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25 de julho a 8 de agosto de 2004

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LATIM EM PÓ #33

O ZAGUEIRO E POETA
A história de um jantar regado à vinho tinto e Pablo Neruda

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

entre os tantos eventos que marcaram a passagem do centenário de Pablo Neruda (1904-1973), pelo menos uma deve ser digna de registro. No dia 13 de julho, o escritor Luís Fernando Veríssimo e o ex-jogador de futebol Elias Figueroa foram especialmente convidados para dar um testemunho de suas respectivas ligações com a obra do poeta, no Plenarinho da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Neruda, como se sabe, é o maior nome da poesia chilena. Diplomata, cônsul, marxista, revolucionário, candidato a presidente, Prêmio Nobel de Literatura em 1971, o autor de Canto General iniciou sua carreira poética sob a influência do surrealismo, para se tornar um grande poeta popular. Mas digo que o encontro com o ídolo colorado e o consagrado cronista se destaca justamente por isso: como a beleza e simplicidade de seus versos e o arrebatamento de seus poemas foi capaz de ligar duas pessoas aparentemente tão distintas, como Figueroa e Veríssimo? A história é longa e um tanto pitoresca, mas vale a pena de ser contada.

Há priscas eras, em meados de 1971, o Internacional de Porto Alegre resolveu investir num zagueiro chileno, que já havia atuado na cidade pelo Peñarol, chamado Elias Figueroa (nem precisava dizer!). Diziam que ele era roubada, que ele era baixinho e saltava pouco. Em pouco tempo, a nova contratação colorada se tornaria um verdadeiro líder em campo e mostraria aos seus detratores que, além de saltar metros acima dos zagueiros adversários, ele voava em campo. Dono de uma disciplina prussiana, Figueroa fechava a zaga. Roubava a bola do adversário e saia jogando com elegância, como um dândi. Altaneiro, saía do fundo, tocando a bola, teso como um imperador. Dava sempre o último combate e orientava a defesa. Seria ainda o introdutor da tática do impedimento no Brasil. E, se dentro de campo, o novo zagueiro do Inter esbanjava um comportamento peculiar, fora dele a coisa não seria diferente.

Surpreendeu os setoristas do Beira-Rio, pois ele sempre tinha o que falar nas entrevistas, ao contrário dos demais jogadores. Mais: nos treinos, ele sempre aparecia de terno e gravata - hábito comum de atletas europeus. No começo, seus colegas alvirrubros riam frouxo daquele seu aparente insípido dandismo. Um semana depois, dois ou três já eram vistos de gravata. Cedo, o alfaiate do gringo receberia novos clientes. Mas a aura de jogador intelectual foi entronizada mesmo numa noite de 71, quando Figueroa foi convidado, junto com os meias Paulo César Carpegianni e Bráulio (e esposas) para um jantar na casa dos Veríssimo, na rua Felipe de Oliveira, em Petrópolis, um bairro pacato de Porto Alegre. Luís Fernando era o cicerone. Lá estavam, entre outros jornalistas e intelectuais, Ruy Carlos Ostermann e o velho Érico, para experimentarem juntos um honesto strogonoff com um vinho tinto idem.

Com sua fluência e cortesia, o zagueiro gringo se tornou a alma da festa. Para um estrangeiro e reles jogador, Figueroa parecia estar longe de ser um operário do futebol. Porém, o melhor ainda estava por vir. Na saída, ao contemplar a alta noite do firmamento em pélago, ele não se conteve e, ao avistar uma merencórea estrela cadente, declamou, entre solene e taciturno:

Puedo escribir los versos mas tristes esta noche...
Escribir, por ejemplo: La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.

Ato reflexo, todos se voltaram para ele, desconcertados. E a payada continuava:

El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guerdarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y estos sean los últimos versos que yo le escribo.

As damas arfavam os decotes. Confusos, os cavalheiros eram a imagem da perplexidade em pessoa. No outro dia, Ostermann (então na extinta Folha da Manhã ) e Veríssimo ( Zero Hora ) revelavam aquele fenômeno em pleno Alto Petrópolis, em suas respectivas colunas. Um zagueiro declamava Neruda. Era o célebre “Poema XX”, do livro Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada , publicado em 1923, e que projetou o bardo chileno para o mundo. Este poema originalmente se chamava “ Tristeza a la Orilla de la Noche” .

Despeitados com a repercussão da inusitada história, alguns gremistas desmentiam a pose de intelectual do beque colorado. Para eles, aquele poema era a única coisa que ele sabia declamar. Figueroa preferiu responder a estes em campo. Ao invés de noites estreladas e olhos infinitos, ele declamava estratégias sob a singela forma de aforismos aos seus colegas colorados, a fim de anular o ataque tricolor. "A área é minha casa; nela só entra quem eu quiser", dizia ele aos colegas. Outra: "Nenhum juiz expulsa nos primeiros dez minutos. Aí o zagueiro tem que aproveitar para dar na cara do atacante". Exatamente: dar na cara. Sobre a grama e com a braçadeira de capitão, ele virava um Mr. Hyde da bola e com sotaque portunhol.

Para segurar o ponta tricolor Tarciso, o chileno usava uma parte do corpo que seria o seu sinônimo: o cotovelo. Os gremistas polemizavam sobre as inúmeras vezes em que o zagueiro parava o ataque azul à base da violência. Diziam que era covardia, anti-jogo, etc. Por seu turno, os colorados riam à toa das vitórias do beque, com arroubos de tourada. Já Figueroa se defendia das acusações e explicava que não tinha culpa de "ter sempre alguém na sua cola quando ele abria os braços". Ou então, mais recentemente, ele disse: "É que eles insistiam em dar narigadas no meu cotovelo".

Porém, a danação do "Flecha Negra" era pouca comparada à da torcida do Grêmio, na medida em que, na década de 70, eles viam o imortal tricolor definhar ante a superioridade do Inter que, a olhos vistos, montava a orquestra do bicampeonato brasileiro de 1975 e 1976, cujo spalla era "Don" Elias e o maestro, Rubens Minelli. O poético e taciturno Figueroa espanava gremistas da grande área com o cotovelo. O tricolor comprava levas de atacantes para liquidá-lo. Além de Tarciso, Laírton e Alcino, todos voltavam para o vestiário com o olho roxo das investidas do gringo. Claro que ele não era apenas marquetagem e dandismo. Atuando pelo Internacional, ele ganhou três vezes consecutivas o prêmio de Melhor Jogador das Américas, 1974, 1975 e 1976.

"E ele ainda declamava Neruda", completou Veríssimo, na palestra sobre o poeta chileno, no Plenarinho da Assembléia, lugar onde eles se recordaram dessas histórias todas. O ex-defensor alvirrubro ressaltou que seu êxito como jogador no sul passou pela forma com que foi recebido e que um dos pontos de contato dessa aceitação — como se fosse uma brincadeira do destino — foi, "sem dúvida, a poesia de Neruda". O beque revelou que conheceu o poeta pessoalmente, em 1966, durante uma turnê européia que ele fazia junto com a Seleção Chilena. Segundo "Don" Elias, eles se encontraram em Leipzig, na Alemanha, quando o autor do "Poema XX" foi visitar a concentração chilena.

Porém, quando Neruda morreu, em setembro de 1973, ele estava em Porto Alegre e o Chile vivia os seus piores tempos de convulsão social. O poeta havia renunciado à sua candidatura em 1970 pela União Popular em favor de Salvador Allende, que seria deposto por um golpe militar e morto durante o bombardeio ao Palácio de La Moneda, em Santiago. Neruda, homem de seu povo e de seu tempo, sucumbiu da mesma "doença" que matou o presidente socialista. Morreu doze dias depois do fatídico 11 de setembro. Mais que o seu câncer, ele sente na alma o desfecho da quartelada de Pinochet.

— Eu me aproximei de Pablo e recebi um conselho que perseguiu toda minha vida — revelou Figueroa, no debate. — Que para vencer em qualquer atividade, eu deveria ter fé e perseverança. Como fui uma criança doente, que os médicos diziam que não poderia ter uma atividade física, muito menos ser um atleta, eu me considerava um exemplo do que Neruda me disse. Daí minha ligação com ele ter se estreitado mais ainda.

Já Luís Fernando Veríssimo disse que o ex-atleta acabou sendo responsável pela popularização da obra do bardo chileno entre os gaúchos e deixou como grande lição humanística que a poesia é uma maneira de interferir na realidade social e política. "Sua poesia reflete isso e esse foi um legado que deixou a todos seus leitores", concluiu o escritor gaúcho. No fim, o cronista brincou, dizendo que, além de Figueroa, ele não encontrou nenhum laço que unisse o poeta ao futebol. "Confesso que não achei e por isso recorri a mim mesmo", divertiu-se Verissimo, que em seguida procurou, em seus alfarrábios, o esboço de um livro que ele está escrevendo sobre o Internacional e então, diante da platéia absorta, contou aquela curiosa história do antológico jantar regado a vinho tinto e Neruda...