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12 a 25 de janeiro de 2004



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LATIM EM PÓ #23

À SOMBRA DOS “IMORTAIS” DE CHUTEIRAS
Preconceito contra a rabulice dos jogadores de futebol gera uma antologia de casos que quase sempre passavam longe de livros...

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

os intervalos dos jogos da TV, uma coisa me chamou a atenção: sempre aparecia um atleta (quase sempre jogador de futebol) com um livro nas mãos, passando os olhos em alguma obra qualquer. O spot, produzido pela própria emissora, tinha por objetivo estimular o torcedor de futebol, que compreende a quase totalidade da fauna pensante do Brasil, a ter contato com a leitura, tendo como exemplo o seu jogador preferido. Muito legal, isso! Não sei se a idéia deu certo na prática. Até acho que existem compensações. Mané Garrincha não seria o grande ponteiro-direito da Seleção Brasileira se perdesse o seu tempo lendo Pai Goriot, por exemplo. Ou Balzac ou a bola. Claro que a coisa também não é assim: é possível conciliar as duas coisas, sem prejuízo de ambas.

Se um único e escasso torcedor decidir ler por causa do seu jogador preferido, só por isso, a campanha valeu a pena. A idéia é louvável. Principalmente se lembrarmos que, da mesma maneira que o futebol é um esporte popular, ele atrai todos, desde o tolo quanto o inteligente. Mas se a campanha obteve êxito como estímulo à leitura para os torcedores, o que dizer dos próprios atletas? Fato é que não deixa de espantar ver jogadores de futebol parecerem se interessar tanto por livros, pelo menos, ultimamente, e graças à campanha da TV.

Fato também é que jogadores sempre foram chamados de analfabetos, e alguns até eram, e levavam a fama de serem burros e instintivos como um paquiderme. Claro que nem todos, e nem sempre. Charles Miller, patriarca da bola, com seus bigodões, não era um reles peladeiro de várzea, e certamente conhecia a obra de Sheakespere. Porém, não tinha um setorista a postos para gravar possíveis gafes lingüísticas. E antes de se popularizar, o futebol contava com uma minoria que tinha cultura similar a de um jogador de tênis...

Voltando, como sabemos, quando o futebol se popularizou, a maioria dos craques eram egressos das camadas menos aquinhoadas da sociedade. São as contingências de ser brasileiro num país de contrastes, diriam os sociólogos. E os jogadores realmente não eram lá muito habituados a livros, já que quase sempre vinham de uma infância difícil, e de uma vida castiça, passada nos campos e várzeas das vilas. Por conta disso, não deixa de ser cruel ver gente se escarnecendo da pretensa falta de cultura dos jogadores de futebol. E esse preconceito contra a rabulice dos boleiros gerou uma antologia de casos envolvendo atletas da bola, que quase sempre passavam longe de livros ou de escolas.

Um fato que exprime essa falta de cultura disseminada no futebol é aquele episódio envolvendo um zagueiro. O atleta, analfabeto, recebeu um telegrama. Como não entendia nada do que estava escrito, fingiu ler atentamente. Quando o técnico passou, ele fez uma expressão de surpresa e pesar, pegou o homem pela camisa, e disse: “olha o que me aconteceu!”. O técnico, também analfabetíssimo, “leu” o telegrama, cobriu a boca espantada, arregalou-se, devolveu o papel ao atleta, suspirou fundo, fez uma cara de enterro, e respondeu, crispado: “é, meu filho. Mas é a verdade”.

O episódio serve para mostrar como a falta de instrução era institucionalizada no esporte, no século passado. Com efeito, essa “incultura” se refletia no léxico dos profissionais do futebol. Alguns jogadores, por sinal, ficaram famosos por seus escorregões perante a Língua Portuguesa, cujas gafes eram sempre registradas pela imprensa. Exemplos não faltam, que vão do singelo “mais melhor” ao mais surreal dos neologismos:

  • Início da década de sessenta. Marcos, ponta-direita que chegara de Santa Catarina direto para o Grêmio, precedido de enorme cartaz, era entrevistado:

    - Como é, Marcos? É verdade que você tem muito cartaz e prestígio em santa Catarina? Você é bom mesmo?

    - Não, que nada, é tudo modéstia à parte da torcida....

  • Ao ser contratado pelo Flamengo, o zagueiro Fabão exprimiu incontinenti a sua profissão de fé clubística:

    - A partir de agora, o meu coração só tem uma cor: rubro-negra.

  • Comentando determinado lance no primeiro tempo do jogo, o então estreante são-paulino Terto tentou se explicar:

    - Eu fui todo embucetado para pegar aquela bola!

    Feita a polêmica, no final da partida, o mesmo Terto foi chamado a fim de se justificar aos horrorizados e pudicos ouvintes a natureza da sua explanação:

    - Pô, eu queria me desculpar aos ouvintes pelas palavras que usei durante o intervalo. Mas queria deixar claro que usei “embucetado” no bom sentido...

  • Outro campeão de gafes é o ex-centroavante gremista e vascaíno Jardel. Ao exprimir o seu estado de espírito durante uma partida, ele disse:

    - Quando o jogo está a mil, a minha naftalina sobe lá em cima!

    Com relação ao clássico entre Internacional e Grêmio, ele deu a sua definição definitiva, antes de entrar em campo:

    - Gre-Nal é Gre-Nal e vice versa.

  • Vladimir, ex-jogador do Corinthians, ao se sentir contrariado por um setorista:

    - Eu disconcordo do que você disse!

  • O velho Marinho Chagas, titular da Seleção na Copa da Alemanha, em 74, também ficou famoso por fazer Camões se mexer no túmulo. Quando o lateral defendia o São Paulo, após mais de mais um empate, o repórter foi perguntar ao jogador sobre o que havia acontecido de funesto com o escrete tricolor. Marinho foi sucinto:

    - É tudo muito simples, uma situação que pode ser resumida em duas palavras: A-ZAR.

  • Zanata, ex-lateral do Fluminense, ao comentar sobre a pretensa hospitalidade do povo baiano:

    - Pô, o pessoal aqui na Bahia é muito hospitalar!

  • Kafunga, velho keeper do Atlético Mineiro, virou comentarista de futebol, após pendurar as chuteiras. Certa feita, ao ouvir um colega debatedor afirmar que se o árbitro tivesse marcado determinado pênalti contra o “campeão do gelo”, o resultado seria outro, ele corrigiu, impávido como um Rui Barbosa:

    - Ia, meu caro amigo, é pretérito do futuro...

  • Luciano, da Portuguesa Santista, questionando a atitude de um fiscal de linha, que levantara a bandeira impedindo o seu gol salvador:

    - Mas pô, seu juiz, juro que o gol foi legível. Legível!

  • Nunes, grande centroavante e campeão Interclubes pelo rubro-negro da Gávea, teve que sair do gramado de maca. O repórter se aproxima e pergunta se a dor é muito forte ou se o atleta acha que contusão venha a ser grave.

    - Não, acho que o meu estado não inspira gravidez, não...

  • O repórter perguntou para Enágio, do Santa Cruz, se o time estava finalmente embalado para seguir firme no Brasileirão:

    - Não, claro, como você sabe o Santa vem vindo numa embalagem bárbara!

  • Naufragado num mar de crianças a pedir autógrafos, Pelé ainda pôde ouvir do então jogador do Santos, Edson Ampola:

    - Pô, isso aqui até parece um cardume de abelhas...

Apesar de engraçadas, essas gafes não deixam de exprimir todo um Brasil de tristes trópicos, triste e mal assistido, onde a ignorância maior foi das autoridades mobralizadoras de analfabetos “diplomados”. O descaso sempre foi tão endêmico quanto injustificado. Não podemos apenas tripudiar e rotular a cultura de gente simples, que não tem culpa de ter nascido numa época e num lugar em que o ensino era algo tão elitizante. A prova dos nove de um Brasil emburrecido pela demagogia política, por todos esses anos. Por outro lado, antropologicamente falando, esse modo de falar, tão típico ao sair da boca dos nossos boleiros, é tanto o sintoma do Brasil que vive distante do ensino quanto elemento fundamental de um esporte popular como o futebol. É a imagem de um esporte como o futebol, e de um protagonista como o brasileiro do país tropical.

Pelo menos, podemos olhar para trás, e ver que a coisa já foi bem, bem pior. Atletas da Seleção dos tempos do Flávio Costa ou do Aimoré Moreira podiam ter tanto um léxico restrito quanto tuberculose cavalar ou uma paisagem de cáries. Podem dizer que eram os tempos “românticos” do futebol, embora não tão românticos assim, num passado também não tão recente. Por isso que folgo em ver um jogador lendo um livro na TV. Também fico feliz em saber que veteranos como o antigo volante do Inter, Paulo Roberto Falcão, por exemplo, dão palestras para futuros craques de categorias de base, salientando a importância do estudo aos jovens atletas, antes de arriscar um futuro tão promissor quanto efêmero, nos estádios.

É sinal de que estamos andando para a frente.