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04 a 19 de fevereiro de 2007

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LATIM EM PÓ #67

QUEIROSIANAS
Crítica de costumes era o motivo condutor dos romances do escritor português
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

ão me lembro de haver confessado antes aqui mas, antes de mais nada, sem cerimônia eu vos digo: meu escritor preferido é Eça de Queirós. Porém, antes de mais nada, creio que seria preciso diferenciar o escritor do romancista. Eis que, no tocante à obra do insigne mestre de Póvoa de Varzim, me atrai antes o primeiro do que o segundo. Em romance, penso que até Camilo era imbuído de maior capacidade de observação psicológica e imaginação transfiguradora. (parêntese: me recordo de ter lido numa carta dele à Teófilo Braga que ele sentia o processo como ninguém, mas lhe faltavam “as teses”). É possível que muito dessa dissociação em sua obra se deva à sua confessa incapacidade de se desprender da impressão original da sociedade que lhe cercava e os princípios ético-estéticos que moldaram as suas propaladas “teses” na sua fase literária correspondente ao narrador naturalista de O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro.

Como se sabe, naquele momento Eça pretendia fazer um inquérito da vida e dos costumes portugueses e a sua maneira de quebrar lanças era com a pena de seus livros, e usando como munição aquelas teorias ‘finisseculares’ como o Positivismo. Com sua ironia zombeteira e a sátira cáustica e dissolvente, o autor português se debruçou sobre os problemas da sociedade de seu país. Não cumpriu de todo o seu projeto de passar a limpo  a high life lisboeta e sua fauna ululante de políticos, financistas, literatos, fidalgos mas, como disse Massaud Moisés, pintou um largo afresco da sociedade portuguesa em decomposição.

Pois essa “sátira cáustica” é, em minha opinião, o seu irresistível fundamento, é justamente o melhor do Eça. Melhor depois dos seus personagens mais caricatos. É por causa disso que eu o considero mais um escritor do que romancista. Como tal, pela sua capacidade de transmitir para o papel o seu ideário estético-ético no que ele diria (como quase disse à Ramalho Ortigão) um autor no limite da fantasista-humorista.

Pego o exemplo de Os Maias (se você assistiu ao assassinato realizado pela Maria Adelaide Amaral, na minissérie televisiva, esqueça: talvez o melhor ali tenha sido colidir os enredos de A Capital e A Relíquia mas, ainda assim, está longe da experiência de flanar a vista por todas as setecentas páginas da obra). Como romance é um gigantesco e aguado folhetim sobre o amor físico (numa espécie de atitude de incesto consciente) entre dois irmãos (Carlos e Maria Eduarda). Mas a caracterização dos personagens (e paisagens), a fina estruturação de frases e a construção (e é sempre surpreendente descobrir coisas novas a cada leitura) de expressões ricas é um manancial expressivo. João da Ega (um dos meus personagens preferidos, sem dúvida), por exemplo, sempre me pareceu ser a versão literária do próprio Eça.

Taveira, Vilaça, Cruges, Alencar, Cohen, Castro Gomes, Dâmaso, tão dândis quanto fúteis, gommeux, homens de sport e de cocottes... Além dos personagens, algumas situações hilárias como diálogos socraticamente hilariantes como o Ega ameaçando os céus com um guarda-chuva, e berrando: “estes burros destes jornalistas! São a escória da sociedade!”. O livro é pleno de passagens como estas, onde Eça dá rútilas patadas em tudo e todos, com inefável cinismo, e com expressões ou atitudes dos seus personagens (em geral, os masculinos). Como quando Carlos queria fazer um romance estilo Zola sobre o mundo de “fadistas” que o cercava.

Os seus melhores diálogos “teóricos” nos Maias contêm ecos das discussões que começaram nas conferências do Cassino Lisbonense (se lembram do cursinho? Hein? Hein?), em 1875 (a exótica guerra dos realistas com os românticos), no auge do movimento realista na terra de Camões. Ali, ele faz inclusive o mea culpa do movimento na boca dos personagens. Dado momento, Ega diz que o Realismo era pouco científico e muito fantasista: “não discutamos o excremento”, responde Alencar. Outras discussões versam sobre a política portuguesa, sempre entremeados com conclusões irônicas que são o próprio Eça, como “Portugal não precisa de reformas, mas é da invasão espanhola”. Outra antológica: Carlos encontra Alencar, e lhe cobra as prometidas “memórias” em livro. “Estou à espera que o país aprenda a ler”, responde o poeta, diante da sua homeopática dose de bebida.

A discussão entre correntes literárias (típica daquele quarto do século XIX) permeia os diálogos da entourage de Carlos da Maia. Um soneto descritivo era realista porque era paisagem, onde se copiava “a realidade”. No último terceto,  Alencar descreve uma inglesa, de cabelos brancos, puxando um burrico por uma vereda; então ele revela a “nota realista”:

E, ao lado, o burro, pensativo, pasta.

— Eis a realidade — explica o poeta. — Não há nada mais pensativo do que um burro...

Aliás, o Ega merecia um “Obina Facts” à altura do centroavante. As frases do personagem de Os Maias são lapidares. E pateticamente não saíram de voga. Ao conceber um cenáculo de bacantes, Carlos reclama da falta de mulheres. João diz: “se não apareceram, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, idéias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega. E é em segunda mão, não foi feita para nós; fica-nos curta nas mangas”. 

Mas o livro que eu mais aprecio do mestre de Póvoa de Varzim não é nem Os Maias, nem O Primo Basílio, mas um romance (ops!) que, a rigor, só não é melhor porque Eça morreu sem corrigi-lo, e que seria publicado apenas vinte e cinco anos depois da sua morte: A Capital.  Nesse livro, Queirós levou a sua análise cáustica da sociedade lisboeta (“Lisboa é Portugal”, diz um personagem. “O resto não há nada, só alguma coisa entre a Arcada e S. Bento!”) e a sua “caterva de galegos covardes”. A história gira em torno de Arthur Corvelo, um poeta de Oliveira de Azeméis que deseja vencer na cidade grande.

Graças à uma herança, ele pôde realizar em parte o seu sonho. Porém, logo é cortejado por uma choldra de interesseiros de estirpe, que passam a se aproveitar da sua ingenuidade de rapazote do interior. Sob a promessa de publicar seu livro — o duvidoso Esmaltes e Jóias — eles lhe prometem os píncaros azulados da glória literária mas só lhe fazem tirar-lhe todo o dinheiro (ou seja, embuste editorial e marquetagem não são apanágio dos tempos modernos...). Até que, no fim, enxovalhado, abandonado e pobre, não lhe resta mais nada  não ser voltar para o fim do mundo de onde não deveria ter saído...

A Capital, por sua vez, poderia ser apenas mais um livro de cunho de denúncia social, tão ao vetusto estilo do Eça da segunda fase, exceto pelo fato que, por seu turno, o enredo pretende ir além: mais do que o enquadramento realista, observa-se o desenho psicológico do quixotesco Arthur, do idealismo à débâcle, onde o pobre personagem vagueia por um denso turbilhão de filigranas emocionais. O seu deslumbramento de moço em Lisboa, a alegria de se identificar com seus amigos (da onça), o ouriço de ver seu pequeno volume ser impresso, os seus amores por uma solerte cocotte espanhola, até descobrir que jornalistas, críticos e literatos o desprezam — mas não recusam o seu dinheiro.

Como no melhor estilo queirosiano, o autor parece estar mais preocupado em demonstrar a penúria de Corvelo do que em torcer por ela; em determinado momento, fica claro qual será o termo da história. E os altos e baixos transitam pelo texto justamente para mostrar a vulgaridade dos antagonistas de Arthur ante a perda da dignidade deste. Um livro surpreendente. Resta ao leitor se projetar na desgraçada e lúgubre trajetória do poeta, que enfim se dá conta de ter bancado o tolo, e a mostrar a nós que também não estamos sozinhos nessa...

E isso é o melhor do Eça: com consciente lucidez, ele nos mostra que, como disse alguém, antes de servir à literatura, um livro serve antes à vida e à sua exegese, tornando-nos mais humanos e, portanto, mais dignos da espécie a que pertencemos.