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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

Equipe Edi็๕es Anteriores

LATIM EM PÓ #60

O ENXOVAL
Capitão Jango Jorge conhecia a Campanha como se fosse a palma da sua mão
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ra o tempo em que esse mundo velho não tinha porteira, e os campos ainda eram abertos. Não havia cerca entre eles. Somente lá no fim do horizonte é que se apanhava o gado e os avestruzes corriam coxilha afora...

Naqueles dias, existia por aqui um velho capitão do mato: seu nome era Jango Jorge. Era um homem magro, mas folgazão. O corpo chegava aos setenta anos — embora muitos achassem que tivesse muito mais invernos. Você podia não pensar, mas aquele homem de tez caída e enrrugada passou a vida cruzando fronteiras. Quando era jovem, correu mundo; foi de tudo, de peão a tropeiro. Quando era um moçetão, a sua fama correu léguas por conta das suas lides como contrabandista. Era afamado em todas as partes — certamente foi o maior de todos, se não o maior...

Peleou em muitas guerras, luto na revolução, pegou em armas uma sem conta de vezes (que nem ele mesmo se lembraria). Em idade provecta, virou homem de posses, embora fosse sempre o mesmo homem bondoso de sempre, e que escondia aquele passado beligerante. As crianças o adoravam. Sempre que via a piazada, atirava um punhado de moedas no chão, e dava frouxos de riso em vê-los pular no dinheiro feito pombos...

Na casa dele, sempre chegava gente. Estava bem casado e cercado de filhos — uns três moços já quase feitos e uma menina muito bonita e formosa, prendada. Tinha estudado fora e vestia os mais bonitos vestidos que as senhoritas da cidade usavam. E já estava noiva.

Então chegou a data do casório. O velho Jango estava distraído cuidando dos últimos detalhes. Faltava o noivo chegar e o enxoval de sua filha. Um dia depois, o moço apareceu, montado num cavalo. E os convidados iam chegando. Porém, faltava ainda o enxoval. Sem saída, foi o velho Jango tratar do assunto. Parece que era para ter sido feito em casa mesmo mas, por conta de alguns problemas, tiveram que encomendar de longe, mesmo. Enquanto a peonada cuidava de matar leitões e tirar os assados de couro, o velho contrabandista voltou à lida.

......

Aqui no Sul, o contrabando é uma atividade secular, e vem desde antes das reduções jesuíticas. Só que, naquele tempo, era algo comum, feita sem muita malícia. Uma grupo de cavaleiros se perdia lá pelas bandas do Oriente e voltava com uma potrada, na noite escura sem fim... A Campanha era um paraíso perdido: das margens cheias de arbustos onde centauros camperiavam, se via a paisagem sonolenta e um rio que corria sinuoso com a sua corrente murmurante se enrolava como uma serpente ao redor do Ibirocaí, enquanto um boi barroso pastava ao longe. O sol declinava e a lua se espreguiçava, perdida e altaneira no céu, quero-queros esvoaçavam e as águas assustadoras gemiam...

E o pessoal de lá vinha para cá e fazia a mesma coisa. Era uma terra de ninguém, velada pela rescolta de estrelas que se desenhava no firmamento. Só se tomava cuidado com os vigilantes guardas da fronteira, o resto era uma várzea grande sem fim. Depois das Missões, o governo passou a dar sesmarias. Quem mandava aqui era um chefe, chamado o capitão-general. Era ele quem garantia as porções de terra. E assim, toda a campanha antes deserta passou a ser povoada...e foi o fim do tempo do manda-quem-pode! Cada sesmeiro tinha um pequeno reino, e tinha por si um provimento de pólvora e armas. Os estanceiros geralmente mandavam seus ordenanças se bandear lá para o lado dos catelhanos, a fim de trazer especiarias, ou pólvora, balas, cartas de jogo e prendas de ouro para as senhoras, além de material para os arreios.

Alguns estanceiros iam eles mesmos, chefiando a tropa. Muitos faziam carreira nessa lida; levavam cachaça da boa ou fumo para troca. Os guardas sempre complicavam, mas os fazendeiros e comerciantes sempre se entendiam muito bem. Depois da guerra, a coisa foi mudando: muita gente formava milícias que migravam de cá para lá. E o comércio informal corria solto, a gauchada aparecia e se encostava, a região foi se tornando ligeiramente conflagrada. Ao mesmo tempo, quase tudo mudava de costada, de aguardente e remédio, até armas e água de cheiro. Enfim, polícia de menos e muamba de mais; o resto era a fronteira aberta...

.....

E o Jango Jorge era o maior de todos, se não o maior. O maior até o fim. Conhecia a Campanha como se fosse a palma da sua mão. Já na madrugada da véspera do casamento da sua filha, foi ele mesmo se bandear atrás do enxoval da moça. Passou a manhã seguinte, o dia, a tarde, a noite, e nada. No dia do casamento, até o entardecer, nada. Na estância, já havia uma gentarada sem fim: tios, primos, enteados, vizinhos, padrinhos, autoridades, clérigos, e muita gente jovem — enfim, uma algazarra de gente. A dança ia durar uns três dias, por certo. A bebida corria solto, copinhos de licor de butiá ou aguardente com losna corriam de mão em mão; a gaita roncava perto do fogo e palmas acompanhavam a tertúlia enquanto casais dançavam a vanera. Moças riam, as velhas cochichavam, a conversa corria frouxa...

A noite chegava, a mesa já estava pronta. Vez em quando, a Sinhá Vitória chamava um de seus filhos, e pedia para cuidar o horizonte, para ver se o pai aparecia com a tropa, lá pela volta da estrada. De repente, apareceu o noivo, nos trinques, pronto para o casamento, parecia um bibelô. Gente vinha a rua, outra gente cumprimentava, e ia ter com ele; faltava ainda a noiva, mas até agora, nada da moçoila. Como a sua vestimenta vinha com o enxoval, ela não podia aparecer. Falta o seu longo vestido branco, os seus sapatinhos brancos, o seu enorme véu, tudo o que o velho Jango cuidou de ir buscar nem que fosse no fim do mundo, só para trazer para a sua filha.

Anoiteceu.

Entrementes, alguém contou que a pobre noivinha estava a chorar. Será que estava nervosa? Nisto, eis que alguns dos convidados começaram a chamar seu nome. E ela, tão linda, tão meiga e tão compassiva, tão doce e tão inocente, apareceu na porta do quarto com o cabelo todo arrumado, a melena negra caindo-lhe às costas. Ela apareceu sorrindo mas — estranho — da mesma maneira em que parecia sorrir seu sorriso lindo, lágrimas grandes corriam de sua nívea face. Ria e chorava, e ninguém entendia o motivo. E começou a chorar forte quando, lá de fora, alguém gritou:

— Lá vem o Jango Jorge. E vem mais gente também!

Um jorro de vozes diversas irrompeu daquele silêncio. Foram todos para o lado de fora da casa, enquanto a noiva passiva ali ficou, na porta de seu quarto, a rir e a chorar — cada vez mais copiosamente e sem ninguém saber por que. Afinal, o pai chegava com o seu vestido branco, com o seu véu, as suas flores de laranjeira, os sapatinhos brancos...

Por reflexo, alguns foram tratar de iniciar os preparativos da cerimônia. E lá de fora, a algazarra foi diminuindo, até quedar num silêncio total. O mesmo silêncio que calava o vozerio esbugalhava os olhos da gente toda. Foi quando o pessoal ia na comitiva desceu do cavalo o corpo de um homem enterrado num poncho. Ninguém falou nada. Ninguém ousou perguntar nada: todos já haviam entendido tudo. Levaram o corpo empalado da sala para a mesa. Um dos membros da comitiva apenas disse:

— Os guardas nos viram, e chegaram em cima. — disse o homem, ainda resfolegante. — Tomaram todo o material, sinhá. Tomaram tudo. O capitão pegou o pacote e o amarrou no corpo, e se pôs a correr, tresloucadamente. Quando começou a ganhar terreno, a guarda abriu fogo nele. Pobre do seu Jango. Tivemos que brigar para ficar com o corpo dele.

Sinhá Vitória então desamarrou o embrulho do corpo do seu Jango, todo enjeitado. Desamarrou o pacote o abriu. Era o lindo vestido da sua filha, os sapatinhos, o véu...tudo empapado de sangue, o vestido todo pintado de rubro. Toda a brancura da vestimenta da noiva encarnado, as flores pintadas de vermelho — tudo em padrões variados, do vermelho alaranjado ao rubro viscoso, tudo embolado e rasgado de cascos de cavalo.

Então todos entenderam tudo, que a festa havia acabado e que a tristeza começava. Foi o que me contaram.