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EM PÓ #38
ANJO GALHOFEIRO
Álvares de Azevedo foi um antecipador de elementos modernos da poesia
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
poeta Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1853) entrou para a história da Literatura Brasileira como um autor mórbido. Como se não bastasse isso, cartilhas e cursinhos cuidaram de transformá-lo num estereótipo. Como o objetivo de otimizar a sua didática e criar um modelo na mente de seus distraídos pupilos, professores não medem esforços nesse sentido. Para ajudar, existem as iconografias da época, que o apresentam com um olhar blasé , cabeça pendida sobre a mão e roupas escuras, como uma espécie de dark temporão. Mas é preciso fazer justiça à ele e, de vez em quando, contextualizar um pouco a sua obra. O autor de versos tristes como “Lembrança de Morrer,” e “Se eu Morresse Amanhã” não foi um autor essencialmente mórbido. Muito mais do que isso, o poeta paulistano foi um antecipador de elementos modernos da poesia brasileira.
Um bom exemplo é “Idéias Íntimas”, poema pouco conhecido da Lira dos Vinte Anos . A beleza do texto reside no surpreendente: num retrato impressionista, ele descreve a sua vida bucólica de estudante e a profunda identificação com os autores que ele sempre leu e copiou ao seu estilo: Ossian, Shakespere, Goethe, Lamartine (que lançou o Romantismo na França). Sobre o bardo alemão, Álvares de Azevedo escreve, em versos brancos, uma crônica de si mesmo:
Fantástico alemão, poeta ardente,
Que ilumina o clarão das notas pálidas
Do nobre Johhanisberg! Nos teus romances,
Meu coração deleita-se...Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias,
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando,
Minha casa não tem menores névoas,
Que as deste céu de inverno...Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Nota-se a junção do seu eu-lirico com a de seus autores preferidos e o despojamento que transforma o tom declamativo em algo compulsoriamente patético e divertido.
Debalde ali de um canto um beijo implora
Como que a beleza que o sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado
Não passeio a cavalo e não namoro
Odeio o Lasquenet ...Palavra de honra!
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.
O discurso permanece declamatório e palavroso, mas a retórica é quebrada pelo sarcasmo que permeia todo o poema. Irônico, ele faz o limite entre o panteão dos poetas e o lugar onde ficava um hospício, no Rio de Janeiro. Quer dizer, se não pirar, pelo menos, ganha os louros da glória. Na terceira parte, ele faz uma imagem de seu quarto:
Reina a desordem pela sala antiga
Desce a teia de aranha as bambinelas
A estante pulverulenta. A roupa, os livros
Sobre as cadeiras poucas se confundem.
Marca a folha do Faust um colarinho
E Alfredo de Musset encobre às vezes
De Guerreiro ou Valasco um texto obscuro
Como outrora do mundo os elementos
Pela treva, jogando cambalhotas,
Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!
Note como ele amalgama a bagunça do quarto com a de sua mente, ao ter que conciliar a confusão entre optar por Musset e Goethe a autores de suas disciplinas de Direito (na verdade, não se diferencia muito da vida de qualquer estudante). No meio do caos, ele espera um “Faça-se” (“Fiat”) como no Gênese...
Junto do leito, meus poetas dormem
Dante, a Bíblia, Shaekspere e Byron —
Na mesa confundidos. Junto deles
Meu velho candeeiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Marisa Lajolo escreveu em estudo já antigo que o Brasilianismo de Álvares de Azevedo se deu no surgimento do Brasil urbano. Segundo ela, os seus melhores escritos tratam de um país próprio na ótica de um estudante de Direito, afeito à galhofa e à brincadeira. De fato, mais parece um contraponto ao lirismo idealizado e carnavalizado sobre os modelos europeus. O byroniano Álvares esconde um espírito de sugestão da malandragem. Em sua obra, esse é um ponto que escapa aos estereótipos que se penduram em sua imagem. Como na terceira parte de “Spleen e Charutos”, intitulada “Vagabundo”, onde ele se insere, se projeta e se confunde no ambiente poético-urbano:
Namoro e sou feliz nos meus amores
Sou garboso e sou rapaz...Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...
Oito dias já vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora
Ela ao ver-me sorri tão docemente,
Desconfio que a moça me namora!
Escrevo na parede as minhas rimas
De painéis a carvão adorno as ruas,
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua!
Sinto-me no coração de lazzaronni
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não crio no diabo e nem nos santos,
Reza à Nossa Senhora e sou vadio!
Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo à noite...
Mais conhecido, “Namoro a Cavalo” conta a sua malfadada tentativa de cortejar uma jovem “lá no fim da rua do Catete”. Não esconde a sua posição social e a fanfarronice de furtar versos para oferecer à namorada e o fado do seu tragicômico idílio:
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia- em casamento...
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafues encheu de lama...
Eu não desanimei! Se Dom Quixote
No Rossinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes, tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair, de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Por fim, mais um texto interessante de Álvares de Azevedo é “O Editor”, que não é uma obra-prima mas tem um curioso valor histórico. Mostra o aspecto econômico da produção literária “burguesa” dos tempos do Romantismo com o surgimento das primeiras grandes tipografias e a mudança da relação do autor com a obra como produto. Mesmo sendo um artista, ele agora é tributário de seu valor de troca. Álvares de Azevedo, é claro, desce do Parnaso, manda a poesia aos diabos e trata do assunto não sem uma certa dose de cinismo em versos brancos.
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã veio à noite
Aos ouvidos de Adão adormecido
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo.
Se houvesse o Deus vintém no Paraíso
Eva não se tentava com as frutas,
Pela rubra maçã não se perdera.
Preferira de certo o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo aos meus trabalhos,
Eu mostraria o quanto o povo mente
Quando diz que — a poesia enjeita, odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre)
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro La Fontaine!
E tantos que melhor de certo fora
Dos poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem,
E alguns até chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta. Na gaveta,
Se Camões visse o brilho do dinheiro,
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterlon,
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam? 
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