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13 a 28 de outubro de 2006

Equipe Edições Anteriores

LATIM EM PÓ #63

O DISCO NO TEMPO DO CÓLERA
Qual será o futuro da música gravada? As gravadoras poderão domar o download desenfreado de Mp3? Até onde o artista lucra ou perde com tudo isso?
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

sessão de debates da Playboy de setembro entrou na velha/nova discussão entre artistas, gravadoras e ouvintes acerca do direito autoral da pirataria e de músicas baixadas pela Internet, mas decidiu abrir o foco em três opiniões distintas: uma, a do jornalista e crítico musical Arthur Dapieve, o presidente da EMI Music, Marcos Maynard, e o compositor Marcelo Nova. A despeito de não serem rigorosamente representantes de cada classe, não deixa de ser curioso observar a posição de fontes tão díspares quando interessantes. O formato CD vai perder o seu significado de obra de arte? As gravadoras poderão domar o download desenfreado de Mp3? Até onde o artista lucra ou perde com tudo isso?  

Consumidor do tempo do vinil, Dapieve se diz um preclaro “fetichista”, prefere adquirir os álbuns originais em formato CD e só usa a rede mundial de computadores para comprar mais discos. Para ele, o acesso virtual é disperso e desigual e, de certa forma, acredita que as gravadoras têm ainda a missão de funcionar como uma peneira no lançamento de novos artistas. Mais do que isso, ele entende que se a música tem fácil acesso, ela tem menos valor do que o disco adquirido na loja: “a descoberta da música, assim, caminhava lado a lado com a formação de um espírito critico”, revela.

Já Maynard se debruça sobre o fenômeno da entrada da música digital e analisa a forma como os tecnocratas da indústria fonográfica se colocam diante dessa questão. Ele diz que, por um lado, o CD terá vida longa, ao mesmo tempo em que as gravadoras vão aprendendo a domar as ferramentas da Internet ao seu favor. Ele vê pontos positivos no mundo digital, como a possibilidade de “testar” novos artistas na Web através de sua finalidade involuntária de “marketing informal”. Já o trabalho das gravadoras permanece na qualidade de focar o talento dos novos artistas.
 
Sobre o problema do mercado fonográfico, Marcelo Nova entende que a questão não se restringe a veículos, mas sim a quem os dirige. Para ele, a indústria se divide entre profissionais empreendedores e mercadores baratos de “mentalidade fenícia”, gente que, para o compositor, pratica o “mercantilismo do populacho, que se acomoda à própria falta de gosto”. A despeito disso, diz Nova, hoje eles responsabilizam o mercado negro pelo estado enfermo da indústria. “Não foi apenas a pirataria o fator desencadeador dessa crise”, diz ele. “Foi a ganância, aliada à incompetência e a um profundo desamor pela música”.

Pegando o mote do Dapieve, resta a pergunta: a música de graça perde valor?  Para os fetichistas dos tempos do vinil, certamente que sim. Mesmo na era do CD, a gente sabe que um disco como o Axis: Bold As Love, do Jimi Hendrix, perdeu muito no formato digital e mesmo os álbuns lançados hoje pagam tributo ao modelo do tempo do bolachão, sem, no entanto, restituir o brilho dos velhos tempos. Isso explica o motivo pelo qual os “vinilistas empedernidos” estão hoje buscando exumar digitalmente a nostálgica sonoridade do bom velho mono com chiado como o motorista dos tempos do DKW cultua o velho carburador e o pneu com banda branca na calota.

Com relação ao valor da música comprada e ao download, existe uma tendência, por parte dos detratores do Mp3, que esse formato é prestigiado somente pelo público jovem e que sua disseminação é desigual, o que é uma inverdade. Quem sabe utilizar esse tipo de ferramenta, descobre um catálogo que, no girar da roda da fortuna, as próprias gravadoras não se interessam em relançar ou divulgar. Um exemplo são os discos virtuais temáticos, como os Brazillian Nuggets (inspirados nos Nuggets americanos), que se especializam em um arquivo tão raro quanto original, esquecido pelos escaninhos do tempo.

Só para pegar um exemplo, driblando toda a morosidade e a burocracia para colocar esses discos nas lojas, é possível ao internauta ouvir com qualidade, pérolas do rock brasileiro dos anos 60 e 70, como Módulo 1000, a Bolha, Baobás, Liverpool Sound, Luizinho e seus Dinamites, entre outros. Para quem acredita que esse tipo de material se dissemina de forma “desigual”, graças a fóruns de discussão como o Orkut, gêneros, estilos e intérpretes são relacionados, selecionados e são acessíveis para qualquer um que saiba utilizar um site de buscas. Graças a isso, eu posso ouvir um disco que sumiu das lojas, que não está à venda em CD ou que não será lançado no Brasil. E na Internet? É uma verdadeira “festa no apê” virtual: eu posso achar títulos antes inacessíveis, e que não existem nem em balaio de camelô: discos como o Live At Newport, do Duke Ellington, Stay With The Hollies, Sun Ship, do John Coltrane, Going Places, do Herb Alpert & Tijuana Brass, entre tantos outros. Como diz Marcelo Nova em seu artigo, ao ser interpelado pelo fato de que artistas como ele também são prejudicados porque muitos baixam suas canções na rede: “que baixem, pois se baixam é porque não as ouvem tocar no rádio”.  O que fazer diante de uma objeção inatacável?

Contudo, ao que concerne à pirataria de discos, o presidente da EMI acredita que, no Brasil, falta “vontade política” para combater essa prática de maneira efetiva. Mas sobre isso, cabe ressaltar que o principal alvo desse mercado negro são os lançamentos, que são onde os selos depositam toda a sua munição. Para eles, é mais prejuízo copiar Sandy & Júnior e Skank do que Celly Campello, Johnny Alf ou Pretty Things (e tantos outros que a gente nem suspeita), por exemplo. Já na esteira do download de arquivos pela Internet, pelas palavras de Marcos Maynard, a própria indústria está aprendendo a lucrar usando o mesmo expediente utilizado pelo Emule e o Soulseek. A verdade é que a música digital é uma realidade tão sólida que mesmo a legalização de programas como o Kazaa ou o fechamento do WinMX são uma gota no oceano de páginas e mais páginas de upload (um processo que permite ao usuário a anexação de arquivos na Web para disponibilizá-los a outros) trocadas democrática e cartesianamente em fóruns da Internet.

Se não se pode suplantá-los, então a boa medida é aliar-se a eles. Ano passado, o mercado americano já começou a faturar no mundo digital. No exterior, empresas do gênero pretendem franquear o “baixamento” gratuito do seu catálogo, mas utilizando banners das páginas e congêneres como forma de obter faturamento direto. Aliás, como essas últimas três palavras soam bem. Honni soit que mal y pense...