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5 a 18 de junho de 2003



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LATIM EM PÓ #14

A VELHILÍNGUA
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os governos e os sistemas políticos, mas o que fica e o que há de novo na velha linguagem do poder?

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

  livro 1984, clássico da literatura engajada e testamento político de George Orwell (Eric Blair, 1903-1949), escrita como um libelo contra o autoritarismo do regime stalinista na União Soviética, conta a história de um mega-bloco europeu que vivia no futuro sob a égide de um governo opressor, manipulando seus habitantes através de um sistema rígido e excludente e controlando a vida de cada um através de câmeras imensas, chamadas tele-telas. Como se não bastasse, havia um outro tipo de controle, efetuado pela linguagem. A novilíngua (newspeak), idioma do mega-bloco da Oceania, seria uma espécie de adaptação do inglês. O objetivo da implantação do novo idioma seria reduzir o vocabulário ao extremo para diminuir a capacidade de pensamento, tornando os cidadãos mais vulneráveis às vontades do Partido. Assim, a gradativa eliminação de sinônimos e a fusão de palavras — muitas delas originalmente antitéticas — tornavam a abstração da realidade impossível. A recriação do novo léxico que era criado e recriado criava palavras que, na mente das pessoas, ganhava um significado que, no conjunto da língua, serviriam como uma forma de coesão social. Não haveria contradição pelo controle absoluto do pensamento — esse é o futuro imaginado por Orwell, que não viveu até a morte de Stálin, nem assistiu ao degelo político ocorrido pela Glasnost, na década de 80. Mas, e a novilíngua? O que há de real e de abstrato em seu conceito?

Mês passado, Zero Hora publicou uma curiosa reportagem, intitulada “PT cultiva novo jargão do poder em Brasília”. A matéria versava a respeito da padronização de expressões oriundas de debates partidários e que se transformavam em doença fácil na boca de representantes do governo Lula. As expressões ditas em voga vão de sofisticados neologismos a expressões pouco explicativas e quase indecifráveis. Para ilustrar , aqui vão alguns exemplos: “concertação”, “precarizar”, “avançar no acúmulo”, “eixos estruturantes”. De acordo com a reportagem, tais expressões estão no "dicionário" de ministros, deputados e até de filiados que dialogam por meio de canais restritos da Internet.

Em geral, tal excentricidade seria perdoável no caso do jargão. Por exemplo, economistas geralmente apreciam inventar palavras a fim de, não sem uma certa dose de sadismo, explicar coisas simples de maneira complexa. O economês, como todo jargão, é típico de um determinado ofício e é um dos chamados níveis de linguagem. Seria um fato contingente: um surfista não pode ser culpado por falar como um surfista, e por aí vai.

Mas quando se trata de política e de lidar com certas verdades perante a sociedade, é comum ver e ouvir representantes de governos usando de dissimulação semântica em neologismos pomposos ou alegorias pseudo-bíblicas ou até metáforas culinárias, que são matéria-prima usada para discursos, depoimentos e entrevistas em geral. Como são todos homens públicos, suas declarações vão parar em página de jornal e azar do leitor que não entender o que eles falam — é o inevitável decifra-me ou devoro-te. Pior: além do hermetismo, ainda existem os pernósticos regionalistas, que não resistem a um guimarãesrosismo como caco na hora de fazer uma concertação de um discurso ou fazer uma reles declaração de algibeira.

Todos se lembram quando Delfim Netto assumiu em 1979 no lugar de Mário Henrique Simonsen para reiterar que o importante era exportar e que era preciso esperar o bolo crescer para dividir, acrescentando o crescimento econômico através de concessões, cada vez maiores, a empresas estrangeiras. No final das contas, o bolo não cresceu, mas o termo pegou. Porém, como diria Luís de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se o ser mas o canto da musa é o mesmo: melhor que a parábola culinária de Delfim é potoca hospitalar do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que usa de engenho e arte para defender sua política econômica, alegando que não dá para interromper o tratamento ao menor sinal de melhora do paciente. Estou enganado ou é a velhilíngua da tecno-burocracia de sempre?

Hoje, temos experts munidos de um léxico mágico, que explica tudo, até o inefável, se aproveitando da ignorância do povo. Como escreveu um ex-deputado que outrora participou da famosa Passeata dos Cem Mil: discurso da nova esquerda contra os ideológicos ‘vermelhos’, defendida por algum ministro, na verdade oculta e sustenta o discurso da ordem contra a desordem, em detrimento da democracia irrestrita. O resto é oligofrenia para oligofrênicos.

Para que seja possível observar até que ponto vão as teorizações dos senhores do poder e como eles ajudaram a levar à falência a economia e a educação brasileiras, existe um curioso estudo, realizado por Pablo Alejandro Fábian e Sérgio Buttes, que anotaram palavras utilizadas por figurões e pedagogos do governo durante um singelo seminário para professores, há algum tempo atrás. Entre elas, práxis sistêmica, inferência, tentativamente (essa o Word aceita), “coetaniedade”, “análise globalizante”, “parâmetros concêntricos”, “fluxo cósmico”, “receptáculo afetivo”, “instrumentalização do orientado”, “barroquismo semântico”, “entropia acadêmica”, “metodologia aceitável”, “elites interdisciplinares”, “esfíncter da alma” (metáfora para o Super-Ego, talvez), “internalização dos conchavos”, e por aí vai.

Um economista não tem culpa de ser economista ou de falar como tal. Mas quando um ministro começa a basear suas declarações em muletas como chavões, pedras-de-toque, regionalismos, neologismos e lugares-comuns, dependendo do contexto, a coisa deixa de parecer pitoresca ou folclórica e vira pura enrolação. Expressões de lugar nenhum: certos elementos da cúpula do governo, incumbidos de explicar o inexplicável ou defender tacitamente o que antes não cogitavam, o fazem bem à sua maneira, ou como quer o Discurso do Poder, sem diálogo, assinam artigos com lugares-comuns que até a própria imprensa acaba se “esgualepando” a repetir, sem querer — quando, não raro, a palavra não acaba virando moda.

Claro que, como tudo na vida, sempre existe o lado cômico. Em recente artigo à Folha de São Paulo, um conhecido secretário do governo Lula, metido a ministro (coisa mais fetichsta), usou, recentemente, expressões como estas: “capitalismo turbinado” (poderia ser siliconado), "conflito utilizável", “protagonismo” e “policlassista”. Na linguagem do poder, o hermetismo deixa de ter caráter alegórico para ganhar um inefável verniz ideológico. Assim, é possível envenenar o interlocutor com muletas, “semanticidades idiossincráticas”, às vezes, mais patológicas do que maquiavélicas. Independente de ser empolada ou popularesca, o eleitor moderno espera tudo de um governo que defende reformas políticas, menos que ele faça o que todos antes fizeram: parafraseando Theodore Roosvelt e Orwell, a velhilíngua. Falar macio e não dizer nada.

Pelo menos, sejamos otimistas: não vivemos na Oceania, não somos (ainda) controlados por tele-telas, não temos que engolir palavras à mancheia com vodka barata e com a cara do presidente no rótulo. Pelo menos a realidade — às vezes — é menos cruel do que a ficção...