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27 de fevereiro a 12 de março de 2003



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LATIM EM PÓ #8

CHÃO DE ESTRELAS
Modernista e revolucionário, Orestes Barbosa era um romântico crônico e seresteiro incorrigível

por Marcelo Xavier (highway61@bol.com.br)

  jornalista, poeta e compositor Orestes Barbosa (1893-1966), aclamado pela sua mais notável composição, a seresta “Chão de Estrelas”, era genial principalmente por conta de sua contradições como homem da Língua. Como jornalista, era um homem de seu tempo. Como escritor, em Samba, composto em parceria com o desenhista (e também compositor) Nássara, ele foi capaz de captar o momento em que a batucada se tornava urbana. Na obra, ele chegou muito perto das experiências modernistas de Mário e Oswald de Andrade, fazendo paródia, frases estilo “câmara-na-mão” e linguagem despojada. Porém, como seresteiro, não havia ninguém mais conservador do que Orestes.

A seresta, tal qual conhecemos hoje, sempre foi tributária do formato das valsas-canções e das modinhas do século 19. Se a temática deveria ser langorosa e sentimentalóide, a forma dos versos também possuía uma fórmula singular: a sextilha. Composta por seis versos enfeixados, a sextilha é um formato poético arcaico, que reapareceu durante o Romantismo, e que fez casa dentro do formato peculiar do tempo de valsa típico da seresta. Foi no formato de sextilha que Orestes Barbosa compôs as mais belas páginas do cancioneiro popular, entre elas, “Quase que eu Disse” e “Arranha-Céu”, todas em parceria com Sílvio Caldas (1908-1998), o maior intérprete de serestas de todos os tempos. Juntos, Orestes e Sílvio se tornaram expoentes desse tipo de música, que obteve enorme popularidade na primeira metade do século passado.

A diferença da seresta para a modinha: se a segunda era inspirada em motivos do tempo do Império, a seresta era urbana, como o samba, como “Suburbana”, anos depois gravada por Carlos José. Aqui, Orestes foi moderno na temática, mas rebuscado no formato da canção:

Zona norte da cidade
Residência da saudade
Onde nasceu o teu cantor
O teu cantor comovido
Que sonha com teu vestido
Que morre por teu amor!

Nada mais romântico do que morrer de amor, mas a “zona norte da cidade” modernizou a lírica. Porém, nota-se o emprego da sextilha, com rigor. Outro exemplo de sextilha em seresta, em “Arranha-Céu”:

Cansei de olhar os reclames
E disse ao peito: não ames
Que o teu amor não te quer.
Descansa. Fecha a vidraça
Esquece essa desgraça
Esquece essa mulher!

De novo o rigor parnasiano na versificação, mas cujo arcabouço arcaísta se choca com palavras “modernas” (“reclames”, anúncios) ou prosaicos (“vidraça”).

A verdade é que Orestes Barbosa era um versificador de mão cheia. O hábito de compor poesia para musicar em serestas e a sua enorme cultura o transformaram num poeta singular: o que consegue falar ao coração das pessoas ao utilizar estereótipos do romantismo, temas recorrentes em canções de amor ou dor-de-cotovelo, e incluir ali elementos típicos de seu tempo, o palco iluminado, o elevador, o reclame. Mesmo preso ao formato das modinhas imperiais, que preexistiram até o começo do século 20, ele soube conciliar as duas coisas.

Sua obra-prima, “Chão de Estrelas”, é outro exemplo de sua obsessão por sextilhas. O formato torna mais fácil para musicar os versos, cuja tarefa ficou a cargo de Sílvio Caldas. “Chão de Estrelas” acabou se transformando no que Sílvio Túlio Cardoso chamaria de a maior seresta brasileira, certamente por falar do trinômio “cabrocha-luar-violão”. Porém, antes da música, os versos existem. Mesmo considerada como algo esteticamente ultrapassado, é incrível como ainda existem pessoas interessadas na magia da seresta e na genialidade dos versos de Orestes Barbosa que, mesmo sendo exaltado como compositor popular, é negligenciado como escritor e poeta.

Mas a canção que eu mais aprecio da dupla Sílvio-Orestes foge ao esquema. “Seresta”, conhecida pela introdução, que se tornou marca registrada de Caldas, é bastante singular. Começa com duas quadras, a terceira é sextilha e a quarta, quintilha. Nas duas primeiras, Orestes usa rimas cruzadas, muito raras em sua obra.

Dorme, fecha este olhar entardecente
Não me escutes, nostálgico, a cantar
Pois não sei se, feliz, ou infelizmente
Não me é dado beijando te acordar

Dorme, deixa meus cantos delirantes
Dorme, que eu olho o céu, a contemplar
A lua, que procura diamantes
Para o teu lindo sonho ornamentar

Forçado pelos decassílabos de Orestes, Sílvio se habituara a compor em cima dos versos, com a melodia deitada sobre o texto em compassos longos, é o que se percebe em “Serenata”. A seresta termina assim:

Na serpente de seda dos teus braços
Alguém dorme sem saber,
Que eu vivo a padecer
E o meu coração, feito em pedaços
Vai sorrindo ao teu amor
Mascarado nessa dor.

No teu quarto de sonho e de perfume,
Onde vive a sorrir teu coração
Que é teatro da ilusão
Dorme, junto a teus pés, o meu ciúme
Enjeitado e faminto como um cão.