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01 a 16 de dezembro de 2006

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LATIM EM PÓ #65

RAPSÓDIA HÚNGARA
Quando Puskas assombrou o mundo com o seu futebol espartano e monumental
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

elson Rodrigues dizia que não há nada mais exasperante do que o gênio do futebol: ele tem uma categoria que humilha e ofende o adversário. E o que dizer então do Honved, equipe que contava com onze gênios? Na primeira metade da década de 50, o time do Exército Vermelho da Hungria foi imbatível. Era uma força da natureza: ele ventava, chovia, trovejava. Cada partida sua era uma rapsódia de futebol em puro estado de graça. Contava com alguns dos maiores craques de todos os tempos. Bozic, Czibor, Kocsis e, é claro, Ferenc Puskas, um dos maiores jogadores de futebol de seu tempo, que morreu este mês, aos 79 anos, depois de lutar desde 2000 contra o Mal de Alzheimer, galopante como ele.

O time dos militares do Honved (ou, os 'defensores da pátria') como um grande escrete surgiu para o mundo em 1949, quando o liliputiano Kispet (time de um bairro de Budapeste) chegou à primeira divisão com Puskas como o seu spalla atraindo as atenções de Gustav Sebes, então o vice-diretor do Comitê de Esportes húngaro. O Major Galopante (como ficou conhecido, já que era o seu posto na caserna) contava dezenove anos, idade de servir ao Exército. Junto com Bozic, foi prontamente convocado. Aqui começava o sonho do espartano futebol húngaro, que assombraria o mundo, cinco anos depois.

Montadas as correias e rolamentos que faltavam para construir a máquina de fazer gols, o Honved passou a acumular títulos nacionais, como os de 1950, 1952, 1954 e 1955, ano em que o clube chegou ao limite de permanecer mais de trinta jogos invicto, façanha que nem o Brasil foi capaz de realizar. Do escrete vermelho, pelo menos sete atletas foram cedidos para a seleção magiar, e que fundiu o clube com a própria história do futebol húngaro, ao conquistarem o título olímpico de Helsinque ,em 1952, e o vice-campeonato mundial na suíça, em 1954, quando foram surpreendidos pela Alemanha, cujo gol do título só não foi tão contestado quanto deveria (o gol da vitória alemã foi de impedimento) porque eles estavam fartos de ganhar. Puskas, por exemplo, era um artilheiro incansável: o Major chegou à marca de mais de um gol por jogo — oitenta e cinco gols em oitenta e quatro partidas — um verdadeiro fenômeno.

E Ferenc era mesmo fenomenal. Físico atarracado, ligeiramente fora de forma, compensava a sua compleição física adversa num futebol mágico, cerebral. Foi o carrasco da gloriosa Seleção Inglesa. Em 1953, os magiares surpreenderam os jogadores britânicos no alçapão de Wembley: levaram um sonoro 6x3 do escrete húngaro. Quando o time de sua Majestade tentou devolver a goleada, em Budapeste, tomou outra sova. 7x1.

Se não havia nenhum problema dentro das quatro linhas, fora delas, a situação era outra. A mesma politicagem que criou o Honved cuidou de desfazê-lo. Quando os 'defensores' jogavam contra o Atlético de Bilbao, pela Copa dos Campeões, a Europa foi surpreendida pela fato de que a Hungria havia sido invadida pelas tropas do Pacto de Varsóvia. A tentativa frustrada de se livrar do jugo soviético obriga Moscou a ocupar o país magiar. Liderados por Puskas, o time resolveu não retornar à terra natal.

Mesmo vetados pela Fifa, o clube passou a excursionar pelo mundo, a fim de realizar amistosos, chegando a disputar alguns jogos contra selecionados de times cariocas. Contra o Flamengo, perderam de goleada: 6x2. Sucumbiram ao Botafogo, quando o Glorioso abateu o exército rubro por 4x2. Era o fim. Cansados da burocracia da Federação Húngara de Futebol, proibidos pela Fifa de disputar mais partidas, os atletas optaram pela diáspora. Do grupo, oito retornaram à Budapeste e os restantes se espalharam pela Europa Ocidental. Puskas foi para o Real Madrid, porém passou por uma suspensão de dois anos (imposta pela Federação Internacional por ter se desvinculado do Honved sem autorização). No clube espanhol, mesmo com 31 anos, o Major Galopante ainda viveria anos de ouro no Real e auxiliaria o time do Santiago Bernabeu à conquista do Penta no Velho Continente.

Puskas, coberto de glórias, morreu pobre, depois de militar pelo jornalismo. Não que uma coisa tenha ver com a outra. Mas, falando sério: para quem gosta de futebol ou não conhece nada sobre ele, vale a pena ler a sua melhor biografia, Puskas: uma lenda do futebol, de Klara Jamrich e Rogan Taylor.