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LATIM EM PÓ #61

SAUDADES DE UM PRACINHA
Joel Silveira narra a campanha da FEB na Itália em O Inverno da Guerra
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

erta vez, o velho jornalista Joel Silveira recebeu uma jovem repórter que queria entrevistá-lo sobre a sua passagem como correspondente de guerra, pela divisão da Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, de largada, ela confessou toda a sua incúria e lhe perguntou:

— Afinal de contas, o que era essa tal de FEB?

O desconhecimento da história recente fez com que Joel decidisse escrever um livro sobre o assunto. Ato reflexo, desencavou de seus alfarrábios todas os seus cadernos, pesquisou todo o seu material de velho correspondente, suas memórias e escreveu O Inverno da Guerra . Lançado originalmente em 1984, o livro foi relançado em 2005 pela Objetiva, e é certamente um dos mais importantes relatos do que foi a campanha do exército brazuca na Itália, além de ser um relato da rotina do correspondente de guerra e os bastidores da famosa divisão em Porreta-Terme, até a histórica conquista de Monte Castelo, em 21 de fevereiro de 1945.

Talvez a maior virtude de O Inverno da Guerra é mostrar que os pracinhas passaram por todas as privações no Velho Continente, e a campanha estava muito longe de ser mero passeio, como Joel explica, na abertura. Uniforme pesado, sono mal dormido em tenebrosos sleeping bags, horas a esmo escondidos em bunkers , travessia de territórios sob salvas de canhões e granadas, campos minados e frio, muito frio. Mas o primeiro desafio foi logo no Brasil: o cruento regime do Estado Novo não admitia a possibilidade de que jornais enviassem jornalistas para o front .

Tanto que, no primeiro escalão da FEB, foram apenas profissionais de imprensa da Agência Nacional. A grande imprensa bateu pé, e a querela durou quase dois meses. A ameaça era de que, se o Ministro da Guerra não permitisse o envio de repórteres, eles iriam utilizar apenas agências internacionais, abrindo mão do material do Departamento de Propaganda de Getúlio Vargas. E o governo cedeu. Contudo, o problema não estava de todo vencido. Na Itália, eles tinham ainda a missão de conseguir quebrar o gelo com o comando da divisão, que aparentava hostilidade à imprensa não oficial.

Os jornalistas que viajaram com os pracinhas (Joel foi junto com Rubem Braga e Egydio Squeff, além de figuras como Thassilo Mitke, Harry Buckley e Hemingway, entre outros). Silveira era correspondente pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Antes de partir, ele ouviu a súplica de seu chefe:

— Seu Silveira, jornalista não é para morrer, é para mandar notícia.

Além da dificuldade de lidar com a entourage do Exército, ainda havia a competição entre os repórteres.

O Inverno da Guerra é a transcrição de todas as reportagens de Silveira para os Associados. Passar por seu evangelho de sangue é entrar de cabeça e galochas em pleno conflito, e a sua paisagem peculiar, a vida paralela em território inimigo, o dia-a-dia com o horror da guerra, tudo descrito em deliciosos detalhes e histórias curiosas — nada escapa ao olhar indiscreto do repórter. A rotina era se meter junto com algum destacamento em alguma posição de vanguarda. Surpresos, os soldados sempre lhe diziam: “Se vocês estão aqui é porque alguma coisa vai acontecer. Às vezes não acontecia muita coisa”. No Quartel-General onde ele escrevia as matérias, as paredes estavam cobertas de mapas, pin-ups e páginas de O Cruzeiro com as charges do Amigo da Onça . No front , os pracinhas pareciam o “Incrível Exército de Brancaleone”: barba crescida, cabelos emaranhados e sobrando nos capacetes, muitos não tomavam um banho de verdade há mais de mês.

O capítulo sobre Monte Castelo é quase um relato minuto-a-minuto de toda a sucessão dos acontecimentos. Os tedescos (como eram chamados os alemães) faziam chover obuses em todo o caminho da FEB, e todos sabiam que a conquista do monte dependia dos americanos, que deviam destruir o Monte Della Torracia. Os pracinhas tomar Castelo de assalto exatamente às 17h50, quando o major Franklin vocifera pelo rádio: “Estou no cume”. “Os alemães respondem com morteiros”, rescreve Joel. “Mas nada lhes adiantaria porque, como me diria na manhã seguinte o coronel, estamos em castelo e ninguém nos tira daqui”.

Em compensação, alguns momentos do livro são rigorosamente funestos, e exalam o cheiro de diesel e sangue estagnado das valas comuns dos floridos campos ensangüentados da Itália de Mussolini: como o dos diálogos com prisioneiros. Em Abetaia, por exemplo, um intérprete demonstrou à Silveira suas impressões do que conversou com os alemães. Segundo o homem, a maior parte deles sabem que a luta esta perdida. E por que lutam? “Nós lutamos porque temos medo da Gestapo. Se não lutamos e nos rendemos, a Gestapo fuzila nossas famílias”, disse um dos capturados.

Outro episódio patético é a do triste fim do alemão que agonizou até a morte num bunker perto de Castelnuovo. Os pracinhas tentaram atendê-lo, mas ele estava ferido de morte, com uma perna estraçalhada por uma mina. Os médicos tentaram aplicar pelo menos uma injeção de morfina, mas o “tedesco” expirou nos braços deles. “Era austríaco”, explicou um soldado brasileiro. “Passou a noite gemendo de dar dó. Pedimos uma ambulância, mas os caminhos ainda não estavam de todos livres das minas, e o carro não podia passar”. O repórter dos Associados perguntou aos soldados o porquê de tanto desvelo com o inimigo morto. A resposta foi rápida: “Vamos deixar o pobre em paz. Morreu e acabou-se”.

Como Joel avisara no começo do livro, a campanha da FEB não foi um passeio. Do outro lado da épica conquista de Monte Castelo, ele (e todos os demais) teve o dissabor de presenciar cenas como a morte brutal do amigo e oficial da Força, Max Wolf Júnior.

“Vi quando a rajada da metralhadora alemã rasgou o peito dele. Instintivamente, caiu de bruços”, revela. “O Tenente Otávio Costa, que estava do meu lado, no Posto de Observação, apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o sargento Wolf, ele balançou afirmativamente com a cabeça. Menos de uma hora antes eu estivera conversando com ele. Creio que foi a mim que ele fez as suas últimas confidências. Falou-me de sua filha, uma menina de 10 anos de idade que deixara em Curitiba. E como eu estivesse recolhendo mensagens entre os homens do seu Pelotão de Choque, já alinhados para a patrulha, o Sargento Wolf pediu-me que também enviasse a sua. Estão comigo as poucas linhas que sua letra fina e desenhada escreveu no meu caderno de notas: aos parentes e amigos, estou bem. À minha querida filhinha: papai vai bem e voltará brevemente”.

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Joel Silveira viveu o inferno por nove meses. Voltou cheio de histórias e de experiências, mas diz, em seu libelo: “a guerra é cheia de truques, todos nojentos. E um dos mais nojentos é fazer que alguém com quem com ela conviveu durante meses acaba sendo condicionado por ela. Por isso é que, naqueles dias, véspera de voltar para casa, eu sentia que não fora a guerra que havia acabado, mas também uma parte do que eu era antes de chegar à Itália. Por isso é que costumo dizer que cheguei lá com 26 anos e voltei com 40”. E conclui: “ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles meses perdi parte da minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida), nunca mais nos devolve”.