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EM PÓ #35
ROTEIRO DE UM BOÊMIO
A curiosa história de um curioso compositor das noites porto-alegrenses
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
m tempos idos, a boca da noite se abria nas portas vai-e-vem dos bares da então lírica Porto Alegre do tempo dos bondes amarelos. É na rua que encontramos um conhecido nosso, o típico do footing da “flanérie” vespertina do Centro — a quem chamaremos de “O Boêmio” deixou seu sisudo escritório onde trabalhava para exercer a sua botânica do asfalto e começava a ronda dos botecos. Pontos de atração certa: o Treviso ou o Gambrinus, no Mercado Público, o sarro de cerveja do Chalé da Praça Quinze, a turma das sextas no Dona Maria, na José Montaury, ao lado da Livraria do Globo. Estas por si só se bastavam, mas não à tendência ambulatória dos freqüentadores. No cerco central, o Farolito na Rua da Praia com a João Manoel ou o Abílio na 7 de Setembro, onde o pessoal das redações do Centro sempre penduravam porres homéricos, depois do expediente. Era ali que ele começava a sua peregrinação. Logo apareciam os companheiros de copo, para alongar a conversa, ou algum mulato com o violão, para a batucada. Assim era a vida de um grande boêmio da capital gaúcha e que, mesmo no limiar dos seus cinqüenta anos, seguia com o seu hábito de viver a noite da cidade, lá por meados de 1963, quando ele nos contou um pouco de sua história.
O nosso boêmio é um velho jovem compositor; mulato tímido e folgazão, nasceu na parte mais remediada da cidade, mas na vila mais bonita do mundo (na cidade): a Ilhota. Todos têm a sua utopia, mas para ele, a utopia tinha endereço, num buraco de casas caiadas e tristes, rente ao exército de palmeiras imperiais da avenida Getúlio Vargas, nos arredores da praça Garibaldi — outrora o quartel general dos velhos seresteiros. Os antigos casebres, porém, não existem mais. O saneamento da Prefeitura, alguns anos antes, havia desfigurado bastante aquele lugar de sonho. Mas não havia de ser nada. A vida seguia, sempre que a noite chegava.
— O boêmio, em princípio, é um notívago — diz nosso herói, depois de entornar um honesto gole de conhaque, sentado naquela velha mesa sempre reservada, no Bar do Abílio. — Depois, é um poeta, um amoroso, um admirador das serestas e é realmente um companheiro da lua.
Para aquele pacato e discreto senhor — o verdadeiro “dândi”, metido num conjunto de terno, colete e gravata como todo burocrata dos escritórios e repartições do centro, de fala mansa e gestos expressivos — notívagos como ele, são sempre artistas ou pessoas sentimentais. “Digo pessoas, porque também existem mulheres boêmias, mulheres que gostam da noite e sabem que é na noite que se faz música, que se diz poesia com mais sentimento e que, enfim, é à noite que o amor é mais amor”. Já não tinha a mesma saúde de antes, quando se tornou um rapaz famoso, mas suas letras continuavam ferinas. Famoso e com muita tarimba como músico, consta que foi levado por Francisco Alves para o Rio de Janeiro, onde faria grande sucesso com seus sambas, interpretados exclusivamente pelo “Rei da Voz”.
O curioso é que ele vivia de noite, mas ele era um homem casado e de notória vida pública. Como explicar a sua lide noturna, naquela infrene rotina de bares e serestas, então? O velho boêmio se defendia. Contrariando opiniões, ele tinha a convicção de que realmente é preciso construir um lar:
— Se fizermos uma média, vamos ver que os boêmios solteiros raramente atingem os quarenta anos — revelou, em tom de brincadeira. — Temos a sorte de encontrar no casamento a segunda mãe. A elas cabe a função de nos fazer um chazinho de marcela e a nossa sopinha quando estivermos de ressaca, e também nos passar uma carraspana quando andarmos abusando.
Haja verniz! Assim era “O Boêmio”, esta figura singular dos botecos noturnos da Porto Alegre de outrora. Mesmo que fosse capaz de fazer as feministas subirem pelas paredes como lagartixas profissionais com seu romântico machismo, ele defendia as suas posições. O velho boêmio explicava que é um grande erro pensar que o marido pode ser modelado à maneira da esposa, pois o verdadeiro boêmio não renuncia: “para ter felicidade em seu lar, as mulheres devem deixar seus maridos, nos dias de saudade, visitar o seu bar predileto, rever seus amigos do peito e tocar seu violão para fazer higiene mental e voltar sorrindo para as suas obrigações”. Cínico? O machismo ingênuo era a licença poética do nosso (anti) herói. Claro que hoje os tempos mudaram. Os modos também. Para o leitor perplexo, não deixa de chocar tamanha indolência.
Era a doutrina estóica da boemia. Ou “boêmia”, como diziam os antigos. A vida dupla do pai de família austero, ciente de suas obrigações, e o bicho da noite, amante da bebida e dos bas-fonds da cidade. A rotina ia de conversa em conversa, até que o seu Abílio da Sete, já choroso, explicasse que não tinha mais como suportar o “pendura”. Para demonstrar seu desespero, o bodegueiro abriu o caixa para nosso herói: até o dono do jornal ao lado havia deixado montanhas de vales. O nosso “boêmio”, porém, tem o seu plano B: a serenata. Sempre havia uma forma de esticar a palestra e, se possível, transformá-la numa peregrinação etílica. Uns no violão, e os outros, menos sóbrios, no gogó.
E era assim, todo dia, noite adentro, pelo Centro e arredores. Panteleão Teles, Beco do Oitavo, até a Cidade Baixa, Ilhota (“a mais bela vila do mundo”), Menino Deus. E dê-lhe conhaque! Ao norte, perto da gare da Viação Férrea, no American Boite ou no Marabá. Ou Azenha abaixo, até a Cabo Rocha, famosa zona do baixo-meretrício porto-alegrense dos anos 40 e 50. E se de repente, um bolso amigo não subvencionasse a bebidinha? E se não tinha onde beber, a saída era arrecadar uns companheiros nas mesas e sair rua afora, rumo à casa do primeiro amigo à mão, para cantar um número qualquer, sem compromisso, (como se dizia na época). O bando chegava sorrateiramente, se punha na janela, afinava a garganta e começava a cantar:
Se acaso você chegasse
No meu chatô
E encontrasse aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela
Que já lhe abandonou?
Ou:
A noite é uma criança
E eu sou o seu brinquedo
Não sou eu quem chega tarde, amor
É o sol que chega cedo...
Logo, o amigo abria a janela, e oferecia uma rodada de conhaque para todos. E aquele canto abafado de bêbado tentando disfarçar a bebedeira e as desafinadas. E dê-lhe palestra e risada de trago. E dê-lhe cangibrina! E a payada ia de casa em casa, de amigo em amigo, de conversa em conversa, de garrafa em garrafa, até que o sol aparecesse na amplidão. Era o ídolo dos notívagos. “Todas as noites, íamos sempre a algum aniversário ou então improvisávamos uma festa, só para poder cantar”, revela o nosso “notívago”.
E o “Boêmio” se divertia em discussões com santas senhoras que, quase sempre, desdenhavam de sua “vocação” mais de cigarra do que de formiga. Não deixa de ser cômico. Alguém até disse que as suas opiniões eram para horrorizar feministas, moralistas, éticos, estéticos e politicamente corretos em geral. Divertido era ver o homem incapaz de fazer mal a uma mosca causar mais polêmica que um Antero de Quental. Ora, então para quê as leis foram inventadas? E a noite? E a vida?
— Os boêmios, minha senhora, são geralmente bons maridos — contornava, ante a perplexidade da dona que o encarava.
.Ele explicava que conhecia muito bem os perigos que são as mulheres livres quando se dispõem a conquistá-los e os que sempre caíam no canto de sereia eram os inexperientes. Ele até compôs um samba-canção a um amigo que iria se casar. Na letra, o “Boêmio” avisava aos marinheiros de primeira viagem: “saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura de luz”. Consta que a noiva do rapaz a quem a canção fora dedicada descobriu o autor e o execrou desde então. A ressentida moçoila agora não ousava olhar para a cara do nosso ilustre compositor, quando o noivo dela ia ter com ele. Bom, paciência. Se perde a amizade mas não o samba...
Era o estoicismo do risco, a indefensável filosofia do “Boêmio”. A rotina era sair a noite à procura de alguma coisa que se sabe ou não se vai encontrar, mas o que vale mesmo é o ritual da eterna procura. Não é inútil porque a lide reside nessa busca. Mas não havia de ser nada: boemia é um estado de espírito. Explica nosso herói: “os boêmios são pessoas que amam o belo, adoram a noite, a lua e tudo o que os desvie do trabalho do lar, apesar dos petelecos da patroa”. Mas — segundo ele — existem os falsos notívagos, que usam cabelo comprido para se passarem por poetas sem jamais terem escrito sequer um verso, e que desprezam o que lhes é mais caro na vida em troca de um rabo de saia. “Mas o amor é muito traiçoeiro”, entendia. Quando o amor chega, começa aí a grande luta da consciência com o coração, dizia ele. “Alguns menos sensíveis resolvem o caso com facilidade; mas o homem que tem consciência pensa muitas vezes antes da decisão final”. Para ele, tudo não deveria passar de uma aventura, etc. A velha potoca.
Mas se não ouvisse a voz do coração, o que seria do boêmio? “Eu digo isso porque já andei fazendo das minhas e sei muito bem o que sofri”, diz ele. “Curti minhas mágoas chorando escondido, sem que alguém me socorresse”. Então, os boêmios também choram? Parece que, aqui, o folgazão dá lugar ao homem traído, no lado mais humanizado do pobre diabo. O bar do seu Abílio agora já está vazio. Ele pede mais uma dose de conhaque barato ao garçom, se aproxima do seu interlocutor, e explica, com voz ciciante: “eu tenho sofrido muito nas mãos das mulheres, porque sou muito sentimental, mas também ganho fortunas com o que elas me fazem. Cada uma que faz uma sujeira, me deixa com inspiração para compor algo”. Parecia que ele ia fazer uma confissão amargurada, de tango, mas sorriu. Deu um gole no “caubóizinho”, e disse:
— Meu primeiro carro foi comprado com o dinheiro de um samba, feito para uma mulher. E minha casa foi adquirida com dinheiro de um samba, também por causa de uma traição.
Ironia? Na verdade, o seu cancioneiro particular era uma rescolta de sambas dor-de-cotovelo. Pelo menos, a maior parte dele. Era mais ou menos essa a expressão correta. Dor-de-cotovelo. Um eufemismo para “descornamento”. Uns, meio tenebrosos, outros, excêntricos. Muitos podem nos despertar compaixão. Um tanto são capazes de nos projetar para dentro deles. À guisa de demonstração, ele resolveu cantarolar um. Pegou o violão, e:
E aí
Eu comecei a cometer loucuras
Era um verdadeiro inferno, uma tortura
O que eu sofria com aquele amor
Milhões de diabinhos martelando
Meu pobre coração, agonizando
Já não podia mais de tanta dor
E aí
Eu comecei a fazer verso triste
O mesmo verso que até hoje existe
Na boca triste de algum sofredor
Será que existe alguém, que ainda tem
Coragem de dizer que os meus versos
não contém mensagem,
São palavras frias, sem nenhum valor?
Oh, Deus, será que o senhor não está vendo isso?
Então por que é que o Senhor manda o Cristo
Aqui na terra, semear amor?
Quando se tem alguém que ama de verdade
Serve de riso prá humanidade
É um covarde, um fraco, um sonhador?
Se é que hoje tudo está tão diferente
Por que não deixa eu mostrar a essa gente
Que ainda existe o verdadeiro amor?
Faça ela voltar de novo para o meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve seu mundo
Com a minha dor.
Uma pequena catilinária, em sua poesia patética e inconoclasta. E dava para ver o gosto e a cara marejada do pessoal da mesa. O “boêmio” deu um pigarro, alçou a fronte e gracejou, com um sorrisinho tímido e maroto:
— Isso que se eu tivesse que dividir meus direitos autorais com as inspiradoras das minhas músicas, não sobraria nada para mim!
Riso geral. Pelo menos, serviu para acalmar os ânimos, mas a letra ainda ecoava pelas paredes suadas do “fedor” da Sete de Setembro. Bom! Mas acho que me alonguei demais com a história do “Boêmio”. Portanto, vou ficando por aqui. Mas crio que o ilustre leitor que resolveu chegar até aqui deve estar se perguntando: quem diabos é esse compositor de letras tão pungentes, amante da noite, das mulheres e da bebida, notívago nato, porto-alegrense profissional, sambista com láurea acadêmica e compositor vocacional? Esse era Lupicínio Rodrigues, que partiu há exatos 30 anos. Mas a vida lunar da sua boemia até hoje perfaz a eterna ronda noturna dos bares.
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