| LATIM EM PÓ #14
A VELHILÍNGUA
Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades, mudam-se os governos e os sistemas políticos, mas
o que fica e o que há de novo na velha linguagem do poder?
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
livro 1984, clássico da literatura engajada e testamento
político de George Orwell (Eric Blair, 1903-1949), escrita
como um libelo contra o autoritarismo do regime stalinista na União
Soviética, conta a história de um mega-bloco europeu
que vivia no futuro sob a égide de um governo opressor, manipulando
seus habitantes através de um sistema rígido e excludente
e controlando a vida de cada um através de câmeras
imensas, chamadas tele-telas. Como se não bastasse, havia
um outro tipo de controle, efetuado pela linguagem. A novilíngua
(newspeak), idioma do mega-bloco da Oceania, seria uma espécie
de adaptação do inglês. O objetivo da implantação
do novo idioma seria reduzir o vocabulário ao extremo para
diminuir a capacidade de pensamento, tornando os cidadãos
mais vulneráveis às vontades do Partido. Assim, a
gradativa eliminação de sinônimos e a fusão
de palavras — muitas delas originalmente antitéticas
— tornavam a abstração da realidade impossível.
A recriação do novo léxico que era criado e
recriado criava palavras que, na mente das pessoas, ganhava um significado
que, no conjunto da língua, serviriam como uma forma de coesão
social. Não haveria contradição pelo controle
absoluto do pensamento — esse é o futuro imaginado
por Orwell, que não viveu até a morte de Stálin,
nem assistiu ao degelo político ocorrido pela Glasnost,
na década de 80. Mas, e a novilíngua? O que há
de real e de abstrato em seu conceito?
Mês passado, Zero Hora publicou uma
curiosa reportagem, intitulada “PT cultiva novo jargão
do poder em Brasília”. A matéria versava a respeito
da padronização de expressões oriundas de debates
partidários e que se transformavam em doença fácil
na boca de representantes do governo Lula. As expressões
ditas em voga vão de sofisticados neologismos a expressões
pouco explicativas e quase indecifráveis. Para ilustrar ,
aqui vão alguns exemplos: “concertação”,
“precarizar”, “avançar no acúmulo”,
“eixos estruturantes”. De acordo com a reportagem, tais
expressões estão no "dicionário"
de ministros, deputados e até de filiados que dialogam por
meio de canais restritos da Internet.
Em geral, tal excentricidade seria perdoável
no caso do jargão. Por exemplo, economistas geralmente apreciam
inventar palavras a fim de, não sem uma certa dose de sadismo,
explicar coisas simples de maneira complexa. O economês,
como todo jargão, é típico de um determinado
ofício e é um dos chamados níveis de linguagem.
Seria um fato contingente: um surfista não pode ser culpado
por falar como um surfista, e por aí vai.
Mas quando se trata de política e de lidar
com certas verdades perante a sociedade, é comum ver e ouvir
representantes de governos usando de dissimulação
semântica em neologismos pomposos ou alegorias pseudo-bíblicas
ou até metáforas culinárias, que são
matéria-prima usada para discursos, depoimentos e entrevistas
em geral. Como são todos homens públicos, suas declarações
vão parar em página de jornal e azar do leitor que
não entender o que eles falam — é o inevitável
decifra-me ou devoro-te. Pior: além do hermetismo,
ainda existem os pernósticos regionalistas, que não
resistem a um guimarãesrosismo como caco na hora
de fazer uma concertação de um discurso ou
fazer uma reles declaração de algibeira.
Todos se lembram quando Delfim Netto assumiu em 1979 no lugar de
Mário Henrique Simonsen para reiterar que o importante era
exportar e que era preciso esperar o bolo crescer para dividir,
acrescentando o crescimento econômico através de concessões,
cada vez maiores, a empresas estrangeiras. No final das contas,
o bolo não cresceu, mas o termo pegou. Porém, como
diria Luís de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se
as vontades, mudam-se o ser mas o canto da musa é o mesmo:
melhor que a parábola culinária de Delfim é
potoca hospitalar do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que usa
de engenho e arte para defender sua política econômica,
alegando que não dá para interromper o tratamento
ao menor sinal de melhora do paciente. Estou enganado ou é
a velhilíngua da tecno-burocracia de sempre?
Hoje, temos experts munidos de um léxico
mágico, que explica tudo, até o inefável, se
aproveitando da ignorância do povo. Como escreveu um ex-deputado
que outrora participou da famosa Passeata dos Cem Mil: discurso
da nova esquerda contra os ideológicos ‘vermelhos’,
defendida por algum ministro, na verdade oculta e sustenta o discurso
da ordem contra a desordem, em detrimento da democracia irrestrita.
O resto é oligofrenia para oligofrênicos.
Para que seja possível observar até
que ponto vão as teorizações dos senhores do
poder e como eles ajudaram a levar à falência a economia
e a educação brasileiras, existe um curioso estudo,
realizado por Pablo Alejandro Fábian e Sérgio Buttes,
que anotaram palavras utilizadas por figurões e pedagogos
do governo durante um singelo seminário para professores,
há algum tempo atrás. Entre elas, práxis
sistêmica, inferência, tentativamente
(essa o Word aceita), “coetaniedade”, “análise
globalizante”, “parâmetros concêntricos”,
“fluxo cósmico”, “receptáculo afetivo”,
“instrumentalização do orientado”, “barroquismo
semântico”, “entropia acadêmica”,
“metodologia aceitável”, “elites interdisciplinares”,
“esfíncter da alma” (metáfora para o Super-Ego,
talvez), “internalização dos conchavos”,
e por aí vai.
Um economista não tem culpa de ser economista ou de falar
como tal. Mas quando um ministro começa a basear suas declarações
em muletas como chavões, pedras-de-toque, regionalismos,
neologismos e lugares-comuns, dependendo do contexto, a coisa deixa
de parecer pitoresca ou folclórica e vira pura enrolação.
Expressões de lugar nenhum: certos elementos da cúpula
do governo, incumbidos de explicar o inexplicável ou defender
tacitamente o que antes não cogitavam, o fazem bem à
sua maneira, ou como quer o Discurso do Poder, sem diálogo,
assinam artigos com lugares-comuns que até a própria
imprensa acaba se “esgualepando” a repetir, sem querer
— quando, não raro, a palavra não acaba virando
moda.
Claro que, como tudo na vida, sempre existe o lado
cômico. Em recente artigo à Folha de São Paulo,
um conhecido secretário do governo Lula, metido a ministro
(coisa mais fetichsta), usou, recentemente, expressões como
estas: “capitalismo turbinado” (poderia ser siliconado),
"conflito utilizável", “protagonismo”
e “policlassista”. Na linguagem do poder, o hermetismo
deixa de ter caráter alegórico para ganhar um inefável
verniz ideológico. Assim, é possível envenenar
o interlocutor com muletas, “semanticidades idiossincráticas”,
às vezes, mais patológicas do que maquiavélicas.
Independente de ser empolada ou popularesca, o eleitor moderno espera
tudo de um governo que defende reformas políticas, menos
que ele faça o que todos antes fizeram: parafraseando Theodore
Roosvelt e Orwell, a velhilíngua. Falar macio e
não dizer nada.
Pelo menos, sejamos otimistas: não vivemos
na Oceania, não somos (ainda) controlados por tele-telas,
não temos que engolir palavras à mancheia com vodka
barata e com a cara do presidente no rótulo. Pelo menos a
realidade — às vezes — é menos cruel do
que a ficção...
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