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10 a 25 de agosto de 2004

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LATIM EM PÓ #34

DEITADO ETERNAMENTE
De repente, o nosso vice-mandatário se sentiu incomodado com o fato de que o Hino lhe causa sonolência

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

Vice-Presidente da República, José de Alencar, propôs que a letra do Hino Nacional fosse mudada. Não toda a letra, mas especificamente um trecho. Em sua declaração pontualíssima, ele sugere a substituição do famoso “deitado eternamente em berço esplêndido” por “desperto e vigilante em solo esplêndido”. Há quem sempre diga que o nosso símbolo maior seja, do ponto de vista literário, um tanto quanto antiquado, demodé, como aqueles versos cultistas dos tempos do Barroco. Essa idéia, pelo menos, é a menos estúpida que já se teve a respeito de alterações no Hino. Aliás, já se disse que a nossa verdadeira “canção magna” é “Aquarela do Brasil”. Só que o samba-exaltação de Ari Barroso tem lá as suas esquisitices, como a tal da “mãe preta no cerrado” (que o Paulo Francis achava ser “tira a mãe-preta do telhado). Mas o dilema alencariano se refere ao valor simbólico de “deitado” e “berço”. De repente, o nosso vice-mandatário se sentiu incomodado com o fato de que o poema lhe causa sonolência Pior: se incrustrado de maneira subliminar em nossas mentes, a letra pode causar indolência nos brasileiros. Quer dizer, o Brasil não vai para frente por causa do poema do Joaquim Osório Duque Estrada.

A história da letra rola desde os primórdios até hoje em dia. O Hino Nacional brasileiro já teve três letras diferentes. A primeira é de 1831 para comemorar a abdicação de D. Pedro I e seu retorno a Portugal. Em 1841, o Hino recebeu a segunda letra, que celebrava a coroação de D. Pedro II. Com a proclamação da República, essa letra, monarquista, caiu em desgraça, mas só foi substituída em 1922. Por sinal, Joaquim Estrada era um escritor e jornalista, como muitos que viveram na Belle Époque brasileira. Era ensaísta e colaborava com a coluna “Registro Literário”, mantida, de 1914 a 1917, no Correio da Manhã ; de 1915 a 1917, no Imparcial ; e, de 1921 a 1924, no Jornal do Brasil. Como crítico literário, era temido, mas não fez sucesso como Sílvio Romero e José Veríssimo, dois baluartes do polemismo vazio daqueles tempos em que vencia o que chiava mais alto e melhor achincalhava o seu antípoda. Também virou imortal da Academia. Poeta menor, ficou conhecido pelo Hino. De seu punho — e daquele ambiente histórico – brotou a letra definitiva para uma melodia que, desde o início, era considerada, da parte de alguns musicólogos, de difícil prosódia (pôr letra). O poema, que já era amplamente conhecido em todo o País, cantado com a música de Francisco Manuel da Silva, foi oficializado pelo Presidente Epitácio Pessoa, através do Decreto nº 15.671, de 6 de setembro de 1922.

Contudo, era um homem de sua época, e vivia a era do Parnasianismo. Ou seja, a letra é um retrato sincrônico do estilo literário de seu tempo, em que o melhor escritor era o mais palavroso, o mais hiperbólico, o mais parnasiano e conceptista possível. Não fosse ele, seria outro. Olavo Bilac fez a letra do Hino da Bandeira, tão rebuscado quanto. E daí?

Ora, um Hino faz parte da história da nacionalidade de cada país. Ele não é entronizado como a canção magna por acaso: existe toda uma história que o envolve, por mais anacrônica que pareça. Não se muda um poema da mesma medida em que não se muda uma obra de arte.

É como querer tirar a pátina de uma antiga estátua de bronze. Sobre as frases “em ordem inversa”, seria mais patético ainda querer copidescar os hipérbatos. Poderíamos, desta forma, mudar todo o Hino: vamos abrir com um “lead” completo, reformular arcaísmos, polir a versificação, desinfetar as metáforas, lixar as catacreses, modular as prosopopéias e, antes de tudo, acabar com alusões à indolência nacional. Chega de tristes trópicos. Nada de ficar deitado eternamente. Às armas, cidadãos!

Um exemplo: mudança por supressão de estrofes. O Hino Alemão teve suprimido o seu começo “ Deutschland, Deutschland über alles ” (“Alemanha, Alemanha acima de tudo”), que era como uma declaração da necessidade de se mobilizar todas as forças e sentimentos em prol da construção do Império Alemão unificado. Claro que o poema foi escrito muito tempo antes da Guerra Franco-Prussiana, que uniu as províncias alemãs, em 1870. Naquele tempo, havia um justo sentimento nacionalista. Só que, após o trauma nazista, aqueles versos ficaram associados ao militarismo e o imperialismo alemão. Em 1952, a “Canção” foi novamente reconhecida como Hino Nacional, mas foi determinado que em solenidades oficiais, se cantasse apenas a terceira estrofe, sem o “Alemanha acima de tudo”: “unidade e direito e liberdade para a Pátria alemã”. Nesse caso, há um motivo justificado para a alteração. Não se trata de capricho.

O problema é que a sugestão do vice-presidente não se refere à mudança de figuras de estilo e arcaísmos (abriria o precedente para mudar os clássicos da nossa literatura?), mas sim a alterações de ordem “ideológica”, vamos por assim dizer. É que, ao que parece, como se não bastasse o fato de brasileiro ser chamado de “hércules-quasímodo” e de indolente por pseudo-intelectuais dos “tristes trópicos”, como Nina Rodrigues, existe um sentimento atavista que nos permite sentir vergonha de sermos um bando de mestiços cansados. Parece que é imperioso agir, e não ficar deitado eternamente em berço esplêndido. Acho que o “deitado eternamente” pode ser entendido como uma situação mítica. É como se fôssemos afortunados por ganhar este ensolarado canto do mundo. E, de repente, passamos a sentir vergonha de passar a imagem de indolência na letra. Certos iconoclastas de ocasião acordam da sua secular hibernação para afrontar pobres liberdades literárias.

A proposição de José Alencar é justamente essa: a de procurar chifre em cabeça de cavalo. É como se fosse possível acordar esse gigante adormecido a cumprir o seu destino como nação, apenas pela sugestão do pensamento mágico. É uma forma inconseqüente de se tentar salvar esse pobre país perdido através de um simples decreto. Além do mais, eles são desnecessárias, porque hostilizam e aniquilam valores instituídos. Proponho ao nosso laborioso e desperto vice-mandatário que também tire o lindo “pendão” da Esperança do Olavo Bilac. Só para ver como o nosso dirigente é mais um “porforista” a respeito do belíssimo e irretocável Hino Nacional Brasileiro, o verso “deitado eternamente em berço esplêndido/ ao som do mar à luz do Céu Profundo” se trata somente de uma alusão à Serra do Mar, que, vista de longe na direção leste-oeste, se parece com um gigante na guarda de suas riquezas, sob o enlevo do “som do mar”. e iluminado pelas estrelas do Cruzeiro. É apenas uma abstração poética do território brasileiro, um impávido colosso deitado eternamente no continente sul-americano.