geempa ensinou 22 mil pessoas a ler e escrever. Segundo ela, o programa do governo Lula, o “Analfabetismo Zero”, vai dar certo por ser o primeiro a utilizar professores não-leigos e oriundos de redes de ensino, com treinamento específico. Segundo ela, o “Analfabetismo Zero” pode ser infalível justamente devido a este ponto. “Teremos 64 mil professores oriundos de redes de ensino trabalhando a cada trimestre”, revela Grossi, que está assumindo o cargo de secretária nacional de Alfabetização.

A meta a partir de agora é educar cerca de 5 milhões de brasileiros a cada ano, para atingir assim os 20 milhões de analfabetos que assolam o Brasil — não apenas os analfabetos totais, mas também os funcionais. O curso dura três meses, durante os quais os educandos têm três aulas de três horas cada durante a semana. “Ao fim do trimestre, eles devem sair capacitados para escrever um texto simples, com erros e pontuação, mas compreensível”, arrisca Esther Grossi. Mas e o dinheiro? A alfabetização de cada aluno não sai por menos de R$ 350. O custo total do programa chega a R$ 7 bilhões. O dinheiro, é claro, não pode vir do Ministério da Educação. A pasta destinou para o setor apenas R$ 410 milhões — dinheiro que cobre apenas os gastos com os professores, por exemplo. A intenção dos responsáveis é que estados e municípios entrem no combate. Fora isso, para chegar aos R$ 7 bilhões, será preciso apelar também para a iniciativa privada. O programa “Fome Zero” pode repassar recursos para o programa do Ministério da Cultura, com o pagamento de uma bolsa de R$ 100 cada.

Mas a polêmica não está no alto custo do programa. Analistas do projeto prevêem que a solução em três meses não seja satisfatória. Para eles, o problema está na raiz, ou seja, na filosofia da secretária. “Onde a Esther Grossi implantou esse programa até agora, não foi fácil dar prosseguimento”, diz João Monlevade, consultor do Senado Federal. “Se os alunos não forem integrados num programa de escolarização permanente, em três ou quatro anos estaarão analfabetos de novo”. Com essa tese, a estratégia do “Analfabetismo Zero” se preocupa mais em erradicar o mal do que educar os alunos de acordo com os seus respectivos contextos. É um projeto planificado para todo o território nacional. Para Clarete Traversini, professora, é importante que a proposta seja acompanhada de políticas de inserção social. “Só vai dar certo se ocorrer uma adaptação do método às realidades regionais”, diz.

Ou seja, a discussão que está dividindo os educadores é a filosofia considerada “taylorista” do “Anaflabetismo Zero”, que quer fabricar gente que saiba ler e escrever em escala industrial, sem contar com o processo de cada um. Segundo os detratores do plano, franqueado pelo ministro Cristovam Buarque, ele possui um modelo cujos contornos estão vinculados mais ao pensamento de Jean Piaget, que alguns coordenadores de programas de ensino fundamental para jovens e adultos de algumas universidades consideram ultrapassado. A alternativa, para eles, é observar a realidade pessoal e social permanentemente de cada um em primeiro lugar; em segundo, discutir a continuidade da alfabetização dos educandos, após os três meses.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de analfabetos caiu bastante com o governo Fernando Henrique Cardoso, mas é elevado à medida em que a faixa etária aumenta. Conseguir reverter de maneira radical não é tarefa simples, e todos os problemas devem ser discutidos e contornados, antes de colocar a nau para flutuar. Por um lado, os altos custos e por outro, calcular a real eficácia da didática. O trabalho, como se vê, é enorme e vai além da boa vontade. Afinal de contas, este será o 25o plano de alfabetização elaborado pelo governo desde 1854. Mesmo assim, o Brasil chegou ao terceiro milênio com a vergonha de 15 milhões de analfabetos. Se não parece muito, pelo menos imagine o mercado promissor que nossos editores estão perdendo...