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EM PÓ #37
O MAIOR CRIME DA TERRA
O
dia em que os habitantes de Porto Alegre se transformaram em antropófagos
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
ocê já ouviu falar no caso do linguiçeiro da rua do Arvoredo? É uma história antiga, que sobreviveu por anos a fio pela tradição oral e por muito tempo, acreditou-se que se tratava apenas de uma lenda urbana. A história oficial em vão buscou abafar a história, mas a verdade é que a cidade entrou para a galeria dos crimes mais hediondos por causa de um homem insuspeito, bon vivant — na verdade um verdadeiro chacal escondido com peles de um dândi, e talvez o maior facínora de seu tempo. Tudo começou em 1863, na provinciana Porto Alegre dos tempos do Segundo Império. Naquele tempo, a capital era a quarta maior do Brasil, com cerca de 20 mil habitantes, 4 mil casas, 18 edifícios públicos e sete igrejas. Foi na cidadela que se encastelava na península central de ruas sem calçamento e cheia de tocas de tatu de escravos fugidos que nasceu o mito de José Ramos, o insuspeito açougueiro que fazia lingüiça de restos humanos.
Ramos era considerado como um discreto gentil-homem, elegante e viajado, como se saísse das páginas de um romance de Alexandre Herculano. Era visto em casas de ópera da cidade e consta que tinha excelente gosto musical. Na verdade, ele era uma espécie de inspetor de polícia que foi obrigado a fugir de Santa Catarina após matar o próprio pai. Em Porto Alegre, o assassino se tornou um homem da lei. Foi quando ele conheceu Catarina Pulse, magiar descendente de alemães, nascida na Transilvânia (é verdade!). Casada, viu o marido se matar na própria frente durante a viagem ao Brasil. Essa mulher de personalidade enjeitada conheceu o nobre José Ramos. O amor bandido de ambos deu origem à lenda dos carniceiros. As primeiras vítimas — sempre gente de fora — eram fisgadas por Catarina no Beco da Ópera (hoje a rua Uruguai, no coração de Porto Alegre).
Atraídos pelos dotes físicos da mulher, eles iam para o cadafalso por um trajeto obscuro de ladeiras, do velho Beco do Poço até a rua da Igreja (hoje Duque de Caxias), até a casa dele — um sobrado que ficava atrás da antiga Matriz, na rua do Arvoredo, hoje Fernando Machado. Curioso é que aquele sobrado era aziago. Ali ocorreu o primeiro latrocínio, segundo registros da época. Pior que isso, nos fundos da Igreja da Matriz (onde hoje resiste bravamente a Catedral) ficava o cemitério da cidade. Como a chuva amiúde lavava o terreno, não era raro encontrar fêmures e caveiras rolando sorridentes pela rua do Arvoredo. Como ninguém queria alugar aquela casa, Ramos e Catarina se mudaram para lá, transformando aquele pardieiro refugado pela sociedade no seu ninho de amor e lascívia. Era ali, naquele ambiente íntimo, que eles matavam as suas vítimas, com requintes de crueldade...
Ramos cometia seus crimes à noite, sempre ajudado pela parca iluminação da cidade do tempo dos acendedores de lampião. O falecido historiador Décio Freitas, que foi o primeiro a coligar todos os fatos referentes aos crimes da rua do Arvoredo no livro O Maior Crime da Terra (Sulina, 1998, fora de catálogo), é quem diz: “parte da cidade é iluminada por lampiões a óleo de peixe, que iluminavam mal e sempre expelem uma fuligem que suja a roupa”. Foi na penumbra das noites porto-alegrenses de antanho que o ofício macabro de José Ramos aconteceu. Cada vítima era bem tratada, com bastante comida, bebida e a conversa inebriante de Catarina, até que ela os conduzisse à sua alcova, com Ramos de voyeur . Eis que, de repente, Ramos parecia empunhando uma machadinha, e fendia a cabeça do seduzido pobre diabo. Abria-a de alto a baixo, com precisão cirúrgica.
Com técnica refinada, cada corpo era degolado, esquartejado, descarnado e cortado com capricho e em fatia, para serem acondicionados em baús. Para o trabalho, o açougueiro contava com a ajuda de Carlos Claussner — que pouco tempo depois seria transformado em lingüiça pelo comparsa. Com o moedor, ele fazia guisado da carne e preparava o produto, oferecido para toda a cidade em seu açougue da rua da Ponte (hoje Riachuelo, fundos da Igreja Nossa Senhora das Dores). Consta que a lingüiça de José Ramos era muito apreciada. Desbaratado o caso em 1894, Ramos foi condenado à forca e Cataria morreu louca num hospício. A despeito de todo o escândalo, os crimes da rua do Arvoredo foram propositalmente ignorados pela imprensa de época — da mesma forma com que aconteceria com o triste episódio dos Muckers , trinta anos depois, em Sapiranga. Em sua pesquisa, porém, Décio Freitas constatou que a história repercutiu em jornais da França e do Uruguai!
Com o passar dos anos, a história foi ganhando contornos fantásticos. Uns dizem que Catarina era bela e sedutora, outros que era uma mulher arredia e comum. Com a ajuda de Freitas, o jornalista David Coimbra pegou o mote em Canibais — Paixão e Morte na Rua do Arvoredo (LPM Editores, 2004) . Em seu primeiro romance, ele resolveu reconstituir os passos de José Ramos e Catarina Pulse, acrescentando elementos de ficção — mais ou menos na mesma linha de meter ficção na realidade, como em Agosto , de Rubem Fonseca, ou A Casa das Sete Mulheres , da Letícia Wierchowski. A licença poética da natureza de lenda urbana lhe permitiu recriar toda a história, como aquele que conta um conto e sempre aumenta um ponto.
No caso, vários: o pitoresco em sua versão foi o resgate da história de Porto Alegre do Século XIX, que hoje existe apenas em poucos livros de história, que ninguém mais lê. É desse mundo que Canibais se insurge, num estilo de folhetim, num texto rico e enxuto como o das crônicas de David. Não que o livro do Décio não seja bom. É que, muitas vezes, a objetividade do historiador pende sob a cabeça deles como a espada de Dâmocles e o elemento ficcional pode subtrair o seu valor como fonte de pesquisa. Aliás, o próprio Décio insistiu para que David transformasse a sua pesquisa sobre a Rua do Arvoredo num divertido (e tenebroso) folhetim.
E a velha história da Rua do Arvoredo é mais interessante como literatura. Porém, se ele mostra a cidade “real”, usou de licença poética para criar novos personagens, tecendo uma rede inextrincável de eventos que descrevem, a um só tempo, várias das lendas urbanas de Porto Alegre (como um certo sapateiro alemão chamado Walter em homenagem ao avô de David, que lhe contou a história pela primeira vez) e colidi-los com ilustres habitantes da época, contudo de forma anacrônica, como a Baronesa do Gravataí e a prostituta-feiticeira Bronze (que na verdade, existiu antes), que deu nome à uma região do Centro da capital dos gaúchos.
O engraçado em Canibais é avaliar como a história se disseminou no “inconsciente coletivo” da cidade hoje. Perto de onde ficava a casa de Catarina Pulse existe um casarão soturno e abandonado. Apesar da arquitetura típica da década de 1920, a vizinhança jura para qualquer transeunte distraído que aquela é a casa “do José Ramos”. Outro fator peculiar fica por conta da recriação dos personagens principais. Pela falta de referências históricas à Catarina, David Coimbra tratou de, bem ao seu estilo, transformá-la numa ardente e sensual Anita Eckberg dos tempos do Imperador, com seu porte altivo, ancas triunfais e seios de granito, capaz de arrastar os homens à perdição...
Consta que Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies soube dos crimes da rua do Arvoredo, e da época e do lugar onde todos os habitantes se transformaram em antropófagos, apenas disse:
— O instinto venceu a razão: há um chacal adormecido em cada homem.
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