| LATIM EM PÓ #22
PEQUENA SERENATA DIURNA
Eis que, no meio de tanta gente,
avista um rosto familiar: uma ex-colega, linda, loira e esbelta
como uma Ursula Andress. Aliás, ela era quase a própria
Ursula Andress
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
cordou
atrasado. Vivia sempre atrasado. A sua vida era atrasada, mas sempre
atrás dos ponteiros do relógio, com seus ponteiros
como agulhas a costurar a mortalha inexpugnável do tempo.
Meu Deus! Sete e vinte! Já era para eu estar na rua a uma
hora destas! Pulou da cama como se fugisse da ira divina. Passou
pente em seu cabelo indomável. Desceu as escadas, até
a cozinha. Nada na geladeira, apenas o inefável e amigo bule
de café frio que teve que tomar - mais por uma questão
de sobrevivência. Ou isto ou comprometer o raciocínio
- ainda mais devido ao porre da noite anterior.
Não, não. Não esqueceu a chave, mas o lapso
de pensamento quase o fez rolar as escadas. Ato reflexo, pega a
mochila e na outra cena, já está descendo a rua, em
direção à parada. Sete e trinta e cinco. O
professor não vai ser tolerante desta vez - ainda mais porque,
neste semestre, o diretor deu ordem expressa de que não há
mais tolerância para atrasos. Esqueci o caderno! Mas que droga!
Droga! Agora não dá mais para voltar. Droga, droga,
droga, mil vezes droga! Enquanto ruminava estes pensamentos, São
Pedro já faz cair uma bruta tempestade. Nosso herói
se resigna e aperta o passo.
Dribla as lufadas de vento, até avistar a parada. Antes
que atravessasse a via, um circular lhe entornou toda a lama da
rua em sua calça. Nosso herói ri: dos males, o menor.
Na verdade, ri para não chorar. Uma insuspeita ressaca lhe
lateja a cabeça, como um flashback ao engrossar a massa de
sangue com a correria em direção à parada.
Transtornado e pensando em sua cama quentinha e em por que ele resolveu
misturar duas marcas de cerveja mesmo sabendo que aquilo sempre
lhe dá seqüelas (droga!), corre para o abrigo, tentando
calcular que horas já deviam ser. Pergunta a uma senhora
de capa amarela e maquiagem borrada.
- São sete e quarenta e dois - responde a mulher, sem tirar
o olho dos ônibus que passavam.
Num calafrio, tenta secar o cabelo, em vão. Passam os carros,
nenhuma linha é a que o levaria ao colégio. Suspira.
A chuva aumenta. Boceja. Se esqueceu de tapar a boca com a mão.
Uma velhinha o reprova, com boquinha de nojo. Passa outro ônibus.
Não é o dele. Suspira de novo. Começa a ter
cacoetes. Fica com raiva do cacoete. Resolve olhar para a direção
contrária, escorrendo a vista sobre os rostos silenciosos
da parada. Eis que, no meio de tanta gente, avista um rosto muito
familiar: era uma ex-colega do ano anterior, linda e esbelta como
uma Ursula Andress. Aliás, ela era quase a própria
Ursula Andress. Bom, nem tanto, mas lembrava vagamente a Ursula
Andress.
Aí ele se lembrou de que não havia esquecido ela
desde a última vez em que a viu (na verdade, desde a primeira
vez que a viu), mas desde que saiu de casa até aquele momento,
a única coisa que passava pela cabeça de nosso herói
era a prova de matemática. Sim, a prova de matemática.
Ele havia tirado dois zeros em apenas um bimestre, a professora
era simpática, entendia a sua dificuldade com os números
e ele até tentava se aplicar, mas quanto mais estudava, mais
zeros à esquerda em seu boletim. Porém, depois de
tê-la encontrado naquela chuvosa situação, ele
não conseguiria nem sequer se lembrar se quatorze era número
primo (quatorze é ou não é um número
primo?).
Sete e quarenta e sete. A parada cheia de gente, os ônibus
escasseavam, talvez presos em alguma garagem, por causa da chuva,
que já fazia aparecer ao longe os primeiros botes de salva-vidas
pela avenida. O zelador do prédio em frente tinha homéricos
chiliques com a água. Agitava o rodo com as mãos:
"não agüento mais chuva! Não agüento
mais chuva!". Um senhor de capa amarela, ao lado, secava a
careca com o jornal. Suspirou, como que vencido: "eu também
não agüento mais chuva!". Eis que, não mais
que de repente, um ônibus aparece ao longe! Todos esticam
a vista para enxergar o prefixo. "É o 53!", berrou
a velhinha. Outro pé-rapado bradou, do fundo: "Viva!".
Todos se abraçavam, emocionados. Só faltavam fazer
a "ola". Quando o carro chegou, foi uma correria instantânea
para tudo quanto é poste, para escapar do banho dos pára-lamas.
Entrementes, nosso herói lambia com a vista a paisagem de
capas e guarda-chuvas que formava fila para entrar no Ipiranga-PUC,
procurando a sósia da Ursula Andress. Abaixo de piparotes,
entrou na fila bem atrás da jovem! Era uma questão
de instantes.
De repente, ele foi tomado de uma determinação quase
espartana. E partiu para a marcação cerrada, como
um center-half argentino. A fila ia entrando. Na ponta dos pés,
para não pisar em ninguém, lá está ele.
A menina com os olhos de Vênus pára na roleta. Procura
a carteirinha de vale-transporte. Vira e mexe, e nada de carterinha.
Nisso, o nosso galã da linha 53, Ipiranga-PUC alça
a fronte, impávido e confiante como o Duque de Mântua:
- Olá, bom dia, deixa que EU pago.
Ele pagou a passagem dela, enquanto a Ursula Andress passava pelo
cobrador. Ela agradeceu, tímida e fixando o olhar no rapaz,
antes de passar corredor adentro. As pessoas passavam, passavam,
passavam pela roleta. Ele tentava achar nos bolsos o troco do dia
anterior. A chuva fazia desenhos frios nas janelas, não se
enxergava patavina lá fora. Já em pânico, vê
sua dulcinéia procurando lugar no fim do ônibus. Olha
para ela, olha para os bolsos. Um centavo, outro centavo. O carro
lotava, lá atrás. Ia enchendo, ia enchendo; o rapaz
já tinha deixado um time de futebol passar na sua frente,
e nada de achar o dinheiro! Tudo acontecia numa progressão
fulminante. Outros entravam. E ele já não enxergava
mais a sua amada, perdida em alguma janela do fim do ônibus.
- Passagem!
Então se lembrou que havia se esquecido: só tinha
o rico dinheirinho contado para a SUA miserável passagem.
Aquela malvada desgracida da Ursula já estava perdida entre
os passageiros que iam entrando, e estava de graça com um
sujeito, lá na frente. O rapaz, é claro, teve um branco
enorme. Caiu das nuvens. E o carro ia arrancar. O cobrador insistiu,
seco:
- E aí, guri? Te liga. Acorda! O ônibus vai arrancar,
pô. Vai pagar ou não?
Entre confuso e constrangido, nosso herói não teve
escolha:
- Quem, eu? E-eu desço aqui...
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