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26 de setembro a 11 de outubro de 2006

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LATIM EM PÓ #62

O TURISTA ACIDENTAL
A obra-prima da Literatura Argentina, quem diria, nasceu no Brasil
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

poema Martín Fierro , o maior épico das letras argentinas nasceu no Brasil. Lenda ou verdade? Por muito tempo, os “hermanos” brasileiros se irritaram com essa tese, que consideravam demonstração da nossa tradicional "empáfia revanchista", aquela história toda. Bobagem pouca para esse tipo de rivalidade tacanha. Mesmo assim, para eles, soa quase que insuportável que a criação imortal de José Hernandez tenha nascido na terra da palmeira. Uma coisa é certa: a primeira parte do épico foi esboçado em Santana do Livramento, no Brasil. Um pesquisador, José Saldaña, resolveu seguir os passos de Hernandez após o seu exílio, em 1870, quando o poeta, que era contra a autocracia patriarcal exercida por Justo José de Urquiza y García, foi obrigado a fugir das tropas legalistas, com a morte do ex-presidente, em abril daquele ano. Apesar da rivalidade entre Argentina e Brasil, a verdade é que esta rocambolesca história serve para mostrar a curiosa trajetória do criador do poema e do mito do seu secular personagem, e de como ambos se entrelaçam entre a história e a ficção.

Além de escritor, o argentino José Hernandez também era literalmente soldado de suas causas políticas. Muito jovem, e vivendo num tempo em que imperava o caudilhismo (o caudilho é como eram chamados os clássicos líderes políticos do Cone Sul), o criador de Martín Fierro pegou em armas para derrubar Rosas. Apoiou Urquiza, quando Mitre derrotou o vencedor de Rosas. Pobre, virou peão. Conheceu a fome e a miséria dos campônios do seu tempo, embora não permanecesse distante do ofício das Belas Letras. Atraído pelo universo gauchesco, escreveu Vida del Chacho , biografia do caudilho Peñazola. Depois da Guerra do Paraguai (1865-1970), viveu de cargos públicos. Foi quando outra sangrenta revolução típica dos pampas o tirou da vida oficialesca. Em abril de 1870, a província de Entrerrios foi conflagrada. Um caudilho, Ricardo López, se sublevou contra o governo. Uma tropa rebelde tomou o palácio de assalto e matou o governador. Hernandez se somou às hostes que seguiu até Concepción del Uruguai e foi aclamado o novo governante. O presidente argentino, Domingo Sarmiento, não deixou por menos: mandou uma expedição militar liquidar com os rebeldes. A pugna durou meses - até que, derrotados, os revoltosos bateram em retirada. Seus líderes ou fugiram para o lado oriental ou para o Brasil.

Degredado e foragido, José Hernandez foi parar em Livramento. Ali, ele se reuniu com Juán Piran e Pedro Aramburú, que lutaram com ele contra Urquiza. Pesava sobre eles ainda a acusação de terem matado o governador entrerriano (em carta pública, eles alegaram que foram compelidos apenas a prender o general, nada tendo a ver com o assassinato). De sua vida obscura no Brasil, muito tem sido descoberto - e muitas lendas foram se incorporando à história. Consta que, entre abril de 1871 e fevereiro de 1872, trancado num quarto de um "bolicho”, situado na esquina das ruas Rivadávia Corrêa e Uruguai, e munido de um caderninho de armazém, o poeta compôs os primeiros treze cantos do seu libelo contra a desigualdade social de Martín Fierro .

Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela;
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria,
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.

Povoava a sua imaginação toda a sua vida anterior, a paisagem bruta quando era um peão errante e mendicante. Ainda durante sua fuga, ele se lembrou de ter cruzado com um tipo folgazão que conheceu na lida pampeana, um anti-herói “gaucho”, um quixotesco camponês que combatia a injustiça, sendo guiado apenas por sua própria lei. Hernandez quis compor um sentimento popular e conseguiu erguer um inexpugnável monumento literário. Em parte, sustenta o estereótipo do romântico gaúcho literário mas, como diz Jorge Luís Borges, por outro, ele desmente o próprio mito ao se querer como um documento de denúncia da realidade dos quatreros (contrabandistas de gado), cuchileros e outros tipos selvagens e errantes do lugar. Por sinal, o seu personagem é a imagem inversa da que foi entronizada pelo folclore: Fierro é provocador, preconceituoso, violento e machista até.

O personagem real inspirou o escritor a catalisar todo seu idealismo em sua obra-prima. Porém, apesar de estereotipado como o bom silvícola, consta que Martín realmente existiu: Rafael Velasquéz, um pesquisador uruguaio, encontrou o personagem de Hernandez em um ofício onde nosso herói foi sentenciado ao serviço de armas do “Battalón 11 o de Linea”, o “indivíduo Melitóin Fierro por feridas”.

O caderno original correu mundo até ir parar no Museu Histórico Nacional, em 1998, quando se achava que o manuscrito tivesse sido extraviado para sempre. Outro problema é o de memória: pouco se sabe a respeito da vida do poeta em Livramento, além do depoimento de Pedro García, o filho do espanhol que hospedou José naquele período, datado dos anos 50. Assim, os relatos de García e de Fernandez Saldaña são os principais documentos que comprovam essa tese do Martín Fierro brasileiro e dos passos camuflados de Hernandez pelas ruas da cidade, que também tratou de camuflar o seu mais ilustre turista acidental: a maioria dos pedestres que circula pela esquina da Rivadávia com a Uruguai sequer pára diante das placas fixadas no prédio centenário do solar onde José Hernandez passou um ano escrevendo, jogando truco e filosofando. O casarão também foi desfigurado com o tempo. Na fachada, hoje funciona uma boutique. No porão, existe uma oficina de conserto de ventiladores (...).

Então, caros leitores argentinos, já sabem: Martín Fierro é brasileiro, não esqueçam disso!