Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

24 de dezembro 2004 a 8 de janeiro de 2005

Equipe Edições Anteriores

LATIM EM PÓ #39

CÓDIGO DYLAN
Em Chronicles, Bob Dylan demonstra que sua regra número um é não se levar muito a sério
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ob Dylan lançou este mês de dezembro a sua autobiografia Chronicles. A polêmica que gira em torno do livro (muito interessante) é que ele parece ser o mesmo de suas entrevistas. Ou seja, aquele que se diverte com a seriedade do mito que existe em torno de sua vida. O poeta escrevendo a sua própria existência não seria algo tão objetivo como o livro de Howard Sownes sobre o compositor, mas também não seria menos interessante. O único problema seria se Chronicles se tornasse mais comentado do que lido. Como profeta da mídia dos tempos da Guerra Fria - porém ligeiramente indissociado das lutas sociais do começo dos anos 60 -, é impossível não se espantar com sua frieza ao afirmar, na obra, que ele rejeita a pecha de ícone. Muitos críticos se apressaram em ver ali a representação do Dylan com fundo falso, e que a sua autobiografia não passa de um imenso sofisma. Outros o preferem como profeta, uma espécie de Elias com gaitinha de boca e violão 12 cordas, etcetera e tal. Certo é que gente que chegou onde ele chegou não tem muito o que fazer contra o próprio mito. Mesmo assim, o “profeta” se defende: “eu tinha muito pouco em comum e conhecia ainda menos da geração da qual supostamente eu era o porta-voz”.

Parece que Bob Dylan quer, a seu modo, pedir trégua e desmitificar tudo aquilo o que ele acabou representando para a geração dos anos 60. Se formos analisar a obra dele, vamos ver que ele jamais se desligou das raízes do rock e do blues. O “porta-voz” de uma geração foi entronizado como profeta porque aderiu à causa folk, inspirado por Woody Guthrie. Virou mito por causa de canções como “A Hard Rain’s Gonna Fall”, “Times They Are Changin’”, “Masters of War” e “Blowin’In The Wind”. Só que a leitura de que ele foi a voz guia dos “rebeldes anos 60” é anacrônica, e é isso o que ele diz no livro. Nem toda a produção tem a marca “de protesto”, ou propriamente se propõe a arregimentar hostes de hippies ululantes a mostrar as orelhas de burro aos poderosos. No máximo, fez uma campanha pela soltura do boxeur Rubin Carter, em meados dos anos 70. Nem tudo o que ele produziu foi realmente de qualidade ou se propôs a isso. Álbuns como os obscuros John Wesley Harding e New Morning, o caipira kitsch Nashville Skyline ou o intimista Blood In The Tracks o apresentam na contramão da contracultura e milhas distante de seu público, assumindo uma postura mais reclusa e individualista.

Em Chronicles, o que ele quer dizer é que o que o motivou a empunhar uma guitarra foi o rock de Elvis Presley. Em momentos decisivos de sua carreira, ele, Dylan, se escondeu de seu público. Ao mesmo tempo, ele mesmo entrou na roda viva do mercado que a velha esquerda tanto pintou de vermelho. O poeta não manteve sua pureza porque não optou por pregar no deserto, como um João Batista, embirradinho contra o Capitalismo Selvagem. Ao contrário: Dylan se serve dele muito bem. Ele também vive a era da velocidade, do clipe, do jabá, da auto-exploração da imagem. Ele tem um site subsidiado pela mega-gravadora Sony que se presta mais a vender livros, discos, tickets para apresentações, DVD, CD e Super Áudio CD e outras picaretagens do que a resgatar a mensagem do “profeta” de “Tombstone Blues”. A despeito de toda a imagem pessimista que a leitura que a velha esquerda faça a respeito do que a chamada Indústria Cultural possa provocar de nocivo à sociedade (!), a verdade é que Dylan nasceu dela e é tributário disso tudo e, sobretudo, se sente um impostor porque seus vencimentos dependem dessa aura que se criou em torno do mito do poeta rebelde. É com os royalities de “Like a Rolling Stone” que ele paga a pensão para a sua ex-esposa, Sara Lowdes. Ou não?

Mas Dylan só pode ser impostor para aqueles que o idealizaram. Ao contrário da imagem romântica da Contracultura, ele mostrou que existe espaço para a poesia e para o senho, a despeito dessa realidade pessimista criada pelos mitos de esquerda. Bob Dylan mostrou que é possível ser autêntico pregando para os gentios roubando o seu código cultural, ao invés de ficar se lamentando da vida pelos cantos, como um anacoreta. Ao mesmo tempo, mostrou que se pode ser autêntico utilizando os clichês da dita música ligeira, tão odiada pelos decaídos frankfurtianos. O velho poeta escreveu o seu maior clássico colocando uma letra quilométrica numa base afro-cubana roubada de “La Bamba”, como ele mesmo disse. Dylan escreveu discos só de blues, com letras tacanhas de um lado, e baladas folk quilométricas do outro, como Bringing All Back Home. Ao mesmo tempo, compôs letras (chamadas de “hinos”) para movimentos sociais, enquanto descosturava esse discurso aparente com letras absurdas, e que não falavam nada para ninguém. O compositor mostrou que, ao contrário do que se diz a respeito do âmbito comercial da música e da cultura, é possível se ganhar dinheiro com dignidade.

Ele mesmo dialogou com a mesmice e a banalidade contemporâneas. Não escreveu artigos contra o “mundo cruel”. Do contrário, se valeu dos seus códigos para passar a sua mensagem. Dylan também foi repetitivo e uniformizado em suas músicas - como Bach e Mozart. Ele passou a vida inteira improvisando sobre a base de doze compassos do blues. O que não é nenhum demérito. A escola dele é de Ma Rainey, de Elvis, de Robert Johnson, Leadbelly e de toda a tradição musical norte-americana. Se formos contextualizar bem o seu testamento musical, podemos ver que ele sobrevive na música atual. Se alguém quer dizer alguma coisa numa canção, tudo começou com Dylan. E ele não fala só aos rebeldes. Ao querer se desmascarar, ele quer ser o iconoclasta da própria religião que se formou sob seus pés. Do contrário, ele poderia ser hoje o modelo do ex-rebelde acomodado, que ganha rios de dinheiro com as graças dos fiéis de sua Igreja particular, e que ainda o idealizam como o profeta de “Blowin’In The Wind”. Se autoproclamar uma fraude não passa de uma blague típica dele, cuja regra número um é não se levar a sério. E de uma forma mais sutil do que a de Ozzy Osbuorne.

Pode ser que o que o personagem de Chronicles seja apenas uma ficção e o heterônimo de Robert Zimmermann, outro personagem, que morreu em 1961, por aí. Como é o “Dylan rebelde”. Hoje, quem trava conhecimento com sua obra pode fazer outra leitura: a de uma pessoa que pode ser intelectual com uma postura rocker. Dylan é midcult. Ele não manda os seus ouvintes escutarem suas músicas sob trevas da caverna de Platão. Ele quis utilizar os códigos deles, ao invés de se tornar um apócrifo, para ser decifrado por algum Champolion. Foi por isso que ele empunhou a guitarra e tocou “Maggie’s Farm” em Newport, gerando o ódio dos ortodoxos militantes de esquerda que o queriam odiando o governo e cantando “Masters of War” até a morte. Ele era ali o rebelde contra a rebeldia. O autor de “Just Like a Woman” era o protótipo do intelectual sem bibliotecas, sem pragmatismo, sem idealismos, sem ideologia política, sendo capaz de entrar e sair de todas as estéticas, de ser uma metamorfose contra o anacronismo dos que o meteram num trono, com o anel, o pálio e o cetro. Há muito tempo ele passou dos portões do paraíso.

A ele não cabe qualquer liturgia, a não ser a liturgia secular dos que caíram na vida e que preferem o sarcasmo ácido ao moralismo fútil. E o melhor de sua pena são os seus discos, que quase ninguém ouve. A última coisa que ele certamente detestaria ser é um “rodrigueano” líder canalha (“don’t follow leaders/ watch the parking meaters”) ou a de um burocrata de discurso amargurado, negativista ou populista, daqueles que prometem e nada fazem, na vida real. E os seus seguidores que me perdoem, mas ele não prometeu nada. Porque ele está certo e anos-luz de seus exegetas (inclusive este criado que vos escreve). A sua melhor forma de defesa é descer do tom profético que o acusam e rir disso tudo. Dylan revelou que preferia ser como Elvis Presley. Mas, cá para nós, caríssimo leitor: seria um tanto curioso se víssemos concursos de sósias dele por aí, como acontece com o preclaro Rei do Rock.